UOL Notícias Internacional
 

16/06/2009

Catástrofe do Airbus Rio-Paris impõe o reforço da segurança aérea

Le Monde
Gérard Feldzer*
Da pane elétrica aos falsos destroços, muitas coisas foram ditas desde o drama do voo AF 447. Muitas falsas notícias, e também falsas informações. De um lado, os holofotes midiáticos; do outro, o furo de reportagem a qualquer preço. Tudo isso em meio a uma comunidade aeronáutica traumatizada, famílias destruídas. E uma solidariedade exemplar dos profissionais da aviação.

É válido levantar questões: como e por que o avião entrou nessa tempestade? O que aconteceu nessa cabine de comando, com tantos alarmes provavelmente incompreensíveis para os pilotos? O que teríamos feito no lugar deles? Mas também é imprudente tirar conclusões nesse estágio, tantas são as situações possíveis. Pitot, que tornou-se tristemente famoso, e seu sensor, não conseguem explicar sozinhos as razões do drama e sobretudo seu resultado.

Tendo percorrido inúmeras vezes essa linha do Atlântico sul no comando de A330 idênticos, entre os quais certamente o que acaba de ser destruído, conhecendo essas frentes tropicais por tê-las enfrentado em avião (mas também em dirigível, durante minha travessia com Nicolas Hulot, brutalmente interrompida), posso atestar a violência considerável das frentes intertropicais, sobretudo nessa época.

Esse acidente nos remete a uma maior apreensão dos caprichos da natureza, que se tornam cada vez mais violentos. Como se ela dissesse a nós, humanos: "Aja comigo, nunca contra mim, vocês não serão os mais fortes..." Mesmo que nada permita associar o desaparecimento do Airbus ao aquecimento climático, como evitar pensar nisso? Enquanto ninguém mais contesta entre a comunidade científica que a temperatura da água dos oceanos tende a subir, e junto com ela a evaporação e a condensação do vapor de água, fontes de energia e forças motrizes dessas temíveis perturbações.

É claro, a Zona de Convergência Intertropical tão bem descrita por Mermoz sempre existiu. Ela sempre teve suas massas de nuvens semeadas de cumulonimbus gigantescas. Em 35 anos de travessias oceânicas como piloto, e depois como comandante de bordo, lembro-me que chegávamos a sobrevoá-las a maior parte do tempo, ao passo que hoje, por terem se tornado muito elevadas, nem sempre temos outra escolha a não ser atravessá-las.

No entanto, não podemos excluir, como em muitos acidentes, um acúmulo de fatores, alguns climáticos mais também técnicos e/ou humanos, sem mesmo descartar por enquanto a hipótese de um atentado, ainda que ela pareça cada vez menos provável.

Gostaríamos de poder responder a todas as questões dos parentes das vítimas, e a todas aquelas das outras pessoas preocupadas e consternadas: o acidente poderia ter sido evitado? Os passageiros e a tripulação se deram conta de alguma coisa? Eles puderam reagir? Eles sentiram algo? E, por fim, será que esse acidente pode servir pelo menos para evitar outros? Uma longa investigação será necessária para responder às duas primeiras interrogações, mas não há nenhuma dúvida quanto à terceira: a resposta do fabricante, da companhia aérea e do poder público deverá estar à altura do trauma sofrido.

Isso implica a implantação de melhorias em todos os setores: o dos mapas meteorológicos e das imagens de satélite "sob demanda" acessíveis nas cabines de comando, das comunicações globais sem "buracos de frequência", uma cobertura radar global, a substituição ou a duplicação das caixas pretas pela transmissão em tempo real e automática de todos os dados segurados e confidenciais e não somente daqueles ligados aos requeridos à manutenção nas escalas, melhores interfaces homem-máquina, etc.

Isso ultrapassa as capacidades de uma única companhia, de um único fabricante e de sua cadeia de terceirizados, ainda que sejam tão eficientes quanto a Air France e a Airbus, que nos oferecem, eu comprovo, os mais maravilhosos, os mais seguros aviões do mundo, no comando dos quais eu, em 20 mil horas de voo, atravessei o planeta e transportei passageiros sãos e salvos. Porque a segurança não tem preço, ela não pode ser um argumento de venda entre industriais ou companhias que devem garantir, tanto em terra como no céu, um nível de segurança igual para todos.

Porque a segurança não tem fronteiras (foram contadas mais de 30 nacionalidades a bordo do voo AF 447), é indispensável reforçar, sem mais demora, um programa internacional da segurança aérea, cofinanciada por todos os agentes: as companhias aéreas, os fabricantes, os Estados, os órgãos internacionais. Talvez este acidente, tão excepcional, ainda que as causas reais não possam ser determinadas, mude nossa forma de entender o transporte aéreo. Talvez ele nos torne (pilotos, controladores, mecânicos, fabricantes de equipamentos, poderes públicos...) muito mais modestos, sem certezas e mais vigilantes.

Talvez ele nos incite a aprofundar, a explorar e a aplicar muito mais rapidamente as cooperações internacionais, e a reunir meios suplementares em favor de uma segurança partilhada, para que o avião continue sendo um dos meios de transporte mais seguros do mundo. Devemos melhorar a nós mesmos, e a tecnologia continuará a diminuir os riscos.

Mas devemos estar cientes de que os maiores riscos para a humanidade vão se dar nos anos a seguir. Em dezembro, durante a conferência mundial sobre o clima, em Copenhague, temos um compromisso com a história, a nossa. Entender a natureza, respeitá-la, nos munirmos de melhores ferramentas de observação e prevenção, isso é o que necessita de uma conscientização e de uma vontade política inflexível de nossos dirigentes.

* Diretor do Musée de l'Air et de l'Espace e integrante da Académie de l'Air et de l'Espace

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host