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13/05/2009

Caso de envenenamento na França mistura amor obsessivo, arsênico e geleia

Le Monde
Pascale Robert-Diard
Já fazia tempo que Anne-Marie B. não cumprimentava mais sua vizinha do térreo quando, após sua jornada de trabalho como enfermeira, ela voltou para seu apartamento no primeiro andar do condomínio de La Pommeraie, em uma cidadezinha tranquila do Val de Marne, na França. Um estrago causado por um vazamento as havia feito brigarem irremediavelmente. "A velha", como a chamava Anne-Marie, vivia reclusa atrás das cortinas de sua janela, olhando o ir e vir das pessoas.

Uma primeira carta chegou à caixa de correio de Anne-Marie em março de 2003. Ela era endereçada a seu marido, a quem suas funções de diretor de escola mantinham afastado a semana inteira de casa. Anne-Marie a abriu e leu, em grandes letras impressas: "Senhor B., é um prazer revê-lo. Um dos amantes de sua mulher é policial. Não gosto de policiais. Eles passaram a noite juntos na quarta-feira, 5 de março".

Um mês depois, Anne-Marie encontrou mais uma carta, também anônima, sobre o pára-brisa de seu carro: "Seu amante policial veio sem o carro. Sinto muito pelo seu". Os quatro pneus estavam furados. Em maio, ela interceptou uma segunda carta, também enviada a seu marido, que mencionava os "ardores sexuais de sua esposa e suas saídas noturnas", dando datas e horários precisos.

Anne-Marie B. decidiu procurar a delegacia do bairro. Com certeza foi "a velha" do andar de baixo, ela explicou, que reparou nas visitas que lhe fazia seu "amigo de infância", um policial aposentado. Sua queixa ficou engavetada, já que durante dois anos o difamador anônimo não se manifestou mais. Mas ele reapareceu em dezembro de 2005. Primeiro, uma longa carta. "Era difícil te aguentar, e agora não vejo mais seu visitante de terça-feira que sempre tinha um sorriso no rosto. Era meu raio de sol e seu anjo da guarda, pois ele te protegia, cansei de você, vou acabar com você". E depois mais outra, na qual ainda se falava no "raio de sol". "Na quinta-feira, você o fez perder a cabeça, quando ele foi embora se esqueceu de fechar a braguilha da calça, e isso me fez sorrir. Não há nada de mais belo do que fazer amor, você tem muita sorte, alguém te ama".

O "raio de sol", explica Anne-Marie aos policiais, só pode ser Roger, um outro amigo de infância cuja mãe mora no imóvel vizinho e que vai regularmente ajudá-la. Como ele é supervisor em uma oficina mecânica, foi a ele que ela confiou o conserto da porta de seu carro, na qual alguma mão anônima havia gravado a palavra "chifrudo". Foi para ele também que, um dia, louca de raiva, ela pediu para riscar o olho mágico da "velha" do térreo.

Na caixa de correio de Anne-Marie B., as correspondências começaram a ficar cada vez mais ameaçadoras. Elas mencionavam o recurso "a um verdadeiro profissional, encarregado de te eliminar". Ao sair para o trabalho, ela descobriu, uma manhã, que uma roda de seu carro havia sido desparafusada. Na delegacia, a questão começou a ser levada a sério. Mas Anne-Marie B. tinha outras preocupações.

Alguns meses atrás ela começou a sentir muito cansaço, dores por todo o corpo, e às vezes sentia uma paralisia nas pernas e falta de ar. Era difícil realizar seu trabalho de enfermeira, e as licenças médicas se multiplicaram. No hospital, os médicos procuraram e não encontraram nada. Até o dia em que um deles reparou que suas unhas apresentavam estranhas estrias brancas. Um sinal, informou o médico incrédulo, que poderia revelar um envenenamento por arsênico. Os exames confirmaram.

O caso adquiriu outra dimensão. O promotor se impressionou e abriu um inquérito judicial. Os investigadores foram bater à porta da vizinha do térreo, que não gostou nada disso. Ela se indignou com as perguntas que lhe fizeram e negou ser autora de qualquer carta anônima. Sobre Anne-Marie, a octogenária despejou maldades: "Ela deve ter inveja de meu nível intelectual", ela disse. "Eu terminei o ensino médio, dá para ver! Durante anos fui secretária particular de Léopold Sédar Senghor!"

Alguns dias após a visita dos policiais, uma nova carta chegou à caixa de Anne-Marie B. Ela leu e se apavorou: "Estou saboreando minha vingança. Um pouco de trióxido de arsênio, e você vê o resultado em sua saúde. Não me crie mais problemas". Uma semana mais tarde, uma nova mensagem: "Vou te dar uma pista: o sangue não tem a memória dos cabelos! Cabe a você procurar". Junto com a carta havia a fotocópia de um rótulo muito antigo, no qual se podia ler: "trióxido de arsênio".

