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16/06/2009

O desmatamento da Amazônia, miragem econômica para os brasileiros

Le Monde
Jean-Pierre Langellier No Rio de Janeiro (Brasil)
Não só o desmatamento progressivo da Amazônia tem consequências nefastas para o meio ambiente do Brasil e do planeta, como ele também não beneficia, a médio prazo, do ponto de vista econômico e humano, as populações que participam dele ou que o acompanham, ao se estabelecerem nas regiões desflorestadas. É essa a conclusão essencial de um estudo de campo conduzido por uma equipe internacional de seis pesquisadores e publicada, na sexta-feira (12), pela revista americana "Science".

Segundo os autores da pesquisa, o desflorestamento leva, em um estágio inicial, a uma melhora de vida das populações locais, que se reflete no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse índice, adotado pela ONU, é calculado a partir de três critérios: a expectativa de vida, o nível de renda e a taxa de alfabetização.

Ele progride tão rápido quanto a média nacional brasileira, ou até mais, ao longo da fronteira do desflorestamento. Mas, à medida que essa fronteira se desloca, os progressos do desenvolvimento humano diminuem: este último encontra nas regiões já desflorestadas um nível comparável - e baixo - àquele registrado nas zonas não desflorestadas.

O desmatamento e a extensão da agricultura e da pecuária às custas da floresta atraem para a fronteira "migrantes" de toda espécie - grandes fazendeiros, pequenos "colonos", camponeses sem-terra, madeireiros, comerciantes, garimpeiros - em busca de lucro ou simplesmente de uma vida melhor. A chegada desses brasileiros, menos pobres que a população local, contribui parcialmente para os progressos do IDH. Mas muitos deles também são mais pobres e menos instruídos que a média nacional. O boom do desenvolvimento se deve então, sobretudo, à exploração dos recursos naturais, facilitada por um melhor escoamento dos produtos graças às novas estradas asfaltadas, e à implantação da rede governamental de educação e saúde.

No entanto, esses progressos são efêmeros. O IDH cai rapidamente nas localidades das regiões desflorestadas, de acordo com o declínio de produtividade das atividades econômicas causado, por exemplo, pelo esgotamento dos recursos madeireiros ou pela degradação dos pastos. O estudo lembra que, no início dos anos 1990, mais de 75% das terras desflorestadas na Amazônia eram dedicadas à pecuária, e mais de um terço já foram abandonadas.

Essa pesquisa foi realizada em 286 municípios, em estágios diversos de desmatamento, que representam a imensa maioria do território e da população amazônica. Ela termina em 2000, ano dos últimos números de recenseamento conhecidos. Conclusão do estudo: "O atual modo de desenvolvimento da Amazônia está muito longe do desejável, seja para os homens, seja para a natureza".

O que fazer? "É preciso combinar as abordagens", explica uma das autoras do estudo, Ana Rodrigues, do Centro de Ecologia Funcional e Evolutiva no CNRS de Montpellier. "Valorizar mais as regiões desflorestadas. E, sobretudo, reduzir o desmatamento, promover o reflorestamento nas zonas degradadas, incentivar as populações florestais a conduzirem atividades de desenvolvimento sustentável". Por exemplo, remunerando os serviços voltados ao ecossistema pelos habitantes da floresta, como se começa a fazer no Brasil.

Lista de multinacionais
Em um relatório recente, o Greenpeace destacou que a pecuária intensiva de bovinos é responsável por 80% do desflorestamento. Segundo a organização ecologista, "no decorrer dos últimos anos, um hectare de floresta foi destruído a cada 18 segundos em média pelos criadores de gado". O Brasil se tornou o principal exportador de carne bovina, com um terço da tonelagem mundial.

O Greenpeace critica o governo por incentivar a pecuária, ao ajudar financeiramente as grandes empresas do setor e fechar os olhos para as explorações ilegais. Ele cita uma longa lista de multinacionais, compradoras de produtos provenientes de explorações envolvidas no desflorestamento ilícito.

Um intenso debate opõe atualmente ecologistas e exploradores rurais a respeito de um projeto de lei prestes a ser votado sobre a regularização fundiária na Amazônia. Em princípio - dar uma garantia jurídica aos agricultores, especialmente os mais vulneráveis - , o texto obtém unanimidade em seu favor.

Mas os ecologistas, que têm o apoio do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, acusam os parlamentares de terem distorcido o projeto ao introduzirem diversas cláusulas consideradas favoráveis demais ao agronegócio. O ministro espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decida em seu favor.

Tradução: Lana Lim

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