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19/06/2009

De telhado em telhado, de grito em grito: um resumo de 30 anos de revolução no Irã

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Todas as noites, a partir dos telhados repletos de antenas de Teerã, se ouve um longo grito modulado, repetido por milhares de vozes: "Allah O Akbar!" ("Alá é grande!"). Como há 30 anos, quando os pais dos cantores de hoje gritavam ao anoitecer o mesmo chamado. Havia menos antenas - parabólicas, pelo menos - , mas o entusiasmo era tão grande quanto. Em 1979, a palavra de ordem vinha do exílio, de Neauphle-le-Château, perto de Paris, de onde o aiatolá Khomeini se preparava para voltar, para iniciar sua revolução islâmica. Tratava-se de invocar Alá contra o xá, rei autoritário que queria modernizar rapidamente o país, ajudado por seus protetores americanos.

Mas e desta vez? Será que se invocaria Alá, à noite no Teerã, contra a teocracia no poder? Deus contra uma República "islâmica" de mulás [líderes religiosos islâmicos], cada vez mais radicalizada e que decidiu voltar aos princípios dos primeiros dias da revolução? A situação é intrigante.

Em 2009, as ordens vieram do coração do país. É o único meio inventado para se fazer ouvir por centenas de milhares de iranianos, partidários do ex-primeiro ministro Mir Hussein Moussavi, que se julgam enganados pela eleição presidencial de 12 de junho que reelegeu Mahmoud Ahmadinejad com um resultado tão contestado quanto esmagador (63%).

De telhado em telhado, de grito em grito: um resumo de 30 anos de revolução. Basta ler de trás para frente esse playback à iraniana para ver que poucas coisas mudaram. Nos lugares públicos, as pessoas cochicham, há interferência e escuta nos telefones como antes. Não mais pela Savak, a terrível polícia do xá, mas pela Savama, Vevak ou sabe Alá qual outro serviço secreto entre esses que proliferaram. O trabalho mudou: saem os panfletos, entram os SMS, os vídeos e os celulares, esse pesadelo policial que tira tantas fotos...

Mas tudo está em ordem. Os opositores na prisão, os intelectuais e jornalistas vigiados, os reformistas suspeitos, e a penitenciária de Evine, lotada. Como nos bons e velhos tempos pré-revolucionários. E as pessoas do círculo interno, com o mesmo instinto de conservação, evitam comentar qualquer excesso. Eles não dizem mais "o Rei não sabia", mas "o Líder não sabia".

É tudo? Não. É claro que há as marchas pacíficas. Os revolucionários estendiam flores aos soldados imperiais: "Venham conosco!"; os adeptos da onda verde Moussavi (cor de sua campanha) dizem aos milicianos Basij [soldados voluntários islâmicos]de cáqui: "Mesmo no seu uniforme, o verde fica bonito..." E tudo, como sempre, acaba em golpes de cassetete. Moussavi, ausente por 20 anos da política, talvez não tenha entendido tudo, ao convocar seus partidários na praça da República (Engelab) para ir até a da Liberdade (Azadi). Um trajeto improvável. Mas sua ingenuidade e coragem fizeram escola: centenas de milhares se juntaram a ele. E até recomeçaram. Depois? Depois, o playback não diz nada.

Tradução: Lana Lim

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