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15/05/2009

Esquerda radical assusta partidos tradicionais da Alemanha

Le Monde
Marie de Vergès Em Berlim
"Milionários ao caixa!" Para Die Linke (A Esquerda), o partido da esquerda radical alemã, é melhor ir direto ao ponto. O slogan se esparrama em letras grandes nos cartazes que se multiplicam na Alemanha com a aproximação das eleições europeias do dia 7 de junho. Esse credo não deverá mudar nada para as legislativas de setembro, se levarmos em conta as linhas gerais do programa eleitoral divulgado na segunda-feira (11) pelo Estado-maior do partido. O texto denuncia com estardalhaço a "extorsão dos trabalhadores".

Nesses tempos de crise econômica, no entanto, a alquimia não funciona. De pesquisa em pesquisa, Die Linke se estagna. Ou até mesmo perde terreno. O partido do carismático Oskar Lafontaine, ex-líder dos socialdemocratas (SPD), não passa dos 9% a 10% das intenções de voto. Na primavera de 2008 (no hemisfério norte), pouco mais de um ano após sua criação, ele tinha 14% a 15% dos votos.

Na época, levado pelo debate sobre o poder de compra e a redistribuição dos frutos do crescimento, ele havia se imposto como a terceira maior força política, atrás das Uniões Cristãs CDU-CSU e do SPD, parceiros da coalizão governamental. Há alguns meses ele foi relegado para trás dos liberais do FDP [Partido Democrata Livre], os únicos a ganharem pontos com a crise.

E eis que ele se lançou em um vale-tudo com o SPD, que acaba de apresentar um programa ancorado bem à esquerda para as legislativas. Para os europeus, também, os socialdemocratas apostam em um ataque na linha do capitalismo desenfreado. "Os tubarões das finanças votariam no FDP", anuncia um de seus slogans.

Sob ataque em seu terreno, Die Linke só vê uma saída: radicalizar um pouco mais seu discurso. Com as eleições do 7 de junho na linha de mira, Lothar Bisky, copresidente do partido e principal candidato, taxa a União Europeia (UE) de "motor do neoliberalismo". A Europa é ainda responsabilizada por quase tudo, das guerras aos problemas ambientais, passando pela crise econômica.

Os Linke, que parecem os desiludidos da socialdemocracia e herdeiros dos comunistas da antiga República Democrática Alemã, querem se impor como o partido da justiça social. "Nós somos os únicos a realmente defender os trabalhadores e dizemos que os mais ricos devem assumir mais responsabilidade", afirma Klaus Ernst, vice-presidente do grupo parlamentar. "É o que se destaca em nosso programa para as legislativas".

"O imposto dos milionários"
No cardápio: a criação de um salário mínimo para todos de € 10 por hora, quando o SPD pede € 7,50, um aumento significativo na taxa de tributação para os altos salários, um imposto sobre a fortuna - "o imposto dos milionários", segundo palavras de Lafontaine. Ou ainda um terceiro plano de estímulo de € 100 bilhões para criar dois milhões de empregos.

"Mas para resolver seus problemas, os eleitores não confiam neles. Eles preferem deixar a cargo dos partidos do governo", afirma Manfred Güllner, diretor do Instituto de Pesquisas Forsa. Die Linke espera que o aumento do desemprego mude a ordem das coisas. Há semanas que Oskar Lafontaine anuncia a iminência de "conflitos sociais". Ele chama o povo para se mobilizar para uma "greve geral", ao passo que nenhuma manifestação de grande dimensão aconteceu ainda. O ex-ministro das Finanças Gerhard Schröder, que em 1999 havia deixado com estardalhaço um SPD que se tornou centrista demais para seu gosto, chegou a justificar os "sequestros de patrões" à moda francesa. "Eu gostaria que isso acontecesse aqui também, para que percebessem que existe raiva", ele declarou no final de abril.

Enquanto espera, Die Linke se diz convencida de que consegue fazer, em 7 de junho, "10% e mais", segundo Ernst. O suficiente para enviar de volta alguns políticos ao Parlamento europeu. Ainda que ela tenha interrompido sua ascensão, a esquerda radical continua a causar medo nos socialdemocratas. Enfraquecido desde a irrupção desse recém-nascido sobre o quadro político alemão, o SPD não conseguiu reverter a maré. "Os desiludidos do SPD que passaram para Die Linke não voltarão", prevê Oskar Niedermeyer, cientista político na Universidade Livre de Berlim.

Tradução: Lana Lim

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