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18/06/2009

Pesquisador francês diz que cúpula do estado iraniano está cortada em duas

Le Monde
Benoît Vitkine
Para Clément Therme, pesquisador do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), a crise iraniana reflete o confronto entre dois conceitos do exercício do poder.


Le Monde - A violência das manifestações, sua intensidade e sua duração são uma surpresa?

Clément Therme -
É uma surpresa para todos os observadores do Irã. Mas é sobretudo uma surpresa para o establishment da república islâmica. A oligarquia político-religiosa implantada em Teerã havia supervalorizado a popularidade de Ahmadinejad. Essas manifestações são um acontecimento inédito: é a primeira vez que atos de tal amplidão ocorrem no Irã contra a manipulação do voto.

Le Monde - O que pretendem os manifestantes? Quais são suas reivindicações?

Therme -
A força do movimento está justamente na simplicidade e na modéstia de suas reivindicações. O que Moussavi [candidato derrotado pelo presidente Ahmadinejad] pede é a anulação das eleições. Além dessa reivindicação oficial, as motivações dos manifestantes são diversas: alguns apóiam Moussavi; outros, principalmente os estudantes, querem o fim da república islâmica, ou pelo menos que o sistema lhes dê mais liberdades. Moussavi tornou-se o vetor de um descontentamento que antes não podia se exprimir.

Le Monde - Podemos esperar um gesto de conciliação das autoridades?

Therme -
O precedente de 1999 [a violenta revolta dos estudantes, em julho] pode nos ensinar muito: a saída da crise, na época, foi facilitada pela personalidade do presidente Khatami, um homem mais aberto ao diálogo que seu sucessor. Hoje a saída da crise é complicada pela personalidade de Ahmadinejad. É uma personalidade polarizadora - ou se está com ele ou contra ele. A intensidade do conflito, até então latente, entre os estudantes e o presidente é tal que é impossível ver como ele vai se resolver.

Le Monde - Quem está no comando do Irã neste momento?

Therme -
É difícil dizer. Assim como observamos na rua as divisões da sociedade iraniana, a cúpula do estado também está cortada em dois. Observamos um confronto entre duas visões da república islâmica.

De um lado estão os duros, conduzidos por Mahmud Ahmadinejad, o líder supremo Ali Khamenei e o aiatolá Mesbah-Yazdi. Esse grupo é favorável a uma teoria do governo islâmico no qual a soberania popular é desprezível. A legitimidade divina do poder basta a si mesma. Esse clã elevou sua autoridade ao máximo, notadamente distribuindo a renda do petróleo. E não pretende perder esse poder. Do outro lado, há os reformistas e os conservadores pragmáticos, que se aproximaram durante a presidência Ahmadinejad, com Moussavi e Khatami como líderes. Entretanto, eles continuam sendo homens da cúpula, que pretendem eternizar a república islâmica.

Por enquanto não sabemos em que essa oposição vai desembocar. Mas o clã conservador passou ao ataque, por exemplo com a detenção temporária do irmão de Khatami.

Le Monde - É portanto na rua que poderá se resolver essa divisão...

Therme -
Os manifestantes têm um papel importante. Eles se alinharam atrás de Moussavi e o clã dos reformadores. Será uma força importante na batalha. Mas a chave desse conflito também deve ser buscada do lado do clero xiita. Os iranianos são crentes, mas nem todos são a favor de um poder político dominado pelo religioso. Isso é verdadeiro especialmente para o alto clero, que é apoiado sobretudo pelos conservadores pragmáticos e os reformadores.

Le Monde - Khamenei, que está na cúpula do sistema iraniano, apoia claramente Ahmadinejad?

Therme -
Por enquanto sim. Mas se sentir que a eternidade da república islâmica está ameaçada, poderia abandonar Ahmadinejad. O líder supremo defenderá o presidente enquanto este parecer o mais capaz de garantir a sobrevivência da república islâmica.

Le Monde - Essa ameaça de explosão da república islâmica é real?

Therme -
Isso também é difícil de dizer. Não devemos esquecer que Moussavi é antes de tudo um homem da cúpula, uma figura da república islâmica. Ele não é um opositor. As personalidades e os clãs que se enfrentam não são revolucionários. Dito isso, tudo pode acontecer. Antes de 1979, eram raros os que previam a queda do xá...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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