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14/05/2009

Cemitério na França é parada obrigatória dos presidentes norte-americanos

Le Monde
Benoît Hopquin Enviado especial a Colleville sur Mer (França)
Os Estados Unidos visitam regularmente seus túmulos. Eles lhes falam de si mesmos e lhes contam os últimos acontecimentos do mundo dos vivos. Donald H. Weisel, da Pensilvânia, Raymond W. Hensley, de Oklahoma, John H. Shepard, de Massachusetts, John T. Berg, de Wisconsin, ou esse anônimo, "conhecido somente de Deus": os 9.387 mortos do cemitério americano de Colleville sur Mer (Calvados) se tornaram confidentes silenciosos com quem desabafar. Esses jovens morreram em 1944 "para que a humanidade pudesse desfrutar da liberdade", como afirma a placa redonda colocada no centro do local.

Pairando sobre a praia de Omaha, o alinhamento dos túmulos brancos - cruzes e estrelas de Davi - sobre um gramado verde normando exala uma potência evocativa. A cenografia espetacular e desamparada dessa esplanada frente ao mar, sua importância histórica, não passaram despercebidas aos informantes do outro lado do Atlântico. É um cenário feito especialmente para renovar as energias.

Benoit Tessier/Reuters - 30.jun.2007 
Veterano da Segunda Guerra Mundial visita cemitério em Colleville sur Mer

Colleville se tornou um lugar de passagem obrigatória dos presidentes americanos. Desde Jimmy Carter, em 1978, todos vieram aqui em visita oficial, com exceção de George Bush pai, que a percorreu em caráter pessoal em 1995. Barack Obama dará seguimento a esse culto em 6 de junho, na ocasião do 65º aniversário do Desembarque na Normandia. Será a conclusão de uma viagem de alta carga emocional que começará no Cairo e passará por Buchenwald.

Diretor do cemitério, Daniel Neese, 55, aceita falar de tudo exceto Obama, por razões de segurança. Esse personagem bem-humorado fez toda sua carreira na American Battle Monument Commission, que administra os 24 cemitérios militares espalhados em 10 países. Metade desses sítios, datando da Primeira ou Segunda Guerra Mundial, se encontram na França.

David Neese vagou de um lado para outro, das Filipinas até a Holanda. "Todos os mortos têm direito ao mesmo respeito", ele garante. Mas ele deve reparar que o sítio normando aos poucos foi carregado de uma simbologia particular. "Ele marca o dia da libertação da Europa", ele resume. Então, a área foi paparicada. Trinta milhões de dólares acabam de ser investidos no museu que relembra em imagens e em som a epopeia do desembarque. Em uma sala especial, um disco recita sem fim os nomes dos soldados mortos em combate.

Inaugurado em 1956, o cemitério de Colleville sur Mer foi cedido pela França aos EUA. Mas, como confirmam os dois policiais militares que patrulham as alamedas, é a lei francesa que se aplica à sombra da bandeira estrelada.

Durante três décadas, o lugar foi menosprezado. Ele só era frequentado por veteranos que vinham cumprimentar seus irmãos de armas e alguns normandos menos esquecidos que outros. Diretor do local pela primeira vez nos anos 80, Daniel Neese viu crescer a frequência e o interesse. Com um milhão de visitantes, entra ano, sai ano, Colleville é o mais visitado dos cemitérios americanos.

O filme de Steven Spielberg, "O Resgate do Soldado Ryan", multiplicou a atenção. Os túmulos mais procurados são os dos irmãos Niland, que inspiraram o filme. A lápide de Theodore Roosevelt Jr., filho do presidente americano, também é bastante concorrida.

Mas seria ofensivo resumir Colleville ao turismo. Aos 78 anos, John Scully fez a viagem a partir de Nova Jersey com alguns amigos, para se lembrar, antes de mais nada. "É uma parte importante tanto de nossa história como da sua, que se passou lá", garante esse visitante cujo irmão participou da campanha da Itália. "Colleville evoca um ideal libertário, democrático", acredita Christophe Prime, historiador no Memorial de Caen. "Seu colega Stéphane Simonnet também lembra esse ícone do "libertador", ao mesmo tempo em que nota o "superdimensionamento do soldado americano" em detrimento dos combatentes ingleses ou vindos de outros países da Europa.

Maurice Druon, prefeito socialista de Caen, ex-professor de História, não se surpreende que os presidentes americanos tenham se arrebatado pelo símbolo. "Neste lugar, os discursos ressoam de forma mais forte. Ele torna a dar um sentido às noções de sangue derramado, de preço a pagar", ele acredita. "Por muito tempo os EUA recusaram qualquer intervenção externa. A Segunda Guerra Mundial trouxe um compromisso duradouro à cena internacional". O intervencionismo americano foi legitimado por esses "boys" do 6 de junho. Então os presidentes, um após o outro, utilizaram essa plataforma francesa para revitalizar o patriotismo nos períodos de crise internacional.

Bem ao lado, em Pointe du Hoc, outro terreno cedido pela França, Ronald Reagan pronunciou um discurso retumbante, em 1984. Em uma época em que os Estados Unidos eram cada vez mais contestados na cena internacional, o homem apelou aos espíritos dos soldados que caíram do pico desse rochedo. Seu discurso ainda é considerado um dos mais eloquentes da história americana.

Em 1994, enquanto os EUA hesitavam em se envolver no conflito dos Bálcãs, Bill Clinton chamou, por sua vez, "os heróis do dia D". Em 2002, às vésperas da invasão do Iraque, George W. Bush veio aqui convocar os americanos para sua cruzada contra "o Mal" e incitar os aliados a "defenderem o mundo contra os terroristas". Em 2004, ele não havia encontrado lugar melhor para organizar uma reconciliação com a França.

Agora que os Estados Unidos estão abalados pela crise, contestados no Afeganistão, Barack Obama deverá, por sua vez, tentar galvanizar as energias e lembrar o legado desses homens que desembarcaram em uma manhã de junho com 30 kg de equipamentos e 200 francos franceses.

Tradução: Lana Lim

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