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20/06/2009

Irã em foco: País vive crise de ideologias e gerações

Le Monde
Ramin Jahanbegloo
Desde os primeiros dias da República Islâmica do Irã, duas soberanias coexistem no país: uma divina, a outra popular. O conceito de soberania popular, que deriva da vontade indivisível da nação, está contido no artigo primeiro da Constituição da República Islâmica. O conceito de soberania divina, que deriva da vontade de Deus por intermédio das instituições xiitas do imamato, é conferido ao faqih [jurista islâmico] na condição de chefe legítimo da comunidade xiita.

SOBRE O AUTOR

Ramin Jahanbegloo é filósofo e leciona na Universidade de Toronto, no Canadá, onde está refugiado desde 2006

Com o tempo, a soberania divina se afastou da religião em benefício da teologia política. Quanto à soberania popular, ela encontrou o lugar que lhe era devido nas redes sociais e na ação política da sociedade civil iraniana. A coexistência dessas duas concepções incompatíveis da soberania, da autoridade e da legitimidade, sempre constituiu um pomo da discórdia na política iraniana e muitas vezes definiu os contornos ideológicos das lutas de influência políticas que opõem as forças em questão.

A crise iraniana desencadeada com a eleição presidencial tem raízes no confronto entre a sede popular de democratização do Estado e da sociedade e a reação conservadora que se opõe a ela. Mas existe um outro fator que distingue a crise política dos episódios passados de dissensões e de lutas pelo poder no Irã.

Essa crise diz respeito a uma arraigada estrutura ideológica herdada da revolução iraniana. Por um lado, homens como Mir Hussein Moussavi e Mehdi Karoubi, que estão entre os arquitetos do regime islâmico e se candidataram à presidência, pensavam que a nomenklatura islâmica prepararia um lugar para a reforma e a transformação. Atualmente eles se encontram na liderança de um movimento democrático e reformista que contesta o autoritarismo e a ausência de liberdade que prevalecem no Irã.

Mas um fator igualmente importante também se aplica. A maioria dos manifestantes que questionaram a legitimidade do processo eleitoral no decorrer da semana que se passou não são, ao contrário do que eram seus pais, revolucionários. Eles pertencem a uma nova geração que não viveu a revolução de 1979 e que sonha com um outro Irã. Esses jovens só nos lembram uma imagem monolítica do país que não reflete necessariamente a disposição de espírito dos 70% da população que tem menos de 30 anos. O desejo de democracia dos jovens iranianos constitui um sério desafio em relação ao movimento reformista e sua autenticidade democrática.

Protestos no Irã: passado e presente

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Vamos especificar também que, ainda que o abismo sempre tenha sido profundo entre tradicionalistas e modernistas desde a revolução islâmica de 1979, a novidade é que, na ocasião dessa eleição, a ruptura entre o Estado e o povo está maior do que nunca. Ela ao mesmo tempo dividiu aqueles que julgam que relações econômicas e políticas normais com o Ocidente são vitais para o futuro do Irã e aqueles que desprezam esses laços, que eles consideram como violadores dos ideais da revolução islâmica.

Oligarquia religiosa
Obviamente, o resultado da eleição presidencial de 2005, que levou Ahmadinejad ao poder pela primeira vez, já era um indicador da crise interna entre soberania popular e regime autoritário que está no cerne do contexto político da República Islâmica. Os confrontos atuais entre grupos de reformistas e partidários de Ahmadinejad após a reeleição deste traduzem, na realidade, uma luta política entre a natureza republicana do Irã e sua oligarquia religiosa. O gesto republicano consiste em prestar uma atenção quase exclusiva à legitimidade do espaço público, ao passo que o establishment religioso se recusa a conceder qualquer legitimidade aos julgamentos de opinião.

Em momentos como este, não se deve esquecer que cada vez que a democracia é sujeita a intimidações, se vê reduzida ao silêncio ou adiada para um outro dia por uma demonstração de força como a que acontece no Irã, disso resulta uma perda de credibilidade para aqueles que detêm o poder e uma crise de legitimidade de todo o sistema político. Se a violência de rua sofresse uma escalada no Irã, ela também poderia levar a uma escalada de violência em todo o Oriente Médio. Isso também poderia complicar os esforços internacionais que visam solucionar com Teerã problemas como o programa nuclear iraniano, o futuro do Iraque e o do Afeganistão.

O presidente americano declarou que estava disposto a conversar com o Irã. Ora, a reeleição de Ahmadinejad reforça os temores dos israelenses e dos sauditas a respeito da segurança de seus países e de seus cidadãos, que vivem ao alcance de mísseis de um Irã hostil. Os Estados Unidos esperavam a vitória dos reformistas. Essas esperanças foram frustradas, e os EUA deverão lidar com Ahmadinejad. O presidente Obama contava com a derrota de Ahmadinejad para justificar a decisão de sua administração de evitar tocar na questão nuclear.

Pensando bem, é muito improvável que os tumultos de agora levantem uma onda capaz de tirar Ahmadinejad e sua corrente. No entanto, o Irã se encontra afundado em uma crise de legitimidade sem precedentes em sua história política. O mundo não pode ignorar essa virada na política interna e externa iraniana. Deixar o gênio da democracia sair da lâmpada iraniana seria o mesmo que abrir uma caixa de Pandora, que o regime obviamente teme não conseguir fechar novamente.

  • Arte UOL
Tradução: Lana Lim

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