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05/06/2009

Alastair Crooke, o ex-espião trangressivo demais

Le Monde
Gilles Paris
Para preparar o discurso ao mundo árabe e muçulmano do Cairo de Barack Obama na quinta-feira (4), os "redatores" do presidente americano sem dúvida evitam se inspirar em Alastair Crooke, que, no entanto, está há anos envolvido no diálogo entre o Ocidente e o Islã. Apesar de seu delicado cavalheirismo, sua grande discrição, e de sua idade, maduro sem ser velho demais, Alastair Crooke sem dúvida nenhuma é considerado excessivamente transgressivo, mordaz demais, e insensatamente empenhado.

Cidadão irlandês e britânico, ex-espião a serviço de Sua Majestade (ele nunca dirá uma única palavra sobre ela), hoje instalado em Beirute, no Líbano, ele rompeu mais de duas décadas de escuridão para ganhar a luz e uma liberdade de expressão que ele usa sem moderação, principalmente na imprensa britânica.

Para falar a verdade, Alastair Crooke é reincidente. Ele poderia ter seguido uma carreira de banqueiro após estudos confortáveis, mas cansado dos cínicos "que compravam quadros não pela arte, mas pelo preço de mercado", foi no Paquistão, entre Peshawar e Quetta, no auge da jihad contra os soviéticos, veementemente encorajado pelos ocidentais, que ele fez seus estudos clássicos pela segunda vez, com especialização em islamitas de todas as obediências.

Alastair Crooke, que entrou no MI6 britânico no fim dos anos 1980, repete os encontros e as comunicações para compreender melhor os mecanismos que regulam à sua maneira o funcionamento desse microcosmo.

Desse período intermediário, ele mantém o desprezo dos que davam ordens perante a infantaria jogada em uma cruzada moderna; a confiança de Turki Al-Fayçal, então chefe dos serviços sauditas, ou de algum senador americano, convencidos de sua capacidade em amordaçar o tigre islamita quando chegasse a hora. Uma transferência para a América Latina o afasta durante alguns anos do cenário islâmico árabe. Na Colômbia, onde o exército luta contra a guerrilha das Farc, ele adquire as técnicas de negociação, e as receitas mais seguras para a recuperação de reféns.

Alguns anos mais tarde, em 1997, o governo britânico o envia para territórios palestinos. É nessa época que se afundam os acordos promissores de Oslo, para resultar na segunda Intifada, em setembro de 2000. O agente de informação é incorporado na comissão criada especialmente para isso, encarregada em outubro "de estabelecer os fatos" e presidida pelo senador americano George Mitchell, com experiência em impasses políticos e territoriais após sua passagem pela Irlanda do Norte (hoje ele é emissário de Barack Obama para o Oriente Médio). Trata-se então de fechar o mais rápido possível o que ainda não é percebido como um parêntese, uma lufada de violência irracional, para tentar reavivar um processo político. Em vão.

Sob a égide do alto representante europeu, Javier Solana, Alastair Crooke banca o intermediário entre israelenses e palestinos que agora desconfiam uns dos outros, mas confiam nele. "Ele trabalhava, sobretudo, para os britânicos", garante um diplomata europeu da mesma época, que se precipita para denunciar "relações incestuosas", em águas turbulentas, com os islamitas do Movimento da Resistência Islâmica (Hamas) e alguns serviços de segurança palestinos.

Negociador no episódio da longa ocupação da Basílica da Natividade em Belém, na primavera de 2002, ele tenta obstinadamente forjar uma trégua entre três campos irreconciliáveis: os israelenses, os homens da Autoridade Palestina e os do Hamas, que decola com a crise.

A aventura acabou para ele no verão de 2003, após um atentado particularmente assassino perpetrado em Jerusalém, ao qual sucede o primeiro assassinato por Israel de um dirigente político do movimento islâmico, Ismael Abu Chanab. O agente requisitado é transferido, e depois empurrado para fora do MI6, claramente sem muitas considerações.

Na época, o Reino Unido e a Alemanha pressionaram para que o Hamas fosse inscrito na lista europeia das organizações terroristas. Eles tiveram um retorno após uma resistência frouxa da França. Considerado próximo demais dos islamitas palestinos, o intermediário passa a ser mal visto. No entanto, para prestar uma homenagem ao seu trabalho, seus interlocutores israelenses organizaram para Alastair Crooke uma pequena festa de despedida antes de sua partida.

Em um movimento que seus detratores entendem como uma "passagem para o lado inimigo", era fatal, ou lógico, que o pária se aproximasse cedo ou tarde dos banidos, fossem os sunitas do Hamas ou os xiitas do Hizbollah libanês, distintos dos jihadistas e da Al-Qaeda. "No conflito que opõe no Islã os partidários dogmáticos e intolerantes de uma leitura literal do Corão e do Hadith (conjunto de ditos atribuídos a Maomé) a uma corrente mais dinâmica e mais aberta, é paradoxal que o Ocidente sempre se remeta aos primeiros, diante de Nasser, dos soviéticos e hoje do Irã", ele lamenta.

Alastair Crooke não se preocupa com críticas, convencido de que o discurso ocidental se tornou inaudível, na melhor das hipóteses, e insuportável, na pior. Ele fundou uma ONG, a Conflicts Forum, financiada principalmente por mecenas ocidentais. "Claramente, somos radioativos para os governos europeus", garante Alastair Crooke. "Não cabe a nós dar soluções, mas sim colocar as pessoas em contato, permitir ultrapassar os slogans e os chavões", ele explica sem entrar em detalhes.

Convencido de que a solução dos dois Estados não tem mais futuro para resolver o problema palestino, ele também questiona a mudança que o presidente dos EUA, Barack Obama, deseja encarnar, em suas relações com o mundo árabe e muçulmano. "Uma nomeação como a de (Dennis) Ross (ex-negociador muitas vezes apresentado como próximo de Israel) para cuidar do Irã, os gestos perante os regimes egípcios e sauditas não me dizem nada de muito animador", ele garante.

O ex-agente assume o tom de um perfeito companheiro de estrada dos islamitas para defender a noção de "resistência" da qual se orgulham o Hamas e o Hizbollah, em uma audaciosa obra que estabelece um paralelo entre o julgamento outrora feito pelo puritanismo protestante sobre o catolicismo e aquele do Ocidente em relação ao islamismo ("Resistance, the Essence of the Islamist Revolution", Pluto Press).

Na epígrafe da obra figura este agradecimento enigmático: "Para Osama, com quem muito aprendi". E não fala mais nada a respeito.

Tradução: Lana Lim

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