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28/05/2009

Para especialista, Pyongyang adota estratégia ambígua em relação à Coreia do Sul

Le Monde
Antonin Sabot
Após seu teste nuclear e seus lançamentos de mísseis, a Coreia do Norte ameaçou mergulhar a península coreana em "estado de guerra" se seu vizinho do Sul aderir às ameaças de sanções internacionais. Marianne Péron-Doise, especialista em Coreia do Norte, docente no Inalco [Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais] e na Sciences Po Paris [Instituto de Estudos Políticos de Paris], fala sobre a relação conflituosa entre as duas Coreias.

Le Monde: Qual é a natureza das relações entre as duas Coreias?

Péron-Doise:
Não existe um tratado de paz propriamente dito entre os dois países. Logo, as relações entre as Coreias foram estabelecidas quer queira, quer não, mas em um clima de desconfiança extrema, uma vez que os dois países são tecnicamente considerados como ainda em estado de guerra. Entende-se logo que é uma opção de caráter econômico que foi escolhida pelo Sul como apoio à política de abertura e de busca pela diminuição das tensões com o Norte.

Mais de 50 anos de tensões

A divisão entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial. A conferência de Yalta dividiu a península entre as forças soviéticas e americanas, sem que as potências conseguissem em seguida entrar em um acordo a respeito da reunificação do país.
De junho de 1950 a julho de 1953 aconteceu a guerra da Coreia, que culminou na atual situação territorial. Um armistício foi assinado, mas sem ser acompanhado por um tratado de paz.

Julho de 1973: a Coreia do Norte e a do Sul assinam um acordo demonstrando o desejo de reunificação pacífica.

Dezembro de 1991: assinatura de um acordo de reconhecimento recíproco e de cooperação. Início de relações comerciais entre os dois países.

1997: abertura de circuitos turísticos na Coreia do Norte para os cidadãos do Sul.

De 1996 a 1999: ocorrem inúmeros incidentes no mar do Japão entre os dois Estados que disputam o controle das águas, bem como das zonas de pesca.

Junho de 2000: encontro oficial entre o presidente do Sul, Kim Dae-Jung, e o "guia" do Norte, Kim Jong-Il. Assinatura de uma declaração visando a reunificação. Início das reuniões de famílias separadas pela guerra.

Outubro de 2006: primeiro teste nuclear norte-coreano.

Maio de 2007: restabelecimento de uma ligação ferroviária entre a Coreia do Norte e a do Sul.

Outubro de 2007: segunda cúpula entre Coreias. Um acordo prevê o estabelecimento de um "sistema de paz permanente" que substituiria o armistício de 1953.

Julho de 2008: uma turista sul-coreana é morta por militares do Norte depois de se aventurar em uma zona militar.

25 de maio de 2009: a Coreia do Norte anuncia ter realizado um teste nuclear, bem como lançamentos de mísseis balísticos. Ela ameaça entrar em guerra com a Coreia do Sul se ela se colocar do lado dos Estados Unidos.

Le Monde: No entanto, foram estabelecidos acordos de cooperação entre os dois países...

Péron-Doise:
Teve-se a sensação de uma certa estabilização. A Coreia do Sul se mostrou muito determinada para superar a desconfiança da Coreia do Norte e ajudá-la a sair de seu isolamento. O Norte logo entendeu as vantagens em termos de auxílio alimentar, energético e financeiro. Essas vantagens levaram a Coreia do Norte a compor e a estabelecer encontros mais ou menos regulares. Primeiro em uma ótica humanitária, com a reunificação das famílias separadas pela guerra. Depois, quando o Norte afundou no subdesenvolvimento, com intensa fome entre a população, veio a etapa econômica da cooperação.

Mas ainda há fases de recuo, pois a diplomacia norte-coreana continua avançando em uma base de confrontação. Assim que a discussão ultrapassa o que ela considera serem seus próprios interesses, ela sai do jogo promovendo o princípio da autodefesa. E a vítima mais evidente dessas fases de recuo é o vizinho mais próximo: a Coreia do Sul.

Le Monde: Fora a questão do território, qual é o ponto de ruptura entre os dois Estados?

Péron-Doise:
As disparidades entre os dois Estados se aprofundaram consideravelmente, e o Sul desfruta de um grande sucesso que o Norte não consegue igualar. O Norte se deu conta disso nos anos 1990, quando foi abandonado por seus aliados tradicionais, a Rússia e a China. Foi nesse momento que se lançaram à busca de capacidades assimétricas, com o desenvolvimento de programas militares em detrimento do desenvolvimento econômico e social do país, e da população.

O grande irmão do Sul passa uma imagem que o Norte refuta: um nível de vida mais elevado que renegou os ideais da antiga Coreia. O Norte reivindica o legado da "coreanidade". Ainda mais porque Seul colabora com os Estados Unidos, e se aproximou do odioso inimigo e ex-colonizador que é o Japão.

Le Monde: Então os acordos econômicos eram só um pretexto para Pyongyang?

Péron-Doise:
Simbolicamente, era importante remover as minas da zona fronteiriça, e tinha-se a sensação de uma certa reunificação. Mas cada lado projetava uma forma de reunificação segundo seus próprios interesses, e isso só funcionou na base econômica. Quando se examina o funcionamento financeiro, vê-se que o Sul carregava sozinho os projetos. As relações entre as Coreias deviam muito à empresa Hyundai, muito envolvida na reunificação das famílias. A criação de circuitos turísticos também permitia a entrada de divisas.

Houve um grande esforço financeiro e muito desequilibrado do Sul em troca de ganhos políticos totalmente duvidosos, uma vez que era sempre Seul que sofria as consequências de cada endurecimento e dos rompantes bélicos da Coreia do Norte. No fundo, não houve uma real aproximação.

Le Monde: Já que se analisa com frequência a ameaça norte-coreana em sua dimensão regional, em relação ao Japão, por exemplo, então as ameaças contra a Coreia do Sul não são uma surpresa?

Péron-Doise:
De fato. Sempre houve episódios de ameaças, onde Pyongyang rompia qualquer relação com Seul. A cada vez, a Coreia do Sul tinha a primazia do mau humor da Coreia do Norte quando os encontros internacionais lhe desagradavam, de uma forma muito desencorajadora para uma parte da população sul-coreana e de sua classe política que são a favor de uma política mais firme. Os presidentes anteriores da Coreia do Sul viram criticadas suas "sunshine policies" (políticas de reaproximação) com o Norte.

O atual presidente é conservador e mantém uma linha mais firme e baseada na reciprocidade em relação ao Norte, o que resultou em um resfriamento das relações. O parâmetro que contribuiu para a confusão e que bagunçou as linhas foi o AVC (acidente vascular cerebral) do "querido líder" em agosto passado. Ainda que suas capacidades de decidir estejam prejudicadas, por trás dele estão também seus parentes e pessoas próximas, mas sobretudo o clã dos generais que aposta na arma nuclear, na provocação e na escalada que se pode observar neste momento. Os últimos acontecimentos talvez sejam o reflexo de uma gestão do poder onde Kim Jong-Il não tem mais domínio total sobre suas próprias decisões.

Tradução: Lana Lim

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