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22/05/2009

O batalhão que não consegue capturar seus inimigos talebans

Le Monde
Rémy Ourdan
Enviado especial a Gwashtah (província de Paktika, Afeganistão)
"Desta vez, nós iremos à guerra!" O major Glasscock está extasiado. Dois helicópteros pousam em Sharana, e logo voltam a decolar para Khvoshamand. Dois meses após sua chegada no Afeganistão, na província de Paktika, o 501º batalhão aerotransportado quer lutar com esses talebans que o desafiam.

A operação foi planejada há semanas. A companhia "Blackfoot" deve fazer um ataque aéreo sobre as montanhas que pairam sobre o canal de Gwashtah e vasculhar os vilarejos do entorno, esconderijos de insurgentes. A companhia "Comanche", escondida nos arredores, deve tentar matar ou capturar os rebeldes que certamente vão tentar fugir. Os homens do 501º têm, para esta missão, o apoio de aviões, helicópteros e aviões não-tripulados.

E eles têm uma isca atraente. Um comboio logístico de cerca de cem tanques e caminhões deve partir de Wazi Kwah, o forte da companhia "Apache", ao sul, atravessar o canal de Gwashtah, subir de volta até Khvoshamand e Sharana, ao norte. O canal de Gwashtah é, no sudeste afegão, um dos pesadelos das forças da Otan: a cada passagem do comboio, dezenas de minas explodem, caminhoneiros afegãos são mortos, e os soldados americanos, mais bem protegidos pela blindagem, são feridos com frequência.

Os talebans, que voltaram do Paquistão com a primavera, conduzem operações que esgotam o 501º, paralisam comboios e patrulhas. Bem versados nas técnicas de guerrilha, os insurgentes raramente se mostram. Diante do poder de fogo americano, eles fogem dos confrontos diretos. Enterram explosivos nas estradas, e atiram foguetes a partir das colinas. Eles se movimentam à noite em motocicletas. Eles se beneficiam do apoio ou do silêncio dos habitantes da região, rudes patchuns que, ou apoiam sua causa, ou são aterrorizados pelo medo de represálias. Em torno do canal de Gwashtah, ainda que invisíveis, os talebans parecem reinar como mestres absolutos.

"Desta vez, nós iremos à guerra!" Enquanto o líder do 501º, o coronel Clint Baker, coordena as operações a partir de Sharana, Glasscock e um estado-maior avançado chegam a Khvoshamand. A companhia "Comanche" está pronta para partir, mas o tempo está ruim, as tempestades de areia varrem a planície e as nuvens cobrem a montanha. O ataque aéreo de "Blackfoot" deve ser adiado. Os soldados da "Comanche" voltam para dormir algumas horas em seus acampamentos.

No dia seguinte, eles partem. A "Comanche" pega a estrada. O capitão Connor está no comando. A cada parada no pico de uma colina, seus homens desdobram uma estação de escuta, a fim de captar as comunicações por walkie-talkies dos talebans. Dois intérpretes, afegãos americanos, traduzem. Os serviços de informações lhes informaram os códigos dos insurgentes: "água" para munições, "comida" para explosivos...

A unidade do tenente Goble, assim que uma intensificação das comunicações ou um movimento inimigo é notado, é enviada para a linha de frente. "Matar ou capturar talebans é nossa tarefa", garante Goble. "Vamos esperar cruzar com eles".

Eles são dezesseis homens, dezesseis "Joes", como eles se apelidam, acompanhados de dois policiais e dois intérpretes afegãos para as buscas nos vilarejos. Dezesseis meninos do sul dos Estados Unidos em sua maioria, recém-chegados das neves do Alasca, onde o 501º tem sua base. Homens que não têm nem 20 anos, conduzidos por dois sargentos. O sargento Pressler, vinte anos de exército, um homem taciturno que pode passar horas examinando o horizonte em silêncio, à espreita, em busca do menor indício de uma presença inimiga. E o sargento Boutot, um jovem guerreiro já bem experiente, assombrado por suas batalhas no Iraque, "os companheiros que encontramos com as tripas de fora, os olhos tirados a faca das órbitas", os homens de sua seção que foram feitos prisioneiros em Kerbala e que ele perdeu.

Os ataques são incessantes. Dia e noite. Com a mínima conversa suspeita, a mera passagem de uma motocicleta, e o capitão Connoer contata o tenente Goble pelo rádio. "Corra para tal vilarejo. Rápido!" As buscas se sucedem, diante de homens afegãos de olhar orgulhoso. Alguns deles, que viram outros nesse país em guerra há 30 anos, se esforçam para sorrir e oferecer chá aos "visitantes". As mulheres se escondem por trás de seus véus coloridos. As crianças têm medo.

