UOL Notícias Internacional
 

23/06/2009

A difícil missão da 'rainha' dos esquimós do Grande Norte canadense

Le Monde
Martine Jacot
Enviada especial ao Território do Nunavut (Canadá)
A cena se passa em Rankin Inlet, uma das pequenas comunidades à beira da imensa baía de Hudson, no Grande Norte do Canadá. Quase o fim do mundo. Acessível somente por avião a preços altos no inverno, e por barco durante os quatro meses do ano sem barreiras de gelo. É o reino dos inuítes, antigamente chamados de esquimós ("comedores de carne crua").

No fim de maio, a 6 graus negativos, a neve cede terreno no vilarejo, mas a grande enseada de Rankin ainda está congelada. Na sala comunitária, a festa está à toda. Os 2.300 habitantes, entre os quais 400 brancos, foram convidados para banquetes organizados pela prefeitura. Cada um pode se sentar no chão mesmo, onde pedaços de rena seca estão espalhados em caixas, ou comer em pé em torno das mesas guarnecidas de sopas, saladas e bolos confeccionados à moda do Sul.

De repente, ouve-se um clamor no fundo da sala, seguido de uma agitação. Jovens caçadores acabam de entrar, trazendo duas pesadas focas mortas algumas horas antes na banquisa. Eles as colocam no chão. Duas mulheres inuítes se apossam delas com o "ulu", a faca tradicional em forma de raspadeira arredondada. Gestos lentos, cerimoniosos. Cortar a pele do ventre, separar a gordura, atingir a carne, cortá-la em pedacinhos e distribuí-la, crua. Ela tem o cheiro e o sabor de uma ostra.
  • Chris Wattie /Reuters - 1.jul.2007

    Governadora-geral do Canadá Michaelle Jean chega para a comemoração no Parliament Hill, em Ottawa



Uma elegante mulher negra se ajoelha perto das carcaças. A ela propõem que tente o manejo do ulu. Ela se entrega à experiência, aplicada. Sua vizinha extrai o coração da foca, tira um pedaço, e o experimenta. "Posso provar?", pergunta a convidada. Estendem-lhe um monte sanguinolento, que ela engole sem fazer careta. "É delicioso", ela garante a sua filha um tanto calada e a seu marido, enquanto um fotógrafo e um diretor de vídeo imortalizam a cena.

Essa senhora negra não é uma qualquer. Na mesma manhã, ela explicou aos alunos de Rankin Inlet que ela havia emigrado do Haiti para o Quebec 11 anos atrás, com sua irmã e seus pais, refugiados políticos. Que sua vida não era um mar de rosas, mas que a educação à qual ela teve a sorte de ter acesso em Montréal havia feito "toda a diferença". Essa feminista militante se tornou professora de literatura comparada (francesa e italiana) e em seguida entrou na televisão pública canadense. Ali ela se destacou nas entrevistas e nas reportagens sobre os problemas sociais.

A convidada de honra do banquete de Rankin Inlet não era ninguém menos que... a chefe de Estado: ela representa a rainha Elizabeth 2ª no Canadá, uma das monarquias constitucionalistas da Comunidade das Nações. Casada com o franco-canadense Jean-Daniel Lafond, um ex-professor de filosofia no colégio de Châtre (departamento de Indre) que se tornou cineasta no Quebec, mãe de uma pequena haitiana adotada, Michaëlle Jean é governadora-geral do Canadá.

Desde que ela foi escolhida em junho de 2005 para ocupar esse posto, ela nunca havia dado tanto o que falar. Em reação ao "jantar oficial" de Rankin Inlet, os grupos de defesa dos animais a acusaram de dar aos canadenses "uma imagem de neandertais". Eles a repreenderam por ter se entregue a uma "demonstração sanguinolenta imprópria", vinte dias após a votação do Parlamento Europeu que proibia em seus países membros a venda de todos os produtos derivados da foca. Os deputados de Estrasburgo queriam protestar contra uma caça comercial considerada "repugnante". Esta atividade praticada pelos inuítes é, junto com a pesca, quase tudo o que lhes resta de práticas ancestrais que lhes garantem alguma autossuficiência.

Nas oito etapas seguintes de seu périplo ártico, após a costumeira inspeção dos cadetes do exército e dos soldados (o governador é comandante-em-chefe dos exércitos), "Sua Excelência", como o protocolo exige que ela seja chamada, justificou seu gesto, "natural em um momento de comunhão". Ela continuou a valorizar a cultura dos inuítes: para sua sobrevivência, eles se dedicam há séculos a esta caça "respeitando muito o animal e o meio ambiente"; a foca é essencial para sua alimentação ("carne hiperproteica, gordura rica em ômega 3") e suas vestimentas. Comovidos ao extremo por essas marcas incomuns de "respeito", os dirigentes do Nunavut - entidade política criada há dez anos para dar aos inuítes um Parlamento, mas não todos os poderes - ainda testemunhariam outras de suas agradáveis surpresas.

