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21/05/2009

Telefone celular é a nova jogada de Chávez para implementar sua revolução

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Até seus inimigos admitem: o presidente venezuelano Hugo Chávez é um comunicador brilhante. Um orador incansável. Claro, didático e muitas vezes engraçado.

Durante seu programa dominical transmitido pelo rádio e pela televisão, "Alô Presidente", ele consegue "aguentar" seis horas, em média. Sem cansar, nem perder o fôlego ou entediar demais seu público. Entre duas xícaras de café, ele governa ao vivo, anuncia suas decisões, responde aos ouvintes, solta um bordão ou entoa um refrão.

Ele chega até a "vender" um produto, com fervor e convicção, como aconteceu no domingo (10), quando se comemorou na Venezuela o Dia das Mães. E ele se sai bem, além de qualquer expectativa. Nesse dia, Hugo Chávez apresentou às câmeras seu último objeto de orgulho, que ele mesmo batizou de "El Vergatario" ("o excelente").

É o primeiro telefone móvel fabricado na Venezuela, e sem dúvida o mais barato do mundo: 30 bolívares, ou seja, cerca de € 10. Em seguida ele liga para sua mãe, com uma alegria filial: "Parabéns, Elena. Recebeu o Vergatario que mandei? É a primeira vez que estou usando o meu".

No domingo anterior, o chefe de Estado havia louvado as vantagens do "celular bolivariano", "o presente ideal" para uma mãe. Depois de fazer a propaganda, ele acrescentou, brincando: "Aquele que não tiver seu Vergatario não será ninguém". Presidente da firma Movilnet, que comercializa o aparelho, Jacqueline Faria ficou feliz de ter encontrado em Hugo Chávez "o melhor agente de publicidade possível".

De fato. Pelo seu entusiasmo em vender este "produto da revolução", uma atração real, o profeta do "socialismo do século 21" desencadeou um banal fenômeno econômico: a insuficiência da oferta em relação à demanda, e seu inevitável corolário, a escassez.

Com o Dia das Mães se aproximando, formaram-se longas filas diante de lojas especializadas, até mesmo antes de amanhecer, de compradores ansiosos para ter o "telefone do presidente". Quatrocentas pessoas fincaram pé em um grande centro comercial de Caracas antes que os funcionários colocassem em suas vitrines o funesto aviso: "Não recebemos o Vergatario".

As promessas dos vendedores de estabelecer e respeitar as listas de espera não bastaram para acalmar os mais impacientes. Eles desconfiaram que os comerciantes queiram escoar suas mercadorias clandestinamente, a altos preços. Como prova de sua boa fé, alguns convidaram clientes para que verificassem eles mesmos os estoques nos fundos de suas lojas.

Alguns chavistas desconfiados chegaram a ver nesses atrasos de entregas o efeito de não se sabe qual tentativa de sabotagem contra-revolucionária. Os primeiros milhares de aparelhos que chegaram no mercado, no entanto, foram reservados para os bairros mais pobres da capital. A ministra das Telecomunicações, Socorro Hernández, se mostrou tranquilizadora: "Esperem alguns dias, haverá para todo mundo!"

O Estado subsidia três quartos do Vergatario, daí sua relação custo-benefício sem igual. E ele ainda tem todas as funções de um aparelho moderno: SMS, câmera, rádio FM, acesso à internet, MP3. Esse modelo prático, leve, com "slide", chamado A933, é o resultado da cooperação Sul-Sul: concebido na China pela empresa ZTE; montado na Venezuela, em uma fábrica de Punto Fijo, na parte oeste do país, por uma empresa do Estado, Vetelca, cujos 15% do capital é chinês.

Hugo Chávez promete ao Vergatario um grande destino: "Ele será o campeão de vendas no mundo inteiro". Enquanto isso, o fabricante espera produzir 600 mil neste ano, e 2 milhões em 2011. Uma segunda "empresa socialista" sino-venezuelana produzirá, a partir de outubro, um outro aparelho: "Nós exportaremos telefones para as nações irmãs da América Latina e do Caribe".

O país afirmará assim sua "independência tecnológica" e poupará preciosas divisas ao reduzir suas importações de aparelhos estrangeiros. Hugo Chávez destaca uma outra vantagem do Vergatario, do qual uma versão permitirá proteger a confidencialidade das conversas dos dirigentes venezuelanos: "Os satélites do Império não poderão escutar minhas conversas com Fidel Castro".

Em um país profundamente dividido, a difusão em massa dos telefones celulares, financiada pelo dinheiro público, suscita críticas. A oposição considera essa iniciativa extravagante e demagógica. "As mulheres venezuelanas merecem muito mais do que um celular", afirma Julio Borges, chefe do partido Primero Justicia. "Elas precisam de um emprego, de previdência social e de uma aposentadoria digna desse nome".

O próprio nome do telefone já dá o que falar. "Verga" é gíria para pênis. Quando inventou o nome "Vergatario", Hugo Chávez não podia ignorar que ele teria uma conotação fálica. Uma sacada divertida para alguns, uma grosseria para outros.

O jornal "El Universal" ironiza: "Caros leitores, digam Vergatario diante de um espelho. Pronunciem lentamente essa obscenidade, sílaba por sílaba, e vejam a expressão de seus rostos". "A maldade está nos olhos de quem vê", respondeu o presidente Hugo Chávez, chamando seus detratores de "ignorantes".

Tradução: Lana Lim

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