Uma manhã, sobre o para-brisa de seu carro, Anne-Marie descobriu um minúsculo frasco de arsênico, com estas palavras: "Eis uma pista importante para sua cura". Ele logo foi enviado para análise. O frasco datava de...1847. Começou a chover cartas, misturando recomendações de tratamento com novas alusões à sua vida sentimental. "Faz anos que você me instiga a trocar de amante como troco de camisa. Talvez eu tenha inveja, nunca tive amantes, ao contrário de você, que é o típico exemplo de uma loira que não tem nada na cabeça".

Os investigadores voltaram à casa da "velha", fazendo uma busca em seu apartamento. Nenhum indício de computador, nenhuma inscrição em um curso de informática, nenhuma retirada suspeita de sua conta bancária que pudesse confirmar a teoria de um pagamento para um terceiro. Nada, absolutamente nada, que pudesse acusar a ex-secretária de Senghor. E nenhum rastro que se pudesse seguir. Todos os parentes e amigos de Anne-Marie B. foram interrogados. Os policiais começaram a suspeitar que ela não estava contando toda a verdade a respeito das relações com seus "amigos" de infância.

Eles se interessaram sobretudo por Roger Lacome, o amigo da oficina mecânica, o mais leal, que acudia Anne-Marie cada vez que ela se preocupava, a tranquilizava, colocando um ferrolho extra em sua porta, e lhe trazia potes de geleia quando ele ia jantar na casa de sua mãe. Eles notaram que a cabine usada para as chamadas anônimas se encontrava no meio do caminho entre a casa de Roger e a de Anne-Marie.

O telefone da enfermeira foi grampeado. Os investigadores entenderam então que suas relações eram claramente mais íntimas do que ela havia contado, e que Roger tinha as chaves de seu apartamento. Então toda a investigação passou a se concentrar sobre esse homem. Roger Lacome foi solteiro por muito tempo, dedicando seu tempo de lazer às maquetes de aeromodelismo. "A gente pensava que ele ia se casar com um motor de carro!", disse um de seus amigos. Aos 45 anos, ele acabou deixando a casa de seus pais para se casar com uma mulher que já era mãe de dois filhos com graves deficiências. Ela trabalhava na mesma oficina que Roger, e este foi funcionário-modelo durante 39 anos. Ele criou os filhos de sua mulher como se fossem seus. As opiniões são unânimes, não havia ninguém mais camarada que Roger. Somente a enfermeira admitiu que ele era "meio grudento".

No dia 23 de abril de 2008, os policiais foram até seu local de trabalho para interpelá-lo. Roger Lacome imediatamente lhes estendeu uma caixinha de filme fotográfico, que continha o resto do arsênico. Um dia ele estava vasculhando a oficina de seu pai, achou o velho frasco e o guardou. Ele também deu aos investigadores uma chave USB que estava com ele, e que continha os originais de todas as cartas do difamador anônimo, bem como dezenas de páginas passionais que ele nunca enviou a Anne-Marie. E, além de tudo, ele lhes pediu para confessar tudo diante dela: "Anne-Marie, olhe para mim. Fui eu que coloquei arsênico na geleia de damasco. Eu não queria te perder. Eu sei que você ainda vai me dizer que sou um idiota".

Eles se reviram pela primeira vez na quarta-feira (6) diante do tribunal correcional de Créteil, que julgava Roger Lacome por "administração de substâncias nocivas e ameaças de morte". Ela, com seus sessenta e poucos anos, toda vestida de preto, muda e tremendo no banco das partes civis. Ele, no banco dos réus, homem miúdo e sem graça de cabelos grisalhos, usando uma camisa azul abotoada até o pescoço, com as mãos juntas. Ele contou sobre sua paixão, desde os 10 anos de idade, por aquela que vivia no mesmo bairro que ele, e que ele via sair da escola de garotas vizinha à sua. Todas essas vezes em que ele quis lhe dizer que a amava, sem nunca ousar fazê-lo. Então ele decidiu continuar sendo seu "amigo de infância", encontrando todos os pretextos para se fazer útil a ela.

Até que, por volta dos cinquenta anos, ela cedeu. Por um momento, ele acreditou nisso, mas logo ele sentiu que ela só "gostava bastante dele". Ele contou que as cartas anônimas começaram quando ela tentou pôr fim a suas relações íntimas e quando ele entendeu que o outro "amigo de infância" era um pouco mais do que isso. O arsênico? "Eu só queria que ela tivesse febre e me chamasse", ele disse.

Anne-Marie teve bem mais do que febre. Após uma longa convalescência, ela voltou para seu trabalho, mas ela ficou com diversas sequelas. "Eu não queria lhe fazer mal", ele explicou ao tribunal. "Mas reconheço, não me saí muito bem".

Roger Lacome foi condenado, na noite de quinta-feira (7), a cinco anos de prisão, com dois de liberdade condicional.

Tradução: Lana Lim

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