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18/05/2009

Crise nos EUA acelera retorno de cérebros à China

Le Monde
Sylvie Kauffmann
Aos 39 anos de idade, o chinês naturalizado norte-americano Ding Hong tinha uma boa carreira no departamento de física do Boston College, onde havia conseguido um cargo desejado por todo pesquisador que se preze nos Estados Unidos: a famosa "titularidade", o nirvana dos acadêmicos, uma cátedra para o resto da vida.

Para a pequena família Ding, a vida de sonho transcorria placidamente no verdejante Estado de Massachusetts, entre sua casa em Needham, a escola da filha, os vizinhos, os amigos e as pesquisas do professor sobre a supercondutividade, que o deixavam realizado. A senhora Ding havia encontrado um bom emprego numa empresa de software na estrada 128, o Vale do Silício local. Um grande êxito para um homem que desembarcou em Chicago em 1990 com duas palavras de inglês no vocabulário, três moedas nos bolsos e uma grande desilusão: a da primavera de Pequim, revolta esmagada a sangue em 4 de junho de 1989.
Na época, ele era estudante em Xangai.

"É um assunto delicado", diz agora sobre a matança na praça Tiananmen, balançando-se na cadeira, em sua sala no Instituto de Física da Academia de Ciências da China, em Pequim. "Sim, naquela época, isso teve um papel importante na minha decisão."

Isso foi há 18 anos. Sem saber, o jovem Ding fazia parte de um movimento lançado em 1978 por Deng Xiaoping, que decidiu enviar, ou deixar partir, milhares de estudantes chineses para as universidades ocidentais. Esses milhares se transformaram em dezenas de milhares e depois em centenas de milhares, a maioria dos quais, seduzidos pelas possibilidades oferecidas no Ocidente, preferiram não voltar. De longe, isso representou uma gigantesca fuga de cérebros do país.

Depois Pequim começou o movimento de regresso. No começo do século 21, os acadêmicos começaram a voltar em massa para a China e, desde o ano passado, a crise dos Estados Unidos acentuou essa tendência. O papel deles no crescimento econômico e na criação de empresas é conhecido, mas não tanto no setor científico.

A China não quer ser apenas a grande fábrica do mundo; ela tem a ambição de se transformar num centro de inovação. Para isso, precisa recrutar cientistas de alto nível. Convencido de que nunca voltaria, Ding não estava pronto. Em duas ocasiões rejeitou uma proposta chinesa com condições financeiras interessantes. "Me incomodava a disparidade dos salários, a ideia de ganhar muito mais do que meu colega do lado", revela.

O evento que desencadeou sua volta foi a decisão da Fundação Nacional para as Ciências dos Estados Unidos, que subvencionava suas pesquisas no Boston College, de suspender o financiamento durante um ano, no contexto das contenções de gastos impostas pela crise. Então Hong Kong lhe fez uma oferta e o Boston College fez uma contraproposta. Depois, a Academia de Ciências da China deu um lance ainda maior. "No geral, esta foi a melhor oferta, em termos de pesquisa e financiamento, muito mais importante. Aqui posso me concentrar no meu trabalho científico fundamental". Sua mulher o incentivou a aceitar e eles voltaram para a China em agosto de 2008.

Desde então, ele jura que não há problemas em sua vida. Sua filha de onze anos está na escola internacional, "uma verdadeira escola americana", e está feliz. E ele, não teve dificuldades para se adaptar? "Eu sou chinês; conheço a língua e a cultura". Seus novos colegas perguntaram um pouco sobre seu salário - "Por acaso você terá que fazer o trabalho de dez pessoas?" - mas o que mais queriam saber eram as razões pelas quais ele havia voltado. O fato é que ele tem um volume de trabalho dez vezes maior do que em Boston e raramente dorme antes das três da manhã, mas também tem mais pessoas para ajudá-lo.

Hoje em dia, todos os cargos de direção da pesquisa científica estão ocupados por pesquisadores que voltaram do estrangeiro. "O impacto desse regresso é fundamental", observa Stéphane Grumbach, que dirige um laboratório de informática franco-chinês na Academia de Ciências.
"Há um clima de grande liberdade intelectual. Mas o que mais falta não é talento, é a cultura científica, a ética, a disciplina, o respeito pelas ideias."

Ding Hong acredita que a "China pode se transformar num país líder na Física. Atualmente, os Estados Unidos são o número um no domínio das ciências. Nós queremos reforçar a ciência na China". É uma atitude patriótica, então? Ele reflete um pouco e depois responde: "pode-se dizer que sim".

Entretanto, ele não abriu mão da cidadania norte-americana, "mais prática para viajar". E ele viaja muito. Gostaria de ser o primeiro chinês a ganhar o Nobel de física? Um sorriso modesto atravessa seu rosto. "Não é uma coisa que se peça..." Para isso, claro, ele teria que abandonar seu passaporte norte-americano.

P.S.: Zhou Yongjun, 41 anos, também voltou dos Estados Unidos recentemente, mas sob condições bem menos favoráveis. Em 1989, ele foi um dos líderes dos protestos estudantis na praça Tiananmen, o que lhe rendeu quatro anos de prisão. Em 1993, partiu para os Estados Unidos.
Em 1998, voltou pela primeira vez à China e passou por três anos de reeducação num campo de trabalho, retornando para a Califórnia em 2002. Em 30 de setembro de 2008, foi detido na fronteira entre Hong Kong e Shenzen quando tentava voltar para a China para ver seu pai doente. Acabamos de saber que ele foi detido sob a acusação de fraude financeira.

Tradução: Eloise De Vylder

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