UOL Notícias Internacional
 

09/06/2009

AF 447: uma inoportuna homenagem nacional

Le Monde
Danièle Sallenave
A extrema emoção suscitada, com razão, pelo acidente do voo Rio de Janeiro-Paris não deve nos impedir de refletir sobre algumas das manifestações às quais ele acaba de dar espaço. A "homenagem" pública prestada em 3 de junho às 228 vítimas, na presença do chefe do Estado, sob forma de uma missa na Catedral de Notre-Dame, nos permite medir o grau de confusão a que nossas sociedades desenvolvidas chegaram, em relação a uma questão de grande importância para a democracia: a distinção da esfera pública e da esfera privada. Constatar isso não é falta de compaixão para com as vítimas e suas famílias, ou falta de consideração por seu luto. Pelo contrário. Lembrar que uma fronteira deve separar o público do privado é lembrar, ao mesmo tempo, a dignidade da esfera pública e a da esfera privada.

Cerimônia em Notre Dame

  • Reuters

    icolas Sarkozy e a primeira-dama, Carla Bruni, deixam a catedral de Notre Dame após cerimônia ecumênica para familiares e amigos dos passageiros e tripulantes do voo AF 447

  • Reuters

    Familiares e amigos comparecem em frente à catedral de Notre Dame em Paris, na França, para participar de cerimônia em homenagem aos passageiros do voo AF 447

Prestar uma homenagem é manifestar a alguém seu respeito, sua deferência, por seu mérito, seu espírito de sacrifício, as qualidades eminentes que se mostrou, por exemplo, na realização de uma ação em vista do bem público. Mas por mais dolorosas que sejam as circunstâncias de suas mortes, por qual ação as vítimas de um acidente de aviação civil mereceriam essa "homenagem" pública da nação, do Estado?

Há algo mais que se soma a isso, que faz dessa uma homenagem literalmente inoportuna. É o fato de ter sido feita durante uma cerimônia religiosa, celebrada na Notre-Dame, em presença do chefe do Estado, infração caracterizada da laicidade. Será que se esqueceram mais uma vez? A França é um Estado laico, e seu presidente, o presidente de todos os franceses, quaisquer que sejam suas religiões.

Portanto, ele não pode participar de uma cerimônia religiosa em exercício de seu cargo oficial - ele só pode participar dela a título privado. Acreditou-se responder a uma objeção imediata ao assinalar que a imparcialidade das autoridades havia sido respeitada, pois, no mesmo momento, preces eram feitas na Grande Mesquita de Paris e em uma sinagoga.

É especialmente chocante que se possa considerar que tenha sido prestada uma homenagem igual a todas as vítimas porque o deus único dos monoteístas foi invocado ritualmente sob três formas! Bela "homenagem", de fato, aos ateus, aos agnósticos e aos descrentes de todos os tipos!

Liberdade de consciência
Então se teria o direito de ser ateu, contanto que não fosse dito em voz alta, mas esse direito lhe seria retirado no momento da morte, quando mais do que nunca as convicções de uma pessoa devem ser respeitadas! Não seria a França dotada há mais de um século de um corpo de leis que proclama uma separação da Igreja e do Estado, acrescentando à neutralidade deste último o respeito institucional da liberdade de consciência?

A separação do público e do privado é o resultado histórico de uma conquista, ela é um dos fundamentos das democracias modernas que obriga cada cidadão a não confundir o interesse público e os interesses privados. Introduzir na esfera pública as formas estritamente privadas da compaixão é confundir essas duas ordens, e abrir a todas as espécies de manipulações dos espíritos e das consciências. E é mais o fato de confundir, do que de submeter a esfera privada a uma demonstração institucional, que retira das vítimas seu caráter singular e transforma suas tragédias em um espetáculo coletivo para o horário de maior audiência, na mais profunda desconsideração pelas suas convicções íntimas.

Ao prestar uma homenagem pública a essa vítimas infelizes, em vez de partilhar do luto de suas famílias, o Estado na verdade as priva do direito de manifestá-lo à sua maneira. Um luto, mesmo que reúna pessoas em grande número, é uma questão privada. Cada um deve poder buscar e encontrar os recursos que lhe convêm, e como lhe convêm, em suas crenças religiosas ou filosóficas, em suas afeições familiares, na solidariedade de seus amigos, de seus vizinhos...

O papel específico do Estado não deve ser somente enviar às famílias "unidades de apoio psicológico" que costumam ser saudadas pela unção das mídias, mas primeiro, e sobretudo, velar pela aplicação rigorosa e rápida de seus direitos. Ora, como admitem as associações de famílias de vítimas, é muitas vezes ali que o Estado demora.

Saiba mais sobre a autora

Danièle Sallenave é romancista e ensaísta, autora de "Castor de guerre" e "Nous, on n'aime pas lire", da Editora Gallimard

A esfera pública se degrada, a partir do momento em que é invadida por um sentimentalismo onde as instituições e seu chefe não deveriam encontrar prazer, mas do qual eles esperam sem dúvida um benefício político. Mas a esfera privada também se degrada, uma vez que cada um de nós perde o direito ao silêncio, à dignidade de um luto que se decide viver à sua maneira, e quando se aplica sobre a vida singular de cada um daqueles que o destino acaba de ceifar brutalmente uma imagem coletiva, midiática, heroica e mistificada, que não lhe fazem justiça de nenhuma maneira.

Tradução: Lana Lim

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