UOL Notícias Internacional
 

10/06/2009

Crise coreana causa forte impacto regional

Le Monde
Philippe Pons
Em Tóquio
A crise aberta pela nova escalada de tensão conduzida pela República Popular Democrática da Coreia (RPDC) tem primeiro uma dimensão regional pelo fato da proximidade da península da China, do Japão e da Rússia. Mas ela também tem implicações no Oriente Médio pelos laços que Pyongyang mantém com o Irã e a Síria, e pelo precedente que o "caso coreano" pode constituir para a diplomacia americana.

O risco imediato dessa crise é um incidente militar entre as duas Coreias. Um conflito é sempre possível ao longo de uma zona desmilitarizada, cujos ambos os lados veem duas armadas se enfrentando em pé de guerra. A RPDC anunciou não estar mais ligada pelo armistício de 1953. No passado, Pyongyang denunciou várias vezes esse acordo. Desta vez, o regime reage a uma iniciativa da Coreia do Sul, ela mesma reagindo às "provocações" do Norte: participar da Iniciativa de Segurança contra a Proliferação (PSI), que permite a inspeção em alto mar de navios suspeitos. Segundo Pyongyang, Seul está violando o acordo de armistício.

A volta ao confronto entre as duas Coreias aparece em um contexto particularmente volátil: tanto o Norte quanto o Sul pretendem responder a cada "provocação" do outro. Nenhuma das duas Coreias quer um conflito, mas as duas parecem prontas a aumentar a pressão até o limite além do qual uma derrapagem pode acontecer. Um limiar difícil de localizar, uma vez que os canais de comunicação entre os dois países foram cortados.

O segundo risco regional causado pela mobilização na península é a corrida armamentista. No Japão, a ameaça norte-coreana é o argumento tradicional da direita para desenvolver as capacidades de defesa do Arquipélago. As manobras de Pyongyang relançaram o debate sobre a possibilidade de o Japão proceder com ataques preventivos, e se munir da bomba atômica.

Graças a seus estoques de plutônio e a seu avanço tecnológico, o Japão poderia rapidamente tomar a iniciativa. Ainda que ela não esteja na ordem do dia, a opção nuclear está presente no espírito dos dirigentes japoneses que se questionam sobre a confiabilidade do guarda-chuva nuclear americano na hipótese em que os Estados Unidos sejam diretamente ameaçados. Dúvidas que alimentam um debate mais amplo: a busca do Japão por uma nova identidade política que supõe uma relação mais igualitária com os EUA.

A gesticulação norte-coreana provoca Seul: em 1974, o general-presidente Park Chung-hee estava a ponto de se munir da bomba atômica, mas Washington pôs um fim brusco a essa ambição. Pequim não quer de forma alguma um Japão munido da bomba atômica. Moscou também não: "Ele estaria errado em se lançar a uma corrida armamentista", declarou a respeito da crise coreana o primeiro-ministro Vladimir Putin, à imprensa japonesa, na véspera de sua viagem ao Japão no início de maio.

Na China, as manobras belicosas norte-coreanas suscitaram críticas notáveis da política de Pequim em relação à RPDC por parte dos especialistas em questões internacionais: Zhan Liangui, especialista em questões norte-coreanas, pede para que o governo desista de sua cautela em relação a Pyongyang, ao passo que Zhu Fen, do Centro de Estudos Estratégicos na Universidade de Pequim, considera o teste nuclear como "um tapa na cara da China". Parece pouco provável que Pequim abandone sua posição de mediadora nessa crise, correndo o risco de perder qualquer influência sobre o regime, desestabilizando-o e provocando um caos interno que poderia ter por consequência a perda do controle pelo regime de seu arsenal nuclear, aumentando os riscos de transferência dessas tecnologias para o exterior.

Para o governo chinês, a equação é simples, da mesma forma que o dilema que ela levanta é absoluto. O que é preferível? Uma RPDC nuclear, irritante mas dependente, ou uma queda do regime com o risco de uma reunificação pelo Sul sob o controle americano? Mas escolher a primeira opção é incentivar a corrida armamentista, ou até a proliferação na região - e em outras partes.

Quer seja reconhecido ou não seu status de potência nuclear, a RPDC é detentora de capacidades atômicas e existe o risco de que ela venda seu know-how. Segundo os serviços de informação americanos, especialistas nucleares norte-coreanos vão com frequência para o Irã (o que Teerã nega). Os dois países podem se completar: a RPDC tem estoques de plutônio e o Irã pode ajudá-la em matéria de enriquecimento de urânio.

A menos que, de alguma maneira, a administração Obama lide diretamente com Pyongyang, é difícil ver onde vai parar a escalada. Mas parecer "ceder" a Pyongyang provocaria um protesto dos "falcões" do Congresso e poderia ser interpretado como uma mensagem de fraqueza por Teerã. Um gesto da parte dos Estados Unidos poderia, por sua vez, indicar uma vontade de se libertar da espiral atual ao se colocar "acima das condenações emocionais" e das "ameaças ilusórias de ações de ambas as partes", escrevem Peter Haynes e Scott Bruce, do Instituto Nautilus em San Francisco. Não é a posição adotada, por enquanto, por Washington.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host