UOL Notícias Internacional
 

21/05/2009

Análise - chineses são vítimas de uma memória muito seletiva

Le Monde
Brice Pedroletti
Homenagear é incitar a perpetuação da memória através de um ritual coletivo. Para o aniversário do terremoto de Sichuan, de 12 de maio de 2008, o tom foi dado: o presidente Hu Jintao, que foi até o local, santificou as operações de salvamento e de reconstruções como "uma vitória obtida com muita luta", e lembrou que "a união faz a força". Na praça Tiananmen, em Pequim, jovens vestidos com camisetas brancas se reuniram, gritando: "Coragem, China!"

Peter Parks/AFP 
Pessoas caminham entre prédios atingidos pelo terremoto de Sichuan, que ocorreu há um ano

Mas as mídias não mencionaram uma palavra sobre aqueles que o trem da história oficial deixou na plataforma: os pais das crianças mortas em escolas de construção precária. Essa história de homicídio por negligência e corrupção se repetirá se não forem totalmente esclarecidas as causas do desabamento das escolas. Vigiados pela polícia, párias da história oficial, alguns se encontram com um registro criminal onde figuram as acusações de perturbação à ordem pública.

Um importante militante dos direitos humanos, que queria criar na internet um memorial para as crianças mortas, foi detido no final de março por subversão. Uma celebridade de Pequim da arte contemporânea, Ai Weiwei, travou o combate em seu blog, onde um jornal de investigação cívica registra e dá o nome das vítimas e dá a palavra aos pais, partes civis de um processo proibido. Os posts são apagados e os voluntários que encontram os pais são embarcados e submetidos a interrogatórios. Eles têm "outros motivos" em mente, eles ouvem falar. Já se passa da condição de vítima para a de inimigo.

A aplicação da censura aqui é grosseira, e é de se espantar que os jovens chineses, de patriotismo tão melindroso quando se trata da imagem de uma China que se pretende moderna e poderosa, não se ofendam com tanta covardia. Mas ela é recorrente na história presente e passada do país, que comemora com tanta pompa seus aniversários autorizados (seus 60 anos em 1º de outubro) frente a um silêncio ensurdecedor que mantém em torno daqueles que ela bane.

Para se opor a esse negacionismo do Estado, sua memória é externalizada: somente os historiadores fora da China publicam seus trabalhos. E é no exterior que os servidores colocam na rede os dados sobre esses acontecimentos. Como o movimento religioso do Falun Gong, que cita nesses sites da internet hospedados no exterior os nomes e o relato de torturas de seus membros perseguidos há dez anos. Como as organizações tibetanas da repressão que se seguiu aos protestos da primavera de 2008. Privados de recursos jurídicos, esses cidadãos chineses são aniquilados até na memória de sua existência.

As Mães de Tiananmen criaram em seu site, também bloqueado na China, um memorial com os nomes dos mortos e feridos da noite de 3 para 4 de junho de 1989. Em seus vídeos colocados na rede, os pais dão seus depoimentos. "A luta das Mães de Tiananmen resiste há 19 anos, a das Mães de Wenquan (epicentro do terremoto) acaba de começar", pressentiu o escritor dissidente Yu Jie, em junho de 2008, no site Tiananmen Mothers.

Há vinte anos, aqueles que não aceitaram as indenizações oferecidas por seu silêncio, ou que recusaram ver classificada como acidente a morte de seus familiares, foram submetidos a um assédio contínuo sob forma de opressões administrativas, chantagem e intimidação. O balanço oficial e a interpretação sumária dos acontecimentos de 4 de junho, atribuídos a elementos perturbadores, não conseguiriam admitir o exame contraditório que implicam a identidade das vítimas, os lugares e as circunstâncias de sua morte.

Sem vítimas não há culpados, constatou a historiadora Wang Youqin, da universidade de Chicago, que criou em 2000 um memorial online, para as vítimas da Revolução Cultural. O site www.chinese-memorial.com, ela conta, em um texto da revista "Perspectives chinoises" (2008, nº 101), foi censurado na China dois anos após seu lançamento, tornando inútil o apelo às testemunhas que ele buscava. A ideia era registrar e dar o nome das vítimas comuns, aquelas dos assassinatos e humilhações perpetradas pela Guarda Vermelha.

Desde que a Revolução Cultural foi condenada como um erro, a história oficial só manteve as vítimas famosas ou de alto grau, as famílias a ela relacionadas discretamente absolvidas, e os culpados apontados (a "Camarilha dos Quatro").

A historiadora acabou publicando em 2004 em Hong Kong uma obra em chinês onde ela relata as histórias trágicas de 659 vítimas comuns, com testemunhos em primeira mão. "Assim como diante de um tribunal de justiça, o princípio de dizer 'toda a verdade, nada mais que a verdade' é fundamental para a história", ela escreve. "A supressão, pelo governo, de todos os fatos relativos às vítimas, facilitou a negação da história criminal que sofreu a Revolução Cultural".

Aliás, fazer as vítimas comuns desaparecerem dessa forma permitiu, segundo a historiadora, abafar a dimensão genocida das explosões de violência incitadas por Mao Tsé-tung. Essa cultura de impunidade e da mentira do Estado que perdura é de arrepiar.

Tradução: Lana Lim

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