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20/06/2009

Irã em foco: Uma sensação de "déjà-vu" (1979-2009)

Le Monde
Réza Barahéni
Em Teerã, a grande manifestação que reuniu mais de um milhão de pessoas, protestando contra o anúncio pela República Islâmica da vitória de Mahmoud Ahmadinejad, lembrou o autor deste artigo das inúmeras manifestações das quais ele participou após a fuga do xá em 1979.

SOBRE O AUTOR

Réza Barahéni é escritor, autor de "Les mistères de mon pays", ["Os mistérios de meu país"], volume I. (Fayard, 2009).

Enquanto em Toronto eu assistia a reportagens sobre os acontecimentos recentes na televisão, e via os corpos e os rostos cobertos de sangue dos jovens, vítimas dos ataques da polícia, eu revivia os primeiros instantes e as primeiras semanas da revolução que culminaria na instauração do regime islâmico.

Eu havia chegado a Teerã quatro dias após a partida definitiva do xá. O avião que havia me levado de Nova York a Roma, e depois a Teerã via Atenas, tinha a bordo cerca de quarenta dissidentes em exílio, que em conjunto totalizavam 175 anos longe do Irã. Agora, voltávamos ao país para ficar, e nos juntar àqueles que marchavam nas ruas. Eu só havia passado seis anos em exílio, enquanto outros estavam fora desde 1953, após o golpe de Estado orquestrado pela CIA.

Com meu passaporte iraniano na mão, eu estava logo atrás de alguém que acabara de dar o seu ao agente da alfândega, quando reparei em meu nome na lista que o funcionário examinava. Ele era seguido da seguinte observação: "Réza Barahéni, saída e entrada proibidas!". De repente, me perguntei o que estava fazendo lá, e quando chegou minha vez, decidi pelo tudo ou nada: passei minha mão pela abertura do guichê, coloquei meu passaporte na mesa do agente, e corri na direção de um grupo de pessoas que esperavam mais adiante. Foi então que alguém chamou pelo meu nome: "Sr. Barahéni, seu passaporte!". Voltei, peguei o passaporte e me afastei o mais rápido possível para me juntar àquelas pessoas com buquês de flores. Foi então que reconheci meus dois irmãos, os rostos familiares de amigos escritores e jornalistas, e ali quase me dissolvi de vez na multidão!

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Os olhos vendados
Não acho que a história jamais tenha tido a ocasião de se repetir. Um escritor acredita firmemente que todo acontecimento é único, e sua repetição é impossível. Senão, por que ele se daria ao trabalho de relatar os acontecimentos que testemunha? No entanto, ninguém havia previsto que o embate entre o governo e o povo iraniano daria tal sensação de déjà-vu.

Mais uma vez, a geração de filhos se confrontava com a dos pais. É praticamente impossível prever o futuro, mas uma coisa é certa: assim como a juventude do país havia arrancado o poder das garras do xá para entregá-lo à autoridade religiosa, sua principal rival, não vai demorar para que o poder usurpado pela República Islâmica seja entregue a seus opositores.

Acontece de eventos parecerem totalmente idênticos, a tal ponto que quase sejam confundidos, ao mesmo tempo em que permanecem radicalmente diferentes. O ódio do xá era motivado. Senão ele jamais teria decidido fugir do Irã para buscar refúgio em outro lugar. Mas ele estava longe de imaginar que os Estados Unidos, que o haviam entronado em 1953, lhe recusariam até o direito de ser enterrado em solo americano. A história é cruel. E agora, enquanto a juventude de hoje confronta a República Islâmica e é tão parecida com a juventude de 1979 que confrontava o xá, será que vamos assistir a uma repetição do passado? Não! Como aceitar tal visão? As soluções para problemas similares nem sempre são idênticas.

Mas a crueldade dos dois regimes é idêntica. Da mesma forma que sua incapacidade de assimilar a modernidade contida na democracia. Assim como seu medo de um futuro diferente para eles e para o país que eles dirigem, e seu apego ao passado. No entanto, a história reserva surpresas chocantes. Antes que a República Islâmica caia da mesma forma que o regime do xá, ela deve cumprir seu tempo. Muitas vezes a história progride de olhos vendados.

Tradução: Lana Lim

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