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18/06/2009

Belas paisagens contrastam com a seriedade de ser cenário dos resgates de acidente aéreo

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Certos lugares não são adequados para o luto. É o caso do arquipélago de Fernando de Noronha, base avançada de operações de busca dos corpos dos 228 passageiros e dos destroços do voo AF 447, que caiu no mar na noite de 31 de maio para 1º de junho. É cruel o contraste entre a seriedade lúgubre que reina neste momento sobre essa pequena ilha vulcânica circundada por uma série de ilhotas (21 km quadrados ao todo) e o esplendor de sua paisagem equatorial.

Situado a cerca de 540 km da costa do Recife, capital do Estado de Pernambuco, ao qual pertence, Fernando de Noronha é uma joia da natureza, registrado em 2001 no Patrimônio Mundial da Unesco: enseadas de areia dourada, águas turquesa e sempre quentes, espetáculo submarino encantador. Segundo os profissionais do turismo, a ilha principal abriga três das dez praias mais belas do Brasil.

O arquipélago foi descoberto e descrito em 1503, por Américo Vespúcio, explorador florentino que, navegando sob comando português, viria a dar seu nome a toda a América. Ao longo dos séculos, recebeu a visita de viajantes célebres: o corsário Francis Drake, o capitão James Cook e o naturalista Charles Darwin. E infinitamente mais próxima de nós, a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o chefe do Estado brasileiro passou ali junto com a família o réveillon de 2009, longe de importunadores.

Fernando de Noronha e a aviação francesa têm uma antiga história em comum, felizmente menos trágica. Em 1927 os ases do céu, endurecidos nas cabines rústicas dos Breguet 14 da Société des Lignes Latécoère, primeira empresa de aviação comercial (1919), instalaram uma pequena base de apoio técnico para os hidroaviões que pousavam no arquipélago.

Três prédios foram erguidos, equipados com o conforto da época, incluindo um refrigerador e eletricidade de origem eólica. A praia sobre a qual eles pairam, no extremo nordeste do arquipélago, mais tarde recebeu e manteve o nome de "ponta Air France".

Em 1927, a Société Latécoère deu lugar à Compagnie Générale Aéropostale. Seus pilotos se consideravam fiéis ao "espírito da linha": audácia, perseverança, generosidade. Seu objetivo: Estabelecer uma conexão postal regular entre o Mediterrâneo e o Pacífico. Naquele ano, uma primeira tripulação francesa, Costes e Le Brix, atravessou o Atlântico sul entre Dacar e Natal.

Na América do Sul, os notáveis da Aéropostale colecionavam missões, explorações e alguns milagres. Jean Mermoz elaborou os voos noturnos que seriam descritos por Antoine de Saint-Exupéry. Em 1928, ele conectou o Rio a Buenos Aires. "O Grande", como o chamaria "Saint-Ex", abriu o céu, em busca de uma brecha direta para a Cordilheira dos Andes.

No ano seguinte, seu Laté 28 caiu sobre uma encosta rochosa, a 4 mil metros de altitude. Após quatro dias de reparos com seu mecânico, Alexandre Collenot, e a barriga vazia a -15o C, ele voltou a decolar em três saltos sobre plataformas rochosas separadas por precipícios. Em julho de 1929, ele abriu a linha dos Andes com Henri Guillaumet, o melhor de todos, talvez. A "muralha" foi transposta. Em 12 de maio de 1930, Mermoz, o navegador Jean Dabry e o radiotelegrafista Léo Gimié atravessaram o Atlântico, de Saint-Louis do Senegal até Natal, em 21 horas, a bordo do Comte-De-La-Vaulx com 130 kg de correspondências. Foi a primeira ligação postal aérea entre os dois continentes. Um voo quase sem histórias, apesar da inevitável Zona de Convergência Intertropical, pavor ancestral dos marinheiros, essa zona onde os alísios colidem, com fortes tempestades, relâmpagos e quedas de granizo, e onde o Airbus A330 desapareceu.

"Estava tudo escuro", contaria Mermoz. "Tudo se confundia: as nuvens, o horizonte e o mar. Quando saímos de lá, três horas e meia depois, o esplendor do luar nos pareceu divino, e a imensidão, um paraíso. Tive de conter meu entusiasmo: como um pônei que se solta em um prado, fui tomado pelo desejo furioso de saltar, escalar, virar, mergulhar, enfim, de desfrutar de nosso salvamento".

Mais tarde, Mermoz notou que "os brasileiros de Fernando de Noronha estavam cometendo um erro a respeito de nossa posição", logo corrigido por Dabry. Em Natal, a correspondência embarcou em outro aparelho. Ela seria distribuída em Santiago do Chile, quatro dias após sua partida de Paris.

Entre 1927 e 1934, lembra a historiadora Marieta Borges, a "cantina" do arquipélago viu passar os maiores homens do ar - como se dizia então: Mermoz, "Saint-Ex" e os outros. Em seguida, a escala perdeu sua importância, à medida que os hidroaviões eram deixados de lado. Mermoz pousou ali um primeiro avião "terrestre", mas não conseguiu fazê-lo decolar novamente em uma pista que havia virado um lamaçal. Em 1933, a Aéropostale foi absorvida por uma nova companhia, a Air France.

Em 7 de dezembro de 1936, Mermoz parte de Dacar com quatro companheiros de tripulação a bordo de seu Croix-du-Sud, um Latécoère 300. É sua 25ª travessia do Atlântico sul. Ele tem 8.200 horas de voo em seu histórico. Em dois dias, ele completaria 35 anos. A 800 km da costa africana, seu hidroavião morre, após uma última e breve mensagem: "Cortar motor traseiro direito". Há mais de 70 anos, os pilotos da Air France usam uma gravata preta em memória daquele que dizia "não conceber outra existência além da aérea".

Tradução: Lana Lim

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