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09/06/2009

Julgamento de amante que teria matado banqueiro por causa de uma frase começa na quarta

Le Monde
Pascale Robert-Diard
Em 15 de março de 2005, Cécile Brossard enfrenta os dois investigadores da polícia judiciária do cantão de Genebra. É a terceira vez que ela é interrogada desde a descoberta, na manhã de 1º de março, do corpo sem vida de seu amante, o banqueiro Edouard Stern, dono da 38ª maior fortuna da França, encontrado nu sob uma roupa de látex, com a cabeça e o corpo perfurados por quatro balas de revólver. Até ali, ela havia negado veementemente qualquer responsabilidade em sua morte. "De cara, faço questão de voltar atrás em minhas declarações anteriores. Fui eu que matei Edouard Stern", ela confessa.

Ela havia se tornado a suspeita número um desde a análise dos vídeos de segurança da garagem do prédio em que vivia Edouard Stern. Ela havia entrado de carro, às 21h17, em 28 de fevereiro, e saiu algumas horas mais tarde, antes de começar um estranho périplo que, em alguns dias, iria levá-la de Genebra a Sydney (Austrália) e trazê-la de volta.

Nesse momento, Cécile Brossard decide explicar, em detalhes, tudo que aconteceu nessa noite de 28 de fevereiro entre os dois amantes. Ela havia chegado primeiro, e ele a encontrou dez minutos mais tarde. Eles conversaram na cozinha, bebendo coca-cola. A conversa logo enveredou para o milhão de dólares que Edouard Stern havia depositado na conta de Cécile Brossard duas semanas antes e sobre a qual ele acabara de pedir, por meio de seus advogados, o bloqueio judicial. Esse milhão os assombra. Ela o havia exigido como "prova de amor", após quatro anos de relacionamento. Ele hesitou. Ela insistiu. Ele cedeu e agora tentava recuperá-lo.

Cécile Brossard e Edouard Stern vão para o quarto. Ainda falam do milhão e do procedimento tomado pelo banqueiro. Ela conta. "Edouard me disse: 'Quando entro com um processo contra alguém, deixo de vê-lo e deixo de amá-lo'. Ficamos um bom tempo na cama nos olhando. De repente, a atitude de Edouard mudou radicalmente. Percebi que ele queria ter uma relação sexual comigo. Ele se aproximou de mim, colocou a mão em minha perna, e me disse que queria vestir sua roupa de látex".

Em seguida vem a descrição crua de seus jogos sexuais. Ele, sentado de pernas abertas em uma cadeira, com as mãos e os pés presos por cordas. Ela, à sua frente, de collant decotado e botas pretas, um chicote de couro na mão. Ela o chicoteia. "Estávamos completamente envolvidos em nosso jogo e a relação estava muito intensa", ela conta. "Então, me olhando fixamente, ele me disse: 'Um milhão de dólares é caro para uma puta'. Nesse momento perdi a cabeça. Corri para o closet e fui até as gavetas onde ficavam os acessórios sexuais. Eu havia visto que, na primeira gaveta de cima, ele guardava três pistolas". Ela escolheu uma.

"Eu estava de pé, apontei minha arma para seu rosto e atirei pela primeira vez. A arma devia estar a cerca de dez centímetros de seu rosto. Acho que o atingi entre os olhos. Depois desse primeiro tiro, ele se levantou, deu uma meia-volta sobre si mesmo e caiu em seu lado esquerdo. Dei mais um tiro na direção da cabeça. Naquele momento, ao ver o sangue, me veio a imagem do Edouard na África durante as partidas de caça. Lembrei que ele não gostava de acabar com os animais depois de atingi-los porque ele gostava de vê-los sofrerem antes de morrer. Tive esse flash e não quis que ele sofresse. Então logo atirei mais uma ou duas vezes no seu corpo. Depois, caí de joelhos, olhei em frente e vi uma espécie de névoa branca que se dissipava diante de meus olhos".

A audição termina, e Cécile Brossard está esgotada. Aos investigadores ela diz, por fim: "Quando ele disse a frase que desencadeou tudo, ele me matou". Essa frase - "um milhão de dólares é caro para uma puta" - está no centro do processo que se abre, na quarta-feira (10), diante da Corte Criminal de Genebra. Cécile Brossard responde por assassinato. No final da instrução, o procurador geral Daniel Zappelli decidiu descartar a premeditação que havia sido inicialmente considerada. A acusada escapa da pena mínima de dez anos prevista pelo código penal suíço para o crime de assassinato. Se o "assassinato passional", que a defesa sustenta, for aceito, ela estará sujeita a uma pena máxima de dez anos.

