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23/06/2009

Para antropóloga, uso da burca seria perpetuar estereótipos do período colonial

Le Monde
Dounia Bouzar*
Lembremos que "religião" vem da palavra em latim "relegere" (recolher; reler) e "religare" (religar). O crente encontra forças em sua relação com Deus para ir até os outros e encontrar sentido para sua vida.

Em compensação, a palavra "seita" significa "seguir" e "separar". Historicamente, essa palavra designava a dissidência de um grupo religioso, mas hoje ela é empregada para designar qualquer "associação totalitária que solapa as liberdades individuais". "Seita" definitivamente assumiu um significado pejorativo em razão da intolerância manifestada por esses grupos, grandes ou pequenos, em relação ao mundo externo, e efeitos destruidores constatados na personalidade dos adeptos.

Manpreet Romana/AFP -5.out.2008 
Mulheres vestidas com a burca fazem compra em feira de Cabul, no Afeganistão

O que mais é preciso para proibir qualquer vestimenta que despersonalize um ser humano? A burca ou o nikab têm isso de bom, eles são claros - por assim dizer - a respeito do objetivo que buscam: trata-se de erguer uma fronteira instransponível entre aqueles que estão "dentro" e aqueles que estão "fora"... Trata-se de levar os adeptos à autoexclusão e à exclusão dos outros, todos aqueles que não são como eles...

Vale a pena iniciar um grande debate sobre tais evidências? Seria o caso se esses pequenos grupos se referissem não ao islamismo, mas ao cristianismo ou ao budismo? Pois é um fato: quando a religião muçulmana está em questão, perde-se a razão e não se aplica mais os critérios de raciocínio habituais. Não se sabe mais onde colocar o cursor: a partir de quando tal ou tal comportamento faz parte da liberdade de consciência e a partir de quando ele revela uma disfunção, ou até um radicalismo? Divididos entre o medo de impedir o laicismo e o de cair na "islamofobia", oscilamos entre a demonização e a permissividade. Aquela que usa um pequeno lenço rosa combinando com seu jeans passa por islamita, enquanto os integristas passam por muçulmanos...

Pois não nos enganamos: esses pequenos grupos que se dizem "salafistas" não se inserem na história muçulmana, eles são uma emanação moderna deste último século! Abrir um debate para limitar a liberdade religiosa equivaleria a considerá-los como uma corrente muçulmana e não como uma simples seita. Toda sua estratégia consiste justamente em fazer seus discursos totalitários passarem como se fossem simples mandamentos religiosos. Segundo esses gurus, para respeitar o Islã, a sociedade deve aceitá-los. O posicionamento contrário seria prova de islamofobia e de etnocentrismo.

Se um pequeno grupo tivesse a mesma atitude em nome de uma outra religião, há muito tempo a opinião pública teria diagnosticado seu comportamento como preocupante de um ponto de vista psíquico. Em nenhum momento se fechar em um pano preto poderia ter sido ligado à simples aplicação automática de uma religião.

Essa hesitação em distinguir entre o que faz parte do islamismo e o que faz parte da disfunção de uma pessoa parte, a princípio, de um bom sentimento: respeitar os muçulmanos que têm outras tradições. Mas olhando melhor, ela também é o produto de representações negativas. A permissividade e a demonizacao são as duas faces de uma mesma moeda: aceitar tudo "em nome do islamismo" equivale a ter uma consideração bem fraca por essa religião, que continua a ser vista como "a própria alteridade".

Em nome do "respeito pela diferença" aparece, então, uma nítida tendência a cair em uma espécie de "clausura na diferenciação absoluta", que permite entender qualquer disfunção como o produto dessa religião que "permaneceu arcaica", uma vez que "o mundo deles" não é como "o nosso mundo"... Essa religião continua a encarnar "um outro mundo".

Aceitar o pano preto não seria um sinal de respeito pelo islamismo; pelo contrário, seria perpetuar os estereótipos que datam do período colonial.


*Dounia Bouzar é antropóloga e pesquisadora visitante no Observatório de Fatos Religiosos

Tradução: Lana Lim

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