UOL Notícias Internacional
 

19/05/2009

Pôquer vencedor

Le Monde
Gérard Davet
Enviado especial a Monte Carlo
Mal se consegue vê-lo entre os 935 jogadores reunidos no fim de abril na sala das Estrelas, em Monte Carlo Bay. No entanto, um Sébastien Chabal de chinelos, com todos os músculos de fora, tem estilo. Mas ele é como Boris Becker, o ex-tenista, ou Kool Shen, o rapper do NTM, que também estão presentes: passaria quase despercebido com sua pequena pilha de fichas que decresce a olhos vistos. Os jogadores só têm uma obsessão aqui, ganhar os € 2 milhões prometidos ao vencedor desta prova final do European Poker Tour (EPT).

O grande circo do pôquer passou por Paris entre 13 e 17 de maio, para o Grande Prêmio organizado no Clube de Aviação da França. Lá também, vemos celebridades plantadas no cenário, prontas para serem "depenadas". Jamais nenhum deles alcança os lugares pagos - os 80 primeiros ganham dinheiro, em geral - , fora uma exceção de peso, Patrick Bruel, que conseguiu mais de € 700 mil em alguns anos de competição.

Em Mônaco, então, só se fala de dinheiro. Lógico. É preciso pagar € 10 mil para participar do evento, a menos que se seja graciosamente convidado pelo site Pokerstars, por exemplo, que patrocina o circuito e chama algumas personalidades para apimentar o show. Poderíamos discorrer sobre as massagistas de seios fartos que vêm para relaxar os músculos dos jogadores, mas para falar a verdade, tudo isso é muito sério. É isso, o pôquer está na moda e ele movimenta quantias absurdas.

Em 2010, o governo francês vai autorizar os sites de jogos on-line, concedendo licenças gratuitas junto com uma rígida lista de especificações, e o pôquer deverá tirar para si cotas de mercado invejáveis. Os sites acessíveis na França, cerca de 25 mil, dos quais 20% em língua francesa, todos com referência no exterior (Gibraltar, Londres, Malta), são por enquanto perfeitamente opacos, mas vivem crescimentos exponenciais; Bercy calcula o total de apostas feitas em € 2 bilhões por ano, das quais 75% são em pôquer. Em total ilegalidade.

No mercado francês, todos os agentes estão em pé de guerra. Os sites, certamente, mas também os cassinos, que vivem mal a crise. "Hoje somos bravos tolos, com todos esses sites ilegais que ganham dinheiro", explica o ex-deputado do RPR Georges Tranchant, diretor do grupo Tranchant, dono de 16 cassinos na França. "Para 2010, temos um projeto para a Internet já engatilhado, seremos competitivos no mercado".

Dispor a partir de agora de um repertório de jogadores emblemáticos é a garantia de atingir o aficionado. Em resumo: ultimamente, os sites atraem, por milhares de euros, as estrelas do pôquer, como Bertrand Grospellier, também conhecido como "Elky", de 28 anos. O líder do circuito europeu tem contrato com a Pokerstars até 2010, assim como Isabelle Mercier, uma quebequense sexy e astuta. Ele é carismático, loiro oxigenado, usa uma camiseta que brilha e joga tão rápido quanto fala. A 100 km por hora, agressivo e mudo. Ele já acumulou mais de € 4 milhões em prêmios.

Ex-celebridade dos vídeo-games, ele conheceu as superaquecidas salas sul-coreanas, onde era um semi-deus, antes de sucumbir às tentações do pôquer. Então a glória ele conhece. Trata-se de rentabilizar. "Foi para isso que arranjei um empresário", ele diz, "eu capitalizo em cima de minha imagem. Isso vai estourar na França, com a abertura do mercado da Internet, então, tentamos conseguir novos patrocinadores".

No Winamax, outro site de pôquer on-line, com base em Londres mas francófono, ele teria sido seduzido de bom grado. Mas um "Elky" custa caro. Então se apela para o glamour francês, com Alexia Portal, jovem e bela atriz, talentosa com as cartas. O contrato padrão de um jogador de alto nível é básico: são garantidas a ele diversas participações nos torneios, as despesas de viagem, e em troca o competidor garante performances no site ou usa um vestuário promocional.

Com "Elky", entra-se em outra dimensão, a dos negócios. As cifras não são as mesmas. "Gostaríamos de ter 'Elky' conosco, mas ele vale milhões", lamenta Michel Abecassis, consultor da Winamax. Mas o site tem um coringa no bolso: Patrick Bruel. O ator-cantor soube antecipar o sucesso do jogo. Ele apresenta um programa sobre pôquer no "Canal+", e com Michel Abecassis, mantém um site comunitário, Wampoker, filial discreta da Winamax onde não se joga a dinheiro por causa da legislação francesa.