Dessa investigação altamente sensível, conduzida pelo juiz Michel-Alexandre Graber, nada vazou durante quatro anos. Dezenas de testemunhas foram ouvidas, horas de fitas - Cécile Brossard conservava cuidadosamente em uma caixa todas as mensagens deixadas em sua secretária eletrônica - , milhares de emails e mais de 700 SMS trocados entre os dois amantes passaram pelo pente fino. Tudo isso constitui um dossiê com quase 5 mil páginas, que tenta reconstituir da forma mais próxima possível o que foi a relação passional e destrutiva entre o banqueiro quarentão, brilhante, temível e temido, originário de uma das maiores famílias da aristocracia financeira francesa, ex-genro e por um tempo príncipe herdeiro de Michel David-Weill, presidente do banco Lazard, e sua amante de 36 anos, ex-vendedora em uma loja de luxo no aeroporto de Roissy, que se tornara companheira de um naturopata famoso da clientela endinheirada de Gstaad, cuja riqueza lhe permitia uma vida preguiçosa, entre cuidados no spa, pintura, escultura e saídas noturnas.

Para a defesa de Cécile Brossard, garantida por Pascal Maurer e Alec Reymond, essa "frase-gatilho" é o apogeu de uma relação perversa, humilhante, que progressivamente levou sua cliente ao limite. Eles lembram o passado atormentado de uma garota maltratada, agredida sexualmente durante a adolescência, criada em meio a uma família desunida com a qual ela logo rompe, suas errâncias de jovem nas noites parisienses. Durante um jantar organizado por um amigo galerista, ela encontra Edouard Stern. "Seu banqueiro é um chato", ela diz a seu amigo. No dia seguinte, é Stern quem liga para ela. Durante muito tempo, Cécile Brossard foi sua amante secreta. Com as outras, ele saía. Com ela, se escondia em casa, em Genebra, ou na casa de campo que ela reformou perto de Paris, no departamento de Oise, em Nanteuil-le-Haudouin, onde ela o inicia nos jogos sexuais. "Aquele que domina todos os códigos do mundo escolhe o trás-mundo", observa Maurer.

Ela termina com ele várias vezes, sempre voltando em seguida, subjugada por esse homem que a trata alternadamente das formas mais carinhosas e mais odiosas. As mensagens ternas de "seu coelhinho" são seguidas de insultos: "Você não passa de uma vadia, acha mesmo que vou passar minha vida com você?"

Aos poucos ele a inicia na caça, sua paixão, que ele sacia na Sibéria, com os ursos, e na África, com os leões. De volta de uma temporada africana, para onde Edouard Stern também levou seus filhos, ele lhe diz: "Meus filhos a acharam muito estúpida". Mas ele a apresenta a sua querida meia-irmã, Fabienne Servan-Schreiber, e pede para seu psicanalista examiná-la. Ela desliga de novo seu celular, ele acampa uma noite inteira sob a janela do apartamento que ela divide com seu companheiro naturopata.

Uma relação desequilibrada, um "assédio moral de uma extraordinária sofisticação, uma espécie de tango mortal que Edouard Stern ritmava a cada passo", garante a defesa de Cécile Brossard. Uma versão recusada pela parte civil - os três filhos agora maiores que Edouard Stern teve com sua esposa, Béatrice, de quem se divorciou. Para seu advogado, Marc Bonnant, o assassinato de Edouard Stern assinala a fúria de uma mulher gananciosa, que não suporta a ideia de perder o milhão de dólares que lhe foi prometido. "São duas pessoas sem limites entre as quais há uma relação de dominador-dominado. Mas o dominador não é aquele que acreditamos ser", observa o advogado, que se diz convencido de que "ao longo dos anos a relação de força se inverteu". Para ele, Cécile Brossard "pegou" Edouard Stern, o tornou dependente dela.

Bonnant remonta a história do assassinato ao outono de 2004, em que a amante faz duas exigências: ela pede ao banqueiro que se case com ela e lhe pede um milhão de dólares para "garantir sua segurança". O dossiê mostra o pânico de Edouard Stern, que confessa a um amigo - "Não quero perdê-la"- e escreve diante dele a carta que envia a Cécile Brossard em novembro e na qual ele se compromete a respeitar as duas condições.

Durante algumas semanas, o casal parece viver uma grande felicidade. Mas o milhão prometido demora a chegar na conta bancária de Cécile Brossard, que fica preocupada. Ela promete devolver essa "prova de amor" que ela diz ser simbólica. Quando a quantia finalmente é depositada, em janeiro, ela desaparece. Edouard Stern se sente traído. "Você não passa de uma ladra! Vejo bem em seus olhos. Só o dinheiro te interessa", ele lhe escreve. Ele quer vê-la, ela foge novamente. Edouard Stern lhe declara então que havia mandado bloquear o milhão de dólares em sua conta e lhe envia uma passagem de avião para Genebra para que eles possam se explicar. Ela vai. Os dois amantes passam a noite juntos na sexta-feira, dia 26, e jantam dois dias depois no restaurante. Na segunda-feira de manhã, Cécile Brossard liga para seu banco, que lhe confirma o bloqueio. Algumas horas mais tarde, com seu traje preto na bolsa, ela estaciona seu carro na garagem do prédio de Edouard Stern.

Os doze jurados e o presidente da corte criminal de Genebra se deram nove dias para julgar e, talvez, entender.

Tradução: Lana Lim

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