Nesse imenso território (31 mil habitantes em 2 milhões de quilômetros quadrados, quatro vezes a superfície da França), Michaëlle Jean navegou até os limites constitucionais de seu papel. Ela o define de forma simples: "Uma autoridade moral à escuta dos cidadãos, encarregada de fornecer elementos de reflexão ao governo federal canadense". Sem satisfações a dar, nem mesmo a Elizabeth 2ª.

Enquanto se multiplicam as explorações mineradoras no Grande Norte rico em ouro, diamante, ferro, níquel, cobre ou urânio e afetado pelo aquecimento global, a governadora afirmou que o desenvolvimento econômico de Nunavut, desejado por Ottawa, era indissociável de seu "desenvolvimento humano, no contexto de atividades sustentáveis, conformes às concepções dos inuítes". Os projetos mineradores, que só esperam o fim da recessão para começar, também deveriam, na sua opinião, prover aos inuítes condições suficientes para que eles possam sair de um assistencialismo de consequências trágicas.

As sessões de "depoimentos" que Michaëlle Jean conduziu acima e abaixo do círculo polar permitiram que fosse expressa uma aflição abissal muitas vezes abafada. Aquelas de uma sociedade que em meio século passou de iglus para casas pré-fabricadas importadas do Sul, dos trenós de cães às motos de neve, das pedras como pontos de referência colocadas na tundra, até a internet. A partir dos anos 1950, os brancos sedentarizaram esse povo de nômades, às vezes chegando ao ponto de matar seus cães de tração. Eles deslocaram famílias inteiras por milhares de quilômetros, em Resolute e em Grise Fjord, perto do pólo Norte, para afirmar a soberania canadense nesses confins. Os exilados quase foram dizimados. "Vocês têm todos os motivos para estarem furiosos, me admira que não estejam", disse a eles a governadora.

Até o fim dos anos 1970, policiais e padres enviaram os jovens inuítes a internatos nas cidades do Sul, com proibição de falar sua língua, acreditando estar trabalhando para seu futuro. Humilhados, mal-tratados e até violentados nesses pensionatos, essas crianças só podiam voltar para suas casas durante os curtos meses de verão. Ottawa acaba de abrir um processo de indenização de vítimas. No meio tempo, elas foram privadas de sua história, do conhecimento de seus pais e avós, ao mesmo tempo em que eram jogadas ao ostracismo nas cidades do Sul. "Quiseram nos reprogramar", resumiu Siila Watt-Cloutier, ex-presidente da conferência circunpolar, em Iqaluit, capital do Nunavut.

Implacáveis termômetros da angústia, o alcoolismo devastou as famílias e os índices de suicídio (especialmente entre homens jovens) atingiram picos: 121 em cada 100 mil habitantes em Nunavut entre 1999 e 2003, dez vezes mais do que no resto do Canadá. Em Kugluktuk, em 2007, quase 200 jovens inuítes saíram às ruas dessa comunidade de 1.300 habitantes, exigindo a seus próprios pais que parassem de beber, de se drogar e matarem uns aos outros para cuidarem deles. Foi uma terapia de choque. Decidiu-se controlar a venda de álcool. Outros vilarejos se declararam simplesmente "secos". Apesar do inevitável contrabando, os níveis de violência começam a baixar. "Vocês romperam as leis do silêncio e da indiferença. O Canadá inteiro deve aprender com vocês, seus problemas são os problemas do Canadá", repetiu Michaëlle Jean.

Para a governadora, jovem de seus cinquenta e poucos anos determinada e que se inicia no kickboxing em sua residência de Rideau Hall em Ottawa, os inuítes "devem retomar o controle de seu destino". Em Nunavik, zona setentrional da província do Quebec, Michaëlle Jean encorajou os representantes de cerca de 10 mil inuítes locais a acelerarem as negociações com o Sul a fim de ganhar em autonomia. Em toda a parte, ela enfatiza a educação como fator-chave do desenvolvimento: os menores de 15 anos representam quase metade da população das comunidades nórdicas. Uma vez que estas são agora dotadas de escolas primárias e secundárias, "Sua Excelência" defende a criação de uma "universidade do Ártico", à imagem da que ela visitou em Tromso, na Noruega. Menos da metade dos postos de funcionários do Nunavut são ocupados por inuítes, e um quarto dos postos estão vagos, por falta de candidatos. O governo conservador de Stephen Harper havia declarado que esse projeto de universidade setentrional não era prioritário. A "pequena rainha" - um apelido do qual ela não gosta - continuou a prometer que a voz do Norte seria ouvida no Sul e convidou os inuítes a contribuírem para o site que seu marido abriu na internet.

Sua escuta daqueles "sem voz" não se limita ao Canadá. Durante sua última viagem oficial à República Tcheca, ela se encontrou com os ciganos. Na França, no ano passado, ela organizou em Bordeaux, no bairro de Saint-Michel, uma sessão de depoimentos, na saída da qual o próprio prefeito Alain Juppé se declarou estupefato. Até o fim de seu mandato, daqui a um ano, ela ainda pode surpreender.

Tradução: Lana Lim

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