UOL Notícias Internacional
 

05/06/2009

América Latina em ordem dispersa diante de Obama

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
A escolha de Arturo Valenzuela para suceder o diplomata Thomas Shannon no subsecretariado de Estado para assuntos interamericanos completa o plano de Barack Obama destinado a retomar as relações com a América Latina. Obama já havia nomeado Daniel Restrepo, de origem colombiana, para o Conselho de Segurança Nacional, bem como duas mulheres de origem boliviana, Maria Otero, especialista em microcrédito, para o subsecretariado para Assuntos Globais, e Cecília Muñoz, advogada de direitos civis, para o órgão de assuntos intergovernamentais da Casa Branca.

De origem chilena, Valenzuela dirige o Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Georgetown, em Washington. Foi colaborador do presidente Bill Clinton, que o convocou ao departamento do Estado, e depois ao Conselho de Segurança Nacional. Essas nomeações supõem uma mudança da equipe "latina" chamada a exercer responsabilidades. Esses encarregados foram recrutados entre os americanos de ascendência cubana ou mexicana. A América do Sul fornece agora personalidades em sintonia com as prioridades regionais. A diplomacia americana pode assim se libertar dos pesos da política interna, que foi marcada pelas relações tempestuosas com Cuba e com o "quintal".

Claro, as prioridades dos Estados Unidos são sempre em outros lugares, no Afeganistão e no Oriente Médio. E a crise mundial também não facilita as evoluções. O distanciamento tomado por Washington após os atentados do 11 de setembro foi aproveitado pelas capitais latino-americanas para consolidar uma autonomia sem dúvida irreversível. Desde o fracasso do Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca), lançado por Clinton, os Estados Unidos não têm mais um "grande plano" em relação a seus vizinhos do Sul e do Caribe.

A "guerra contra o narcotráfico", mais ou menos calcada sobre a "guerra contra o terrorismo", não durou muito tempo, ainda que as preocupações securitárias tenham continuado a crescer no subcontinente. A noção de corresponsabilidade no tráfico de drogas fica cada vez mais consolidada. A secretária de Estado, Hillary Clinton, admitiu que os consumidores também eram responsáveis. A cooperação nesse domínio gerou controvérsia. Países como a Venezuela e a Bolívia recusam colaborar com a DEA, a agência americana de repressão aos entorpecentes. Na Colômbia, a ajuda massiva dos Estados Unidos não permitiu progressos substanciais na redução dos cultivos ilícitos.

A crise econômica estimula as diferenças entre os países latino-americanos diante de Obama. O México, a América Central e o Caribe são mais dependentes dos mercados dos EUA que a América do Sul, cujas exportações se diversificaram, com exceção dos exportadores de petróleo (Venezuela, Equador). Essa diversificação não impede a expectativa de novas parcerias. Apesar de o Brasil hoje exportar mais para a China, a abertura do mercado americano de etanol, muito tributado, continua sendo uma importante questão.

A convergência dos latino-americanos sobre o retorno de Cuba às instâncias interamericanas, na Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago em abril, e depois na Organização dos Estados Americanos, em 2 e 3 de junho, não conseguiria disfarçar o essencial: a América Latina se apresenta em ordem dispersa diante de Obama. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, acredita que o "império" americano continua "bem vivo". O antiamericanismo, marca registrada de parte da esquerda, também continua bem vivo. Em tempos de vacas magras, é cômodo ter um escape.

Em Trinidad e Tobago, o presidente da Costa Rica, Óscar Arias, se permitiu dirigir a seus colegas alguns lembretes. "Todas as vezes que os latino-americanos se reúnem com o presidente dos EUA, é para lhe pedir ou reivindicar coisas", ele disse. "Quase sempre é para culpar os EUA de todos nossos males passados, presentes e futuros". No entanto, 50 anos atrás, o México era mais rico que Portugal. Há 60 anos, o Brasil tinha um PIB per capita mais elevado que o da Coreia do sul. "Nós deixamos passar alguma coisa", ressaltou Arias. A começar pela prioridade à educação.

Em alguns países da região, as contribuições sociais são inferiores a 12% do PIB. "Não é responsabilidade de mais ninguém além de nós se os ricos não são mais tributados", notou o chefe de Estado costa-riquenho. Prêmio Nobel da Paz, presidente de um país que aboliu o exército em benefício do investimento social, Arias lamentou a inclinação dos latino-americanos pelas ideologias. E ele citou como exemplo o pragmatismo da China, que permitiu que 300 milhões de pessoas saíssem da pobreza.

O subcontinente começou sua integração regional em 1960, com a criação da Associação Latino-Americana de Livre Comércio. Desde então, o empilhamento de estruturas - Comunidade Andina, Mercosul, União de Nações Sul-Americanas, Sistema de Integração Centro-Americana, Comunidade do Caribe - disfarça mal a estagnação do processo de integração. Como diria Arias, também não é culpa dos Estados Unidos.

Tradução: Lana Lim

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