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22/05/2009

Japão passa do "grande esbanjamento" à época de vacas magras

Le Monde
Philippe Pons Em Tóquio
Pouco antes da pausa para o almoço, nos bairros comerciais das grandes cidades, aparecem caminhonetes de vendedores ambulantes de marmitas. O "bentô", belamente apresentado em uma caixa de madeira leve ou de plástico dividida em compartimentos contendo pequenas quantidades de peixe, carne, legumes e arroz, é o lanche rápido e barato (de R$ 8,50 a R$ 14) da maioria dos assalariados japoneses. Os vendedores ambulantes atacam com descontos: cada vez mais os assalariados levam bentôs feitos em casa, que saem um pouco mais barato que aqueles vendidos no comércio.

Os restaurantes, ainda baratos na hora do almoço - menos de R$ 28 - , são menos frequentados. Em compensação, filas se formam diante das cadeias de restaurante Yoshinoya, que por R$ 5,60 servem um "gyudon" (cumbuca de arroz com fatias finas de carne cozidas no molho de soja), ou diante dos botecos especializados em sopas, que também fazem uma "guerra de preços" entre si, a algumas dezenas de ienes. Nos pequenos restaurantes dos bairros populares, não é raro ver clientes pedindo para embalar seus restos para viagem.

Enquanto americanos e europeus se encolhem com a crise, os japoneses voltam a praticar uma frugalidade ancestral. Eles se esforçam para reduzir suas despesas, revisam suas prioridades. O Japão superconsumidor, do frenesi das grifes, o país do "grande esbanjamento", é uma imagem recorrente das mídias estrangeiras, fascinadas pelo brilho de alguns bairros das grandes cidades. Mas grande parte da população conservou uma mentalidade de "povo pobre". A taxa de poupança continua sendo uma das mais elevadas do mundo: por necessidade (previdência social insuficiente, custo de educação dos filhos) e por precaução.

Essa sabedoria milenar se conjuga no imperativo de não desperdiçar ("mottainai"). A expressão, utilizada normalmente como uma interjeição de indignação, teve uma repercussão internacional graças à queniana Wangari Maatahi, Prêmio Nobel da Paz de 2004, que fez dela um slogan de sua campanha de defesa do meio ambiente. A expressão acompanhou a infância de gerações: hoje ela é o leitmotiv de pequenos movimentos, como aquele que incentiva as pessoas a não usarem os palitos de madeira fornecidos pelos restaurantes, que são jogados fora em seguida, e que cada um leve os seus.

Frugalidade herdada de antigamente, reação ditada pela crise? Qualquer que seja o motivo, as atitudes de consumo dos japoneses estão mudando. Mal saíram da recessão dos anos 1990, eles entraram em outra, socialmente mais dolorosa. Talvez essa experiência gere menos frustrações entre eles do que entre os americanos, que foram derrubados da euforia consumista alimentada pelo crédito fácil. As desigualdades também aumentam: 6 milhões de japoneses não dispõem mais do mínimo necessário para ter uma vida decente. Sem estabilidade, muitos se sentem vulneráveis: os demitidos, com contratos temporários não renovados, são um sinistro presságio.

Após o estouro da bolha financeira do fim dos anos 1980, que viram desabrochar uma mentalidade de novo rico ostentatória, o pêndulo começou a balançar para o lado inverso. Surgiram as "yen shops"(vendendo tudo a 100 ienes, ou R$ 2,15) e as lojas de reciclagem de produtos de segunda mão. Depois veio um breve retorno de hiperconsumo causado pelo crescimento econômico dos últimos anos, sucedido por uma nova era de moderação. As vendas das grifes, assim como as de carros, recuam: somente um quarto dos homens de 20 anos quer um carro, contra 40% em 2000.

Os produtos sem marca e os alimentos cuja data de validade está no fim são cada vez mais procurados. Há dois fatores para isso: os consumidores procuram ofertas, e as empresas querem se desfazer de seus estoques. Os produtos chamados "wake-ari" (literalmente "existe uma razão") são vendidos sobretudo na internet. A Yahoo! Shopping Web viu suas vendas aumentarem 40% entre novembro de dezembro de 2008. E seu similar Rakuten Ichiba está entre os dez sites mais visitados. Ali se encontram todo tipo de produtos: eletrônicos, cosméticos, produtos alimentícios... Os pontos de venda desses produtos estão vivendo uma grande popularidade: ainda que os japoneses tenham muito cuidado com a higiene alimentar, os artigos que estão para vencer são vendidos rapidamente, pela metade do preço.

Talvez estejam acontecendo mudanças duradouras de comportamento. Pois, como acredita o economista Takamitsu Sawa, "hoje não se trata mais de uma 'pobreza virtuosa', inspirada em uma ética de vida ancestral. Mas de um empobrecimento que devemos enfrentar".

Tradução: Lana Lim

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