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05/06/2009

Kim Jong-il, sua aura, seu gosto pelo cáqui

Le Monde
Marie Jégo
Em Vladivostok, cidade portuária do Extremo Oriente russo, a nove horas de avião de Moscou, o teste nuclear efetuado pela Coreia do Norte em 25 de maio realmente causou dores de cabeça. Não por causa do nível de radioatividade - o teste foi subterrâneo, o ar não foi contaminado, afirmam os meteorologistas - , mas pela preocupação que se espalhou entre a população.

Alguns afirmam ter sentido o tremor, outros se preocupam com o próximo lançamento de míssil balístico anunciado para meados de junho. Todos ainda se lembram do incidente de 2006, quando um míssil norte-coreano foi desviado de sua trajetória para cair perto de Nakhodka, a outra grande cidade portuária mercantil da Rússia asiática.

"Cheira a pólvora na fronteira", foi a manchete do "As Noticias do Extremo Oriente", o jornal local, em sua edição de 27 de maio. "Se os testes nucleares norte-coreanos continuarem, eles acabarão em uma catástrofe", prevê sombriamente a publicação. Somente 140 km separam Vladivostok - "senhor do Leste", em russo - da Coreia do Norte.

A fronteira é bem vigiada, a comunicação entre as populações é inexistente. Oito mil norte-coreanos são empregados na indústria madeireira, mas eles não são vistos na cidade, ao contrário dos chineses, ativos em todos os mercados onde eles propõem ao cliente o que a Rússia tem dificuldade para produzir (eletrodomésticos, roupas, carne, frutas e legumes).

Fechada com reforço 20 anos atrás, a fronteira entre a Rússia e a China se tornou um lugar de passagem contínua. Desde 2001, os russos e os chineses não precisam de visto para visitar o outro lado. Por 5 mil rublos (R$ 280), os turistas russos compram um "shop tour" em Suifenhe, a primeira cidade chinesa logo após a fronteira, que se tornou um vasto templo do consumo. Em quinze anos, a população de Suifenhe passou de 2 mil para 200 mil pessoas.

Nada parecido no lado norte-coreano. Em agosto de 2001, o posto fronteiriço de Hassan viu passar na maior confidencialidade o trem blindado do "querido líder" Kim Jong-il, em uma viagem de dez dias para Moscou e São Petersburgo. Ele estava então acompanhado do general Konstantin Pulikovski, representante do Kremlin no Extremo Oriente, que o acompanhou por todo seu périplo ferroviário, fazendo-lhe companhia todos os dias na hora do almoço e do jantar.

O general extraiu disso um livro, "Através da Rússia com Kim Jong-il". Claramente, a companhia do "querido líder" o impressionou bastante. "Senti continuamente sua poderosa aura", ele escreve, fascinado por sua "extraordinária capacidade de dirigir os homens" e seu amor pela cor cáqui! Na Rússia, a Coreia do Norte é um modelo que seduz não somente os militares russos - o general da reserva Leonid Ivachov costuma passar suas férias em Pyongyang - , mas também o partido pró-Kremlin, Rússia Unida.

No sábado (30), o braço regional do "partido dos burocratas", como dizem seus opositores, realizou sua conferência anual em Vladivostok. Os funcionários, uma casta de ricos, foram para a reunião com seus enormes 4 x 4 "made in Japan". Entre as personalidades estrangeiras convidadas figurava o cônsul norte-coreano. Discursando diante dos representantes, o cônsul garantiu que seu país continuaria com seus testes nucleares.

Ele também convidou a Rússia a se alinhar sob o guarda-chuva nuclear coreano. A diatribe do cônsul não foi condenada por nenhum dos presentes. Contrariar um "partido irmão"? Nem pensar! Em compensação, foi exigido dos jornalistas que cobriam a conferência que não publicassem nada sobre o assunto. A administração do território bloqueou o dispositivo ao chamar os redatores-chefe para se certificar de que a ordem seria respeitada.

Enquanto em Vladivostok o cônsul era aplaudido, em Nova York, no Conselho de Segurança da ONU, a Rússia recomendava firmeza, ao mesmo tempo em que se dizia hostil a sanções. "No fundo, essas tensões na Península jogam a nosso favor. Esperamos tirar vantagem de nosso estatuto de intermediário em prol do resto da comunidade internacional", explica Mikhail Terski, diretor do Centro de Estudos Estratégicos de Vladivostok.

A Rússia se preocupa ainda mais porque a tecnologia nuclear norte-coreana "é a nossa, é a que fornecemos à China, mas esse processo está escapando de nosso controle e não temos nada a ver com isso", lembra o geopolítico.

Para Moscou, o regime de Pyongyang é em primeiro lugar um parceiro que convém tratar com cuidado, um cliente potencial para as armas e a tecnologia nuclear russa, assim como o Irã e a Venezuela. Por enquanto, esse cliente está sem um tostão, mas todas as esperanças são permitidas. A longo prazo, uma ramificação do gasoduto Rússia-China, cuja construção deve se iniciar este ano, irá até o posto-fronteiriço de Hassan onde a Gazprom prevê construir uma usina de liquefação de gás.

O apoio de Moscou ao vizinho norte-coreano também se explica pelo temor de ver os Estados Unidos criando "uma Coreia unificada, dedicada a se tornar um parceiro americano nos assuntos mundiais", revela o jornal "O Independente" em sua edição de 3 de junho. O jornal prevê: "Não tenhamos ilusões: os EUA, o Japão e a Coreia do Sul têm só um objetivo: eliminar a Coreia do Norte".

Tradução: Lana Lim

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