UOL Notícias Internacional
 

10/06/2009

Junto dos párias de Tóquio

Le Monde
Philippe Pons Em Tóquio (Japão)
"Pode me chamar um táxi?" Em um canto sombrio sob o toldo de uma loja fechada, só se vê o guarda-chuva aberto no chão que protege seus pés da chuva. "Sim, mas para ir aonde?" A mulher meio deitada usa um casaco forrado que já viu dias melhores. Rosto sem idade, cabelos desalinhados de um grisalho meio amarelado. Seus olhos se arregalam com a pergunta: "Hã... não sei. Esqueci". Reminiscência de uma frase dita em uma vida anterior? Suas palavras se tornam inaudíveis, ela adormece, com o queixo encostado no peito.

A rua Ameyoko, no bairro popular da estação de Ueno, é durante o dia um grande mercado de preços moderados. Assim que as lojas sob a ferrovia fecham por volta das 21 h, os sem-teto, entre o cheiro de peixe e o ruído dos trens, juntam as caixas de papelão amontoadas diante das portas de aço. Alguns as guardam dobradas nas carroças para vendê-las. Outros fazem com elas o que no jargão das ruas eles chamam de "foguete": uma montagem alongada na qual eles entram para dormir.

Formando uma minoria insignificante - 4% dos 4.700 sem domicílio fixo recenseados em Tóquio (número que sem dúvida dobrou hoje) - , as mulheres vivem solitárias, falam pouco entre si, desconfiam umas das outras. Sem passado. Sem futuro. A maioria das mulheres sem domicílio fixo passou dos cinquenta anos. Algumas têm uma pequena renda, insuficiente para ter uma moradia, e procuram esconder o fato de que não têm abrigo. Algumas vêm do mundo dos bares e da prostituição. Para outras, a vida naufragou: violência doméstica, ausência de renda, despejo de uma moradia...

Entre os sem domicílio no Japão, existem os "sedentários" que têm um lugar onde dormir - uma barraca, na maioria das vezes - e aqueles que peregrinam. As mulheres fazem parte da segunda categoria. Algumas vivem em casal nos aglomerados de barracas em parques ou nas margens do rio de Tóquio, o Sumida. Mas a maioria anda sem rumo, solitárias: "Se juntar com homens complica a vida, cria rivalidades. A gente é explorada, apanha. É melhor manter distância", elas dizem.

Durante as distribuições de comida nos parques, podem-se ver algumas delas. Depois de fazerem fila junto com um grupo de 300 a 400 homens, elas ficam em um canto, solitárias, como os homens que comem em silêncio, dispersos. Depois elas devolvem sua tigela de arroz e seu prato com a frase costumeira após uma refeição - "Obrigada por sua bondade"- , dirigida àquele que a preparou. E retomam seu rumo, sozinhas, da mesma forma como chegaram.

A noite urbana é perigosa para as mulheres. Muitas vezes elas dormem durante o dia e se põem em movimento quando anoitece. Os portões da estação de Ueno fecham à uma hora da manhã. Pouco depois, um pequeno grupo de quatro ou cinco mulheres, com a cabeça coberta por um lenço ou um cobertor, saem do parque vizinho e se dirigem para os banheiros ainda abertos: "Ali, podemos ter três horas de sono tranquilo", diz uma delas. Elas se instalam no chão sob um edredom puxado até a cabeça. Roubos, violência, estupro? "Sou velha, então, nesse sentido, para mim não tem problema", ela diz. "Mas às vezes tem violência".

Aquelas que têm algum dinheiro vão para um McDonald's aberto dia e noite. Por um café de 100 ienes (R$ 2,20), é possível ficar algumas horas lá. Cartazes avisam que aqueles que caírem no sono deverão ir embora, mas por volta das 2 ou 3 horas, não é raro ver os sem-teto, homens e mulheres, adormecidos, com o rosto esmagado nos braços, sobre a mesa.

Assim como os homens, elas não mendigam. Os sem-teto japoneses sentem que são responsáveis por sua decadência. Destino? Efeito do karma - ciclo de reencarnações e do encadeamento das leis do budismo? A sociedade tende a ignorá-los. E eles mesmos interiorizaram essa culpa. Eles não pedem nada a ninguém, recusam a piedade. Na medida em que conseguem se virar, eles sobrevivem em um mundo paralelo à sociedade comum da qual se afastam, vivendo de seus restos, com a grandeza crepuscular daqueles que não têm mais nada - mesmo nos recônditos de si.

Com seu lenço que deixa à mostra o que parece ser uma peruca, essa mulher idosa perambula do parque de Yoyogi até o de Ueno, do outro lado de Tóquio. Quando ela tem um pouco de dinheiro ela toma o trem, senão ela anda, um dia ou uma noite, arrastando sua mala de rodinhas que rangem, com sacos plásticos pendurados. Ela não se lembra mais desde quando está nas ruas - "Esqueci o que é ter uma moradia"- nem sua idade - "Mais de 70 anos: parei de contar". Órfã de guerra, ela trabalhou "aqui e ali". Alguns dizem que ela foi professora.

Uma noite, em uma ponte sobre a ferrovia na estação de Ueno, uma forma humana havia se jogado sobre o parapeito, com os braços pendurados no vazio e as pernas tortas. Relativamente jovem, franzina, suja, o rosto aflito, tonta de fraqueza. Ela dizia não ter fome, mas comeu lentamente uma bolinha de arroz embrulhada em algas (lanche japonês). Em seguida ela apoiou a cabeça na pedra do parapeito. "Quando se cai de inanição na rua, a polícia intervém. Mas quando se está mal, ainda que em estado grave, ninguém vem", diz um assistente social. Patética e acabada, ainda com forças para ficar em pé, a mulher do parapeito ficará lá, presa pela noite.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host