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11/06/2009

"Obama não pode estender a mão ao Irã indefinidamente", diz especialista

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Diretor de pesquisas no CNRS, Bernard Hourcade, um dos melhores especialistas acerca do mundo iraniano, analisa a questão da eleição presidencial de 12 de junho no Irã. O atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, enfrenta o conservador Mohsen Rezai, ex-chefe dos Guardas da Revolução, Mehdi Karoubi, ex-presidente do Parlamento, e Mir Hussein Moussavi, ex-primeiro ministro, que recebem o apoio dos reformistas.

Os principais candidatos

  • AP

    (A partir do topo equerdo, em sentido horário) Mahmoud Amadinejad, Mir Hussein Mousavi, Mohsen Rezaei e Mahdi Karroubi são os principais candidatos à presidência do Irã

Le Monde: O que esta eleição pode mudar?
Hourcade:
Na essência, ela não mudará nada. Mas as tensões dentro e fora do país são tais que o próximo presidente será obrigado a sair do conservadorismo. Obama estende a mão, mas ele não pode estendê-la indefinidamente. Até Ahmadinejad, se for reeleito, deverá parar de gritar "morte a Israel, morte aos EUA!", e tomar verdadeiras decisões. O fator tempo é essencial. Os iranianos deverão negociar, e eles não são bons jogadores de xadrez, eles não sabem perder um peão para ganhar dois. Ora, será preciso fazer concessões, se quiserem ser reconhecidos como potência regional.

Le Monde: Quem saberá aproveitar a oportunidade?
Hourcade:
As abordagens dos candidatos são diferentes. É ali que a eleição pode ser importante. Pode-se temer que Ahmadinejad não queira obter muito de uma negociação e acabe pondo tudo a perder. Mas se ele vencesse, seria uma vitória dos radicais e eles permaneceriam no poder por muito tempo... Moussavi, seu principal rival, entendeu que seria necessário saber escutar. Ele é realista e racional, mas não se deve esquecer que ele é muito nacionalista, ele foi o primeiro ministro na época da guerra Irã-Iraque (1980-1989).

Ele discutirá sobre a questão nuclear, mas será muito firme, nem se cogita abrir mão das centrífugas. Ele certamente procurará levar o Irã ao limiar nuclear, como o Japão, mas respeitando o direito internacional. A diferença com Ahmadinejad é que sua posição será clara, articulada e que ele dará verdadeiras garantias. Com Moussavi, se estará longe das manobras extremistas improdutivas, mas ele será capaz de defender os interesses do país. Ele vem da esquerda intelectual próxima dos palestinos. Não se deve esperar que o Irã se afaste do Hezbollah ou da Síria.

Le Monde: O que significa ser reformista no Irã?
Hourcade:
Não existem partidos políticos. Os quatro candidatos são todos filhos da revolução, saídos do mesmo molde. Se dizer reformista não é querer mudar o regime, mas ter um tom e uma abordagem diferente sobre a questão das mulheres, dos direitos humanos, da cultura. E talvez mais racionalidade, como o ex-presidente Khatami, que tentava levar em conta as vontades da sociedade. É só.

Não se esqueça, foi sob o governo de Khatami que as pesquisas nucleares foram realmente desenvolvidas. E quando ele fala de diálogo das civilizações,é também para mostrar a superioridade do mundo muçulmano.

Le Monde: Qual é o poder do presidente diante do Líder Supremo?
Hourcade:
Ele tem uma função importante, é o chefe do governo. O Líder Supremo Khamenei possui mais um poder de bloqueio, o que fez com que o Irã não fosse capaz de tomar decisões fundamentais todos esses anos. O Líder é o herdeiro de trinta anos de revolução. Ele sempre esteve no círculo do poder, presidente do Partido da República Islâmica, depois presidente da República (1981-1989), e finalmente Líder. Ele busca acima de tudo um consenso impossível entre as múltiplas facções que defendem os fundamentos da República Islâmica.

Se ele se apoiar em um presidente que quer mudar, o país avançará, mas se o presidente eleito se contentar em ficar sobre a barricada para defender uma visão agressiva e passadista da revolução de 1979, o país se isolará em sua cultura de resistência em vez de adotar o dinamismo de uma potência regional. É essa a questão.

Para o Líder, os quatro candidatos são aceitáveis. Todos são defensores da República Islâmica. Ele apoiará aquele que vencer. Ele não pode "perder" a eleição. Segundo a dinâmica da campanha, Moussavi parece o mais apto a realizar a união nacional necessária para fazer o Irã mudar, ao reunir os velhos revolucionários, as mulheres, os jovens, os burgueses, os Guardas da Revolução. Rezai e Karoubi querem isso também, mas não estão tão bem posicionados. Khatami nunca foi um homem de reunir; ele dividia, "reformista" demais. Mas não vejo um líder que consiga enfrentar Obama. E se o país perder seu rumo ele vegetará sob outras sanções e secará, cada vez mais cercado.

Le Monde: Qual é o perigo para o Irã?
Hourcade:
Ataques israelenses sobre as instalações nucleares ou um embargo americano sobre o petróleo tornariam a vida dos iranianos mais difícil, mas não ameaçariam a sobrevida da República Islâmica, que poderia até se radicalizar. A questão entre Israel e a Palestina? Para o Irã, ela é primeiramente ideológica. A questão afegã? Ele poderia no máximo contê-la, se não resolvê-la, mas a pressão religiosa, militar, nuclear, econômica, exercida por um Paquistão de 180 milhões de habitantes, fronteiriço em 978 km, não tem solução para um Irã de 73 milhões de habitantes. O pior seria se o Paquistão caísse nas mãos de facções sunitas próximas dos talebãs: o sistema islâmico xiita, a independência e a unidade nacional seriam ameaçadas. Seria o fim das ambições internacionais do Irã.

Também existe um risco interno de contestação da minoria sunita - curdos e balúchis - , ampliado pelas dificuldades de controle da fronteira oriental onde os traficantes de droga conduzem uma verdadeira guerra às autoridades iranianas. Os atentados terroristas são frequentes, perpetrados por grupos sunitas com base no AfPak (Afeganistão-Paquistão) desde os anos 1990. Diante de um Paquistão nuclear, o Irã, que está adquirindo uma capacidade tecnológica no assunto, não pode ficar indiferente. Essas novas relações de força permitem medir o risco incorrido pelo Irã e o papel que ele pode exercer para resolver uma crise prioritária para os Estados Unidos.

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Tradução: Lana Lim

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