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31/05/2009

Quem são os endinheirados que fazem negócios nos paraísos ficais

Le Monde
Le Monde Marc Roche
Você lê uma centena de artigos sobre os paraísos fiscais e acaba se dando conta de que não sabe nada sobre esses centros financeiros no exterior bombardeados com torrentes de imagens nas telas do G20. Viaje de classe executiva pela British Airways (BA) entre Londres e Nassau, capital da Bahamas e um dos reinos desse dinheiro extraterritorial, e você terá uma excelente compreensão disso.

Primeira surpresa: a parte executiva do avião está lotada, ao passo que a econômica está quase vazia. As comissárias de bordo têm dificuldade em arrumar as volumosas bagagens de mão dos passageiros que evidentemente estão com pressa.

Como se parece um paraíso fiscal?

  • Moacyr Lopes Junior / Folha Imagem - Bahamas - Nassau - 07.06.2006

    Turista caminha na praia rosa nas Bahamas

  • Moacyr Lopes Junior / Folha Imagem - Bahamas - Nassau - 14.06.2006

    Vista aérea de Cable Beach, em Nassau (Bahamas)

  • Moacyr Lopes Junior / Folha Imagem - Bahamas - Nassau - 11.06.2006

    Hotel Atlantis, em Nassau (Bahamas). Em um andar suspenso entre as duas torres do Royal Towers, um dos núcleos de hospedagem, fica uma suíte mais do que presidencial: a diária custa US$ 25 mil

O código de vestuário da elite é rígido: camisa, calça jeans de grife e mocassins. Usar moletom e tênis seria uma falta de educação. Assim como a gravata, os sapatos Church's ou a caneta Montblanc presa no bolso, que denunciam os classudos. Quando viajam, os representantes das altas finanças se vestem "smart casual", descontraídos, mas com estilo.

Na hora do aperitivo, esses saltadores de meridianos, cuja média anual de voos ultrapassa em muito a de um piloto de linha, bebem suco de tomate, em vez de champanhe. É preciso manter as ideias claras e sobretudo preservar a forma. Há duas passageiras de sorriso sedutor, estilo calculadora, que todas as gestoras de fundos têm.

A outra incongruência nessa reunião de workaholics masculinos é um aposentado americano de pele bronzeada.

A prateleira de revistas tem um ar macabro: crise e mais crise... Ler as revistas de economia seria de mau tom. Recomenda-se folhear, com uma indiferença estudada, os artigos sedutores das revistas de estilo de vida dos ricos, "Harpers", "Vanity Faire", "GQ". Localizada próximo aos toaletes, uma foto-montagem representa o panorama da City. Os financistas não devem nunca se esquecer de sua mãe que os nutre, a praça de Londres.

O que é esse ar preocupado do ocupante do assento 1A? Será que sua pasta de couro contém maços de dólares provenientes de lavagem de dinheiro sujo na mais pura tradição do best-seller "A Firma", de John Grisham? Os amantes de suspense ficarão decepcionados, pois eis que ele tira um relatório grosso como quatro ou cinco anuários. Hoje, o investidor offshore não lava mais os fundos ilícitos. Ele trabalha para pessoas que ganham fortunas, mas querem pagar o menos de imposto possível em toda legalidade, constituindo empresas registradas em um paraíso fiscal.

Os assentos não são lado a lado, mas ficam de frente um para o outro. Após a decolagem, quem será o primeiro a instalar a tela especial sanfonada, o isolando completamente de seu vizinho? A frase ritual é "incomoda?", à qual você responde, escolhendo cuidadosamente suas palavras, "de forma alguma, pelo contrário". Encontrar o olhar de um desconhecido e falar com ele é um campo minado de matizes, como já sabia o coronel Bramble, de André Maurois. É melhor ficar na sua, respeitar o espaço do outro, e a coabitação dos vários egos no santuário de uma classe executiva em um voo longo se torna suportável.

Na hora da refeição, um empresário todo formal faz algo extraordinário para um inglês: se dirigir a outro passageiro. "Você se importa de trocar sua entrada comigo? Detesto camarão, e não tem mais quiche". Depois desse clarão de humanidade murmurado entre os dentes, ele logo reposiciona a divisória antes de se concentrar na tela de televisão. Ninguém lê livros.

A revista de bordo "High Life" fala de uma pequena revolução: um sistema que permite enviar SMS e emails durante um voo. Esse novo serviço deverá estar disponível a partir do outono a bordo da futura aeronave transatlântica BA, 100% classe executiva, entre os aeroportos London-City e New York-JFK. Para ganhar tempo, o controle alfandegário será na escala de Shannon, na Irlanda.

A British Airways e a globalização andam de mãos dadas. O viajante que desembarca no novo terminal Cinco do aeroporto de Heathrow, totalmente reservado à companhia britânica, na verdade sofre uma espécie de vertigem: 220 voos diários, dois (em breve três) terminais e seis saguões de primeira classe. Vítima da crise mundial e do afastamento da clientela executiva, a transportadora certamente registrou uma grande perda para o exercício de 2008-2009. No entanto, as linhas para as praças financeiras das Antilhas, do Oriente Médio e da Ásia resistem à ressaca. Genebra, Dublin ou Gibraltar também, graças a Deus.

Vista do avião, as Bahamas parecem com uma série de rochedos isolados no meio de um mar de safira. Após a aterrissagem, com um Ray-Ban no nariz, mala de grife com rodinhas na mão, os banqueiros se precipitam em direção à saída do Airbus. É preciso necessariamente ser o primeiro a se apresentar diante da alfândega, que examina respeitosamente os documentos dos ricos. A limusine com chofer, que certamente os espera, não os leva ao hotel, mas a um espaçoso duplex com vista para a interminável praia branca. No longo terraço, eles levarão um copo de rum à boca, enquanto pensam nas listas de clientes e nos honorários faturados por hora.

Tradução: Lana Lim

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