Patrick Bruel acaba de anunciar sua aquisição de participação no capital da Winamax, com três outros acionistas, um dos quais Marc Simoncini, o diretor da Meetic. "Nós queremos nos tornar o maior site francês, Patrick nos traz sua imagem e seu conhecimento do jogo, e eu sou aquele que vai levantar fundos", explica Simoncini. Que se recusa a divulgar o faturamento do site, frequentado por 150 mil jogadores. Um grande orçamento de marketing está previsto. Trata-se de fazer uma divulgação de forma rápida e forte, uma vez que a licença francesa seja obtida.

Nenhum especialista se arrisca em previsões de números. Cada um diz simplesmente que há muito dinheiro a se ganhar. Os jovens, em especial, são muito sensíveis a ele. "Mais de 80% de nossos jovens têm menos de 25 anos", explica François Montmirel, cofundador da Escola Francesa de Poker (EFP). "Ensinamos a eles como administrar seu dinheiro, a separar os orçamentos. Vai haver um boom em 2010, com a distribuição das licenças gratuitas aos sites, daí a importância de se ensinar uma prática racional. Esses sites ganham entre 50% e 60% de margem bruta, eles não terão nenhum interesse em arruinar os jogadores; o objetivo deles é mais ordenhá-los".

Hoje não há nenhuma necessidade de se ter 18 anos para jogar a dinheiro, basta declarar uma idade fictícia, e entra-se em qualquer portal. Perde-se, ganha-se, vive-se na ilusão da grande jogada, dizem que é possível se tornar um profissional rapidamente. É mentira. O pôquer obedece às probabilidades, à lógica matemática. É preciso jogar um grande número de mãos - partidas - antes de entender as sutilezas da estratégia. "Para um jovem iniciante, é como se você confiasse uma Ferrari a um garoto que acaba de tirar a carta de motorista - ele irá direto contra o muro", diz Patrick Bruel, que garante alertar todos aqueles que assistem seu programa.

Mas como impedir de sonhar o amador à procura de emoções fortes? Como lhe explicar que o destino de Guillaume de la Gorce, assim como o de Tristan Clemençon, duas esperanças do pôquer francês, é raro demais para ser prometido a todos? Em Monte Carlo, vindo por conta própria, Tristan Clemençon, 19, conseguiu € 20 mil. A Winamax já está de olho nesse jovem talento. "Comecei aos 17 anos na Internet", conta esse ex-estudante de economia. "No começo, isso preocupou meus pais. Mas logo comecei a ganhar dinheiro, € 400 mil desde o início do ano".

Na internet, pode-se jogar a noite inteira até os olhos arderem, esquecer seus amigos, suas chateações, e acumular experiência. Foi assim que Guillaume de la Gorce, ou "Johny", na internet, criou uma reputação para si e uma conta bancária. Aos 28 anos, esse ex-aluno de engenharia já ganhou mais de € 1 milhão. "Esse dinheiro não representa nada", ele diz, friamente. Ele vive em Londres, em um apartamento que divide com outros jogadores, percorre as competições, das Bahamas até Veneza. Ele sonhava com liberdade, mas também, como um bom aluno com dom para a matemática, com um jogo onde ele pudesse utilizar seus talentos, "a concentração, a capacidade de análise". Ele diz que no pôquer se pode "discernir uma lógica matemática por trás da névoa do azar". Um bom jogador se julga a longo prazo, além de um simples torneio. Ele busca essa "progressão linear". Ao mesmo tempo em que dissuade seu irmão mais novo de se dedicar aos prazeres do pôquer na Internet. "Porque também se perde tempo, e não só dinheiro", ele admite.

Ele não deve voltar a se estabelecer na França. A futura tributação de 2% das apostas pretendida pelo governo lhe parece uma má escolha. "Nós, os jogadores pesados, ficaremos na ilegalidade", ele acredita. "Em compensação, muitos pequenos jogadores vão entrar no pôquer". Com um risco considerável de vício. No hospital Marmottan em Paris, cada vez mais jogadores de pôquer on-line chegam para se desintoxicar. "Esses jovens, homens, em sua maioria, passam a vida diante do computador", explica o psiquiatra Marc Valleur, diretor do centro. "Alguns deles chegam a roubar o cartão de crédito dos pais para jogar. Quando eles chegam aqui, estão deprimidos. Podemos prescrever antidepressivos, ou interná-los aqui. Estamos no início de uma onda, com essa elevação dos jogadores ao status de celebridades, e Patrick Bruel é o condutor..."

Então talvez fosse preciso se inspirar no exemplo de Kristof Mahen, um agente comercial da SNCF de 35 anos. Com alguns amigos, em Yerres (Essonne), ele montou um clube onde joga a cada quinze dias, em uma velha hospedaria. Ele sabe que o pôquer é uma "armadilha", mas que não é um "jogo de encrenqueiros", e que também se consegue "não queimar tudo em uma única partida". Em seu clube, há notas por todos os lados, em todas as mesas. Mas elas são falsas, fabricadas sob encomenda em uma gráfica.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,59
    3,276
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,54
    61.673,49
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host