UOL Notícias Internacional
 

25/06/2009

O improvável Estado palestino de Binyamin Netanyahu

Le Monde
Michel Bôle-Richard