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20/05/2009

Seleção pré-natal de meninos se expande, diz demógrafo

Le Monde
Entrevista concedida a Grégoire Allix
A preferência social pelos meninos leva as mulheres, em alguns países da Ásia, a praticarem abortos seletivos. Conhecido na China e na Índia, o fenômeno se expande no Vietnã, onde a proporção sexual no nascimento (o número de meninos nascidos para cada 100 meninas) subiu para 112 em 2007, sete pontos acima da taxa "natural" de 105. É o que mostra o demógrafo Christophe Z. Guilmoto, diretor de pesquisas no Centro de População e Desenvolvimento, em Paris, em um estudo publicado pela revista científica online "PLoS ONE".

Le Monde: O aumento do número de meninos no Vietnã é recente?

Guilmoto:
Os únicos números disponíveis, até então, datavam do recenseamento de 1999, que não revelava nenhuma anomalia. Tivemos acesso a dados mais recentes, que mostram, a partir de 2004, um aumento do número de meninos, linear e significativo.

Le Monde: Como isso se explica?

Guilmoto:
Há anos o governo vietnamita limita os nascimentos para dois filhos por família. Os meninos tradicionalmente exercem um papel social e religioso, eles representam a linhagem, o clã. Tudo isso não apareceu do dia para a noite. A reviravolta nos comportamentos vem da difusão dos aparelhos de ultrassonografia no país a partir de 2000. Além disso, o aborto era uma prática já corrente no Vietnã.

Le Monde: O controle de nascimentos é responsável por essa seleção pré-natal?

Guilmoto:
Antes, tinham-se filhos até que nascesse um menino, e depois se utilizava um contraceptivo. A partir dos anos 1980, também se observa no Vietnã que três quartos dos últimos nascidos são de meninos. Mas essa prática se torna impossível com o controle de nascimentos, que exerce de fato uma pressão sobre a seleção do sexo da criança. Na China, onde esse controle é mais rígido do que no Vietnã e onde a prática da ultrassonografia se expandiu a partir de 1982, a proporção subiu desde o início dos anos 1980, atingindo 120 em 2005, e até 130 nas províncias de Jiangxi, Anhui e Shaanxi.

Le Monde: No entanto, o fenômeno também atinge a Índia, sem que lá exista o controle de nascimentos...

Guilmoto:
A proporção média na Índia é de 113, com grandes diferenças regionais. O norte do país manifesta uma profunda aversão pelas meninas, cujo dote é um fardo para os pais. No Punjab, a proporção era de 125 em 2005, sem pressão política para o controle de nascimentos. Mesmo na capital, Délhi, ela é superior a 120.

Também se observam proporções elevadas, fora de qualquer política de controle, em Taiwan e em Cingapura, no Paquistão e em Bangladesh. Por fim, descobriu-se um aumento da proporção no sul do Cáucaso, na Armênia, na Geórgia, no Azerbaijão, onde ela subiu para 115 em 2000. Em alguns casos se registraram mais abortos do que nascimentos! A tendência é idêntica, em menor nível, na Albânia e em Montenegro.

Le Monde: Quais são as consequências da preferência pelos filhos homens?

Guilmoto:
A consequência em tempo real é que o conjunto da sociedade tolere uma discriminação social original. O sexismo se torna uma norma inscrita nas práticas sociais.

Vinte ou vinte e cinco anos mais tarde, a falta de meninas perturba gravemente o mercado matrimonial, nas sociedades em que o casamento é inevitável. O desequilíbrio leva a migrações de casamento. Os homens que têm dificuldade em encontrar uma esposa devem buscar em outros lugares. Por outro lado, as mulheres são incitadas a migrar para as cidades e zonas mais privilegiadas, talvez até países vizinhos, onde a falta de mulheres lhes dá uma chance de encontrar maridos de nível social superior.

Le Monde: Alguns analistas preveem conflitos ligados à falta de mulheres. O que o sr. pensa a respeito disso?

Guilmoto:
Acredito que os sistemas sociais ainda vão se adaptar. O não-casamento vai passar a ser reconhecido como uma trajetória de vida normal, o que ainda é muito mal aceito na Ásia. Na Índia, especialmente no Punjab, a escassez de mulheres também começou a romper a barreira das castas: homens aceitam esposas saídas de castas inferiores, o que era totalmente impensável pouco tempo atrás.

Le Monde: Esse fenômeno de nascimentos seletivos é sustentável?

Guilmoto:
Alguns pesquisadores consideram que a China, a Índia e o Cáucaso mostram sinais de diminuição da proporção sexual, anunciando o fim de um ciclo, a seleção pré-natal acaba sendo uma aberração temporária. Na Coreia do Sul, a proporção sexual disparou como na China, antes de voltar ao normal em 2007. Isso aconteceu graças à evolução da sociedade, que viu as mulheres terem acesso à educação e ao mercado de trabalho. Mas sobretudo graças à ação do governo, que reformou a política da família e dispôs de um arsenal repressivo contra essa seleção de nascimentos.

Tradução: Lana Lim

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