UOL Notícias Internacional
 

23/05/2009

Robin Hood e os 101 castores

Le Monde
Laurent Carpentier Enviado especial à Bélgica
"Bièvre, Beveren, Bever, Beerschot, Bevel, Beverdonck, Berneau, Bierwart...": o fluxo ininterrupto de palavras sai de sua boca em cascata? "As Ardenas, região do javali? Eu os desafio a encontrarem um único nome de vila ou de riacho que se refira ao javali, ao passo que nomes que se referem ao castor, ou melhor, a seu antigo nome de origem celta, 'bièvre', há por toda parte. Nenhum país tem tantos quanto a Bélgica!" E ele recomeça: "Biesme, Breuvanne, Beverlo..." E os lista em todas as línguas. "Por que Sartre chamava Beauvoir de 'Castor'? Porque 'beauve' é uma variante dialetal romana. Somente no século 17 o termo erudito greco-latino passou a ser empregado..."

O rapaz não para, assim como a chuva que inunda as Ardenas belgas, entre Liège e Luxemburgo. Um raio de sol de abril tenta substituir os turbilhões de neve que gordas nuvens de chuva já ameaçam. Olivier Rubbers ainda tem as calças úmidas por ter entrado na água para reconhecer uma nova barragem de castores. Ele dá amplos passos, cortando o vento com sua testa calva e bruta que o faz parecer com Taras Bulba: 1,88 m, cerca de 100 kg, um sorriso angelical, e sonhos infantis na cabeça, que o tornaram, aos olhos da lei, uma espécie de perigoso ecoterrorista.

De outubro de 1998 a junho de 2000, o bando do "mercanti" - como os inimigos de Olivier Rubbers o apelidaram em referência a seu passado de engenheiro comercial - reintroduziu na Bélgica 101 castores. "Não por causa dos 101 dálmatas. Foi só um acaso: o número de animais que os serviços de águas e florestas alemãs podiam fornecer". Ações de comando feitas não ilegalmente, uma vez que na época a reintrodução de espécies não era proibida por lei, mas clandestinamente, pois depois de ter pedido a autorização oficial - que foi negada - , Olivier Rubbers entendeu que sua ação seria entendida como um crime de lesa-majestade por uma administração preocupada com suas prerrogativas.

Jogo de esconde-esconde
Então oficialmente, nossos grandes ecologistas libertam os castores do outro lado da fronteira, na Alemanha. Dom da ubiquidade? Encontram-se os bravos roedores de dentes potentes como cinzéis montando barragens e cabanas a dezenas de quilômetros de lá! Na primeira vez, Olivier Rubbers convocou a imprensa. Cansado, durante a viagem, ele e seus cúmplices se atrasaram. A polícia os esperava onde eles deviam libertar os animais. Avisados, eles se dividiram. Um jogo de esconde-esconde. Três meses depois, um caçador deu o alerta no riacho de Martin-Moulin: os castores entraram na Bélgica!

Desde então, Olivier Rubbers, facilmente localizado - ele havia deixado todos seus rastros para a administração alemã - , investigado, detido e condenado, tornou-se uma espécie de Robin Hood das florestas ardenenses. Um escroque esquisito bem estabelecido, funcionário de uma associação perfeitamente legal de educação continuada em matéria de meio ambiente, os Rangers, agita a hotelaria local dando à região um novo motivo de orgulho e uma nova atividade para os turistas ociosos: suas visitas às barragens de castores... Mas um Robin Hood, apesar de tudo, que não tem mais endereço oficial na Bélgica e continua a ser processado, com apelação na Corte Suprema, por uma administração que tem uma boa memória e uma parte civil que lhe pede € 380 mil por perdas e danos, não por reintrodução, mas por "transporte e detenção de uma espécie protegida". Bem-vindos ao mundo de Kafka.

Acontece que os 101 castores proliferaram e transformaram a geografia da Bélgica. Hoje eles são em 800 nas Ardenas, divididos em 170 famílias. Por família entende-se um território de 2 a 5 quilômetros ao longo de um riacho, onde o pai, a mãe (o castor é monógamo e permanece com a mesma companheira por toda sua vida) e seus filhos (durante dois anos) vão ajeitar o território à sua maneira. Esqueçam sua fileira de bétulas e seu belo gramado!

As árvores são cortadas, transportadas, sua casca é comida; e os caules servem de armadura para as barragens cimentadas pela terra. Os terrenos são inundados, transformados em pântanos, o leito dos rios é desviado...

Mas eis que se opera uma espantosa transformação: o fundo dos vales clareia, a água fica transparente, os peixes e as rãs se multiplicam, para o grande prazer dos martins-pescadores, das garças e das cegonhas que se alimentam deles, os cervos saltitam. E paradoxalmente, agora que a justiça segue seu curso, os serviços do Estado mudam de ideia: os ofícios de turismo promovem a visita dos sítios de castores, a região subsidia a difusão de DVDs nas escolas, e pode-se ler em um relatório do oficialíssimo Centro de Pesquisas da Natureza, das Florestas e do Bosque: "É toda a gestão de nossos cursos d'água que deve ser repensada. Aceitar o retorno do castor é aceitar a sobrevida de nossos rios".

