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27/05/2009

Ex-detento argelino conta sobre Guantánamo

Le Monde
Yves Bordenave
Pizza e suco de laranja: a felicidade não exige muita coisa. Fazia sete anos e sete meses que Lakhdar Boumediene não comia assim. Sete anos e sete meses que ele não se sentava em um restaurante para jantar em família.

Na segunda-feira (25), sob um sol escaldante, no subúrbio parisiense, Lakhdar Boumediene, 43, desfruta de seu primeiro dia de liberdade readquirida. "Sou um homem normal", ele diz. Em 20 de novembro de 2008, um juiz americano o inocentou das acusações de terrorismo que levaram à sua prisão no campo de Guantánamo entre janeiro de 2002 a 15 de maio de 2009. Matrícula 10005: "Era meu nome lá. Era assim que me chamavam. Nunca Lakhdar ou Boumediene. Para ir mais rápido, os guardas diziam 10K5". Ele foi entregue aos americanos em dezembro de 2001 pelas autoridades bósnias, que o consideraram suspeito de querer fomentar um atentado contra a embaixada americana de Sarajevo.

Rosto magro, barba grisalha bem aparada, camisa pólo cinza de mangas curtas, calças brancas, olhos negros profundos, Lakhdar Boumediene é um sobrevivente de 58 kg. Somente há dez dias, em 15 de maio, ele desembarcou de um avião da US Air Force sobre a base área de Evreux (Eure) vindo de Cuba. Nove horas de viagem com as mãos e pés algemados, com 16 guardas armados que se revezaram em grupos de quatro durante toda a duração do voo. Seu medo? Ficar apertado.

"Lembro que na viagem de ida, não tínhamos direito de ir ao banheiro. Então, dessa vez, tomei minhas precauções: não comi, nem bebi nada antes da viagem", ele conta.

De nacionalidade argelina, Lakhdar foi acolhido na França. Sua esposa e suas filhas, que depois de sua prisão voltaram para a Argélia, o encontraram aqui graças à intervenção das autoridades francesas. "Não se esqueçam, sobretudo, de agradecer ao presidente Nicolas Sarkozy, aos embaixadores da França em Washington e em Argel e ao cônsul francês em Oran", ele insiste.

Por enquanto, a família Boumediene optou por viver na França. Lakhdar possui família ali e se diz ligado à cultura francesa. Talvez ele volte para a Argélia um dia, mas ainda não chegou a hora de sonhar tão alto.

Lakhdar acaba de sair do hospital militar Percy de Clamart (Hauts de Seine), há menos de três horas, e eis que ele passeia livremente abraçado com Abassia, sua esposa, com Radjaa, 13, e Raham, 8, suas duas filhas que ele não viu crescer. "É claro que eu não as reconheci", ele se desculpa.

Ele, que volta do inferno, se dedica a retomar os laços com os gestos simples da vida. Livrar-se de Guantánamo, de onde ele assim mesmo guardou seu uniforme de prisioneiro: uma calça e uma jaqueta cáqui. Escapar do campo 6, onde o dia não penetrava, e onde o frio na cela que, mesmo com o aquecimento no máximo, gelava os ossos. Ele conta: "Acordar às 5 horas para a prece matinal. Depois, voltar à cela. Seis horas, os guardas vêm te buscar e te levam para uma sala. Eles te sentam em uma cadeira, com os pés e as mãos algemados e te alimentam à força por entubação pelas vias nasais." Lakhdar não fala com ninguém. Ele respira o ar de fora uma vez por dia, por menos de uma hora, "às vezes durante o dia, às vezes durante à noite, um de cada vez", sem jamais cruzar com nenhum outro detento.

Durante mais de dois anos, de fevereiro de 2006 até sua saída, ele se recusou a se alimentar. Com exceção de duas vezes. No dia da vitória de Obama, em novembro de 2008 - "Fiquei contente, pois temíamos o pior com McCain" - e nos dias em que os juízes o inocentaram. Ele perdeu pouco mais de 20 kg.

A prova mais difícil foi em fevereiro de 2003. Seu pesadelo. Seus guardas o interrogavam sem descanso. "Eles queriam informações sobre as instituições de caridade muçulmanas na Bósnia e sobre os árabes instalados em Sarajevo, mas eu não sabia de nada sobre isso", ele diz. Então em fevereiro de 2003 eles o submeteram a um interrogatório rigoroso durante 16 dias e 16 noites: "Começava à meia-noite, e ia até as 5 da manhã. Parava por algumas horas, e depois recomeçava. Eles se revezavam em seis ou sete. No final da terceira ou quinta noite, fui auscultado por um médico do exército, que disse aos carcereiros que estava tudo bem, e que eles podiam continuar".

Lakhdar Boumediene foi detido em Sarajevo em outubro de 2001 na companhia de quatro outros argelinos que moravam, como ele, na capital bósnia. Ele havia chegado à Bósnia em abril de 1997, onde trabalhava para o Crescente Vermelho, o equivalente muçulmano da Cruz Vermelha. Ele partiu de Saïda, na Argélia, em 1990. "Eu queria trabalhar nos países do Golfo porque na Argélia eu era empregado de uma fábrica de cimento, e era ruim para a minha saúde", ele garante.

Após uma temporada em Sanaa, no Iêmen, ele se instalou durante dois anos no Paquistão - em 1991 e 1992 - perto de Peshawar, onde cuidava de órfãos em uma escola. Em seguida ele voltou para o Iêmen, onde foi surpreendido pela guerra de 1994 que opunha o Iêmen do Norte ao Iêmen do Sul. Ele aproveitou para se matricular na Universidade de Sanaa, ao mesmo tempo em que tinha aulas no Centro Cultural Francês. De lá, ele se juntou a um colega de Saïda na Albânia, onde começou a participar das missões com o Crescente Vermelho, que por fim o enviou a Sarajevo.

Em dezembro de 2000, durante uma visita a sua família na Argélia, ele foi interpelado pela polícia assim que atravessou a alfândega no aeroporto de Argel. Com seu passaporte confiscado, ele foi obrigado a permanecer na capital, enquanto os investigadores prosseguiam com as verificações.

Naquela época, para fugir da Argélia e se juntar à jihad, muitos combatentes do GIA (Grupo Islâmico Armado) ganharam os campos afegãos por meio do Paquistão. As autoridades argelinas suspeitaram que ele seria um deles. No fim de cinco ou seis dias, eles lhe deram seu passaporte, mas depois de terem lhe entregue um certificado de anistia, como as autoridades argelinas faziam com os islamitas arrependidos. "Nunca fui islamita", ele jura. "Acho que foi esse episódio que causou minha prisão".

Será que listas de cidadãos argelinos que passaram pelo Paquistão foram transmitidas aos americanos depois do 11 de Setembro? Sem se ater a detalhes, Lakhdar Boumediene diz que acredita que sim.

Tradução: Lana Lim

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