Caleb Goble conhece as novas regras, as técnicas da contra-insurreição ordenadas por Washington. "É preciso usar o mínimo da força armada", explicou o coronel Baker antes de partir. "Evitar chamar o apoio aéreo. Não lançar uma bomba para matar um taleban, se essa bomba for matar civis e criar mais 20 insurgentes. Nesse conflito onde a chave da vitória é a população, é preciso incentivá-la aos poucos a apoiar o governo afegão em vez da insurreição. Separar a população dos insurgentes."

Baker sabe que houve "muitos erros no passado", e ele quer que este ano seja "coroado de sucesso". Fazer os afegãos da província de Paktika entenderem que "o exército americano não é uma força de ocupação", e que as pessoas, cansadas do terror dos talebans, da violência", devem "se voltar para o governo" se elas quiserem "encontrar a tranquilidade, viver suas vidas".

Goble leva a cabo calmamente as ordens. Enquanto seus homens cercam os vilarejos, as casas, com fuzis de assalto apontados para o inimigo hipotético, ele fala com os afegãos. "Vocês viram talebans passando? Há talebans em seu vilarejo? Vocês sabem se eles enterraram explosivos nas estradas?... Vocês têm uma motocicleta?" Como quase toda propriedade tem uma motocicleta, o ritual é sempre o mesmo. O veículo é tirado de um depósito, eles verificam que o motor não está mais quente, e depois o proprietário e sua máquina, decorada com franjas de tapete e flores de plástico, são fotografados. Em seguida um dos "Joes" escaneia a íris do "suspeito", cuja ficha de identificação é imediatamente informada por satélite ao quartel-general. Um outro "Joe" passa as duas mãos no detector de explosivos. "Está limpo!", diz o primeiro. "Está limpo!", repete o segundo. Casa seguinte. "Você tem uma motocicleta?..."

Os soldados do 501º protestam. "Malditos afegãos. Tenho certeza de que há talebans aqui!", diz um. "Você viu os sapatos de verniz dele?", observa com razão seu colega. "E ele quer que acreditemos que ele tinha acabado de cultivar seu campo?" Os sapatos envernizados são muitas vezes a marca, além das vaidades, daqueles que voltam do Paquistão e exibem sua nova elegância. Ainda mais suspeitos, alguns desses jovens homens não têm mãos de agricultores e parecem murmurar ordens aos anciãos, aos velhos dos vilarejos, o que é contrário às tradições rurais dos patchuns. Mas se o homem passou "limpo" nos diferentes testes, na ausência de prova formal, não há nada a fazer. O tenente Goble e seus homens seguem em frente, frustrados. O policial afegão que os acompanha, Sardar, um velho mudjahidin [combatente muçulmano] patchun originário de Jalalabad que dedica sua vida a rastrear os talebans, sorri. Ele também não se deixou enganar.

No meio tempo, o comboio deixou Wazi Kwah. As estações de escuta captam a agitação nas montanhas. "Tragam os lança-foguetes para cá!" "Vocês vão ver, em dez minutos, uma bela explosão!" Goble e seus homens correm em direção ao inimigo, dia e noite, evitando estradas e trilhas. Depois de um segundo adiamento, o ataque aéreo de "Blackfoot"é, no terceiro dia de operação, definitivamente cancelado, devido ao mau tempo. Enquanto cem veículos avançam com dificuldade através do canal de Gwashtah, saltando esporadicamente sobre os explosivos enterrados durante o inverno e ativados algumas horas antes de sua passagem, a unidade de Goble agora está sozinha para garantir a vitória militar.

"Insurgentes malditos! Eles estão nos evitando...", constata amargamente o sargento Boutot. Um "Joe" rebatiza a operação, que deveria estabelecer a autoridade do 501º sobre a região do canal de Gwashtah, de "Em busca do taleban invisível".

No final de cinco dias de ataques, de marchas, de incursões nos vilarejos, o balanço é claro: zero talebans mortos, dois "talebans" capturados. O exército americano, em compensação, gastou dezenas de milhões de dólares: além do movimento do comboio logístico e do desdobramento da companhia "Comanche", houve a passagem frequente de aviões de combate, o balé dos helicópteros e aviões não-tripulados, as observações e as ligações por satélite.

"Os insurgentes são inteligentes. Eles entendem nossos movimentos e se adaptam. E eles se deslocam em seu território, em seu país", reconhece o major Glasscock. "Mas não subestimemos o exército americano. Nós também, desde 2001, nos adaptamos às guerras em curso. Nós ganharemos esta guerra. O segredo é combater até que a população desista da insurreição".

A unidade de Goble pega a estrada em direção a Khvoshamand. Retorno à base. Os homens que não remoem seu ódio pelos talebans e seu rancor por não terem conseguido combatê-los dormem. É o descanso dos guerreiros que não lutaram. Mas esse foi só um episódio em uma longa guerra. E amanhã, garantem os oficiais, o 501º vai combater os talebans. Pois o 501º tem um plano. Um outro plano.

Tradução: Lana Lim

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