Peles inimitáveis
Olivier Rubbers não consegue parar de enumerar os trunfos dessa espécie "pedra angular": ao criar zonas úmidas, o roedor salva a biodiversidade; ao consolidar a mata ciliar, a floresta que margeia os cursos d'água, ele consolida as margens do rio, combate a erosão dos solos e gera uma verdadeira estação de purificação de pesticidas que gotejam dos campos cultivados; ao elevar as barragens, ele regula os cursos, evita as inundações e cria reservas em caso de seca. Segundo ele, tudo é bom no "engenheiro dos ecossistemas": sua pele é inimitável, suas secreções têm um cheiro delicioso, e as paisagens que ele rearranja permanentemente são um espetáculo do qual ele nunca se cansará.

É claro que nem todo mundo pensa assim. Por um lado, são os carvalhos americanos que foram derrubados; por outro, um campo de jovens álamos. Na encosta luxemburguesa, ao levantarem uma barragem sobre um rio que não tinha nem dois metros de largura, os castores afundaram 35 hectares...

"Os camundongos e os ratos não incomodam, mas os castores são nojentos. É nojento o que eles fazem com a floresta". Émile, o velho, tem uma cara de pirata torta pendurada sobre um longo corpo anguloso. Mãos enormes e negras como carvão. "É o tanino dos carvalhos, eu posso esfregar, mas não sai", explica esse velho camponês ardenense que, diante das normas europeias, preferiu vender suas vacas e se lançar à exploração florestal.

"E foi nojento terem colocado castores lá sem avisar ninguém. Ainda que agora, querem enviar linces! Nojento..." Olivier Rubbers sorri. "As pessoas estão preocupadas. Mas é muito subjetivo. Como essa senhora que me diz que o castor comeu todos os peixes de sua lagoa: 'Ah, minha senhora, mas isso é um furo de reportagem. Se for o caso, vão convidá-la para o próximo simpósio internacional sobre os castores que acontecerá neste outono na Lituânia... Porque até hoje, o castor sempre foi herbívoro'", ele conta com seu sotaque da província de Tournaisis que alonga as vogais.

Mais sério, ele diz: "Quando há problemas, há soluções. Se querem proteger as árvores, basta colocar cercas em suas bases da altura de um metro - um castor é mais ou menos equivalente a um menino de 11 anos. E se quiserem evitar inundações que possam ser incômodas, por exemplo, para os trilhos de ferro, basta passar um cano longo na barragem - não destruí-la, pois ele logo a reconstruiria - e, se ele tentar entupir esse duto, colocar ferros e cercas".

Olivier Rubbers nasceu em Tournai, o mais velho de quatro irmãos, cujos pais - o pai tem uma pequena empresa e a mãe é psicóloga - deixavam os filhos vagarem pelo mundo quando não estavam estudando. Aos 16 anos, o caçula atravessou o Mali sozinho. Hoje ele é antropólogo. Olivier, alimentado pelas histórias em quadrinhos de seu pai - Buck Danny, as coleções de Spirou dos anos 1958-1959 - , percorre desde a infância as Ardenas que, do outro lado da região, são um território de aventura do qual hoje ele conhece cada árvore, cada riacho. "Aqui é o retorno às raízes. Há mexilhões nos cursos d'água, lagostins... Sempre amei a natureza, eu a amava com o fervor de um crente que vai à missa em latim e não entende nada".

Engenheiro comercial, ele comercializava dupla-faces quando, em 1996, ele se deparou com um artigo dedicado ao castor em uma revista sobre natureza. Revelação. Ele contatou o autor e decidiu reintroduzir na Bélgica esse esquisito animal, cujo último espécime foi morto no fim do século 19 por causa de sua pele, o equivalente a um mês de salário de um operário na época.

Vinte guias castor
Nem certificado, nem juramentado, nem formado, Olivier Rubbers foi criticado por não ser do meio. Mas ele é um comunicador, e sua "Região dos castores", como ele batizou a associação que organiza as visitas guiadas das barragens, faz sucesso. Vinte monitores já prestaram o exame de guia castor que ele elaborou com seriedade - não se brinca com roedores. Menos ainda com a satisfação do cliente. E, sob a garoa, nesse dia, são doze grupos de 10 a 25 pessoas que marcham, guiadas por Jurgen, empregado comunal de um subúrbio de Anvers que percorreu 300 quilômetros para vir acompanhar os turistas; Hank, jornalista de Flandres, ou Jorn, guarda florestal em Malines, que um dia, no zoológico de Munique, ao pegar um castor, acabou tendo o peito cortado.

Seu único comentário foi eufórico: "Espero que a cicatriz fique..." "As pessoas pegam feio o vírus", constata simplesmente Oliver Rubbers, mergulhado em observação em uma cabana recoberta de musgo. "Sabe que, na ecologia, fazem grandes manifestações, como acordos de meio ambiente, e depois mais nada... É como as pessoas que vão à igreja no domingo e não mudam seus hábitos. Quando só se fala, é pior que qualquer coisa... O castor nos lembra que não somos os únicos sobre a Terra que podem modificar tudo. E isso faz com que desçamos do pedestal".

Tradução: Lana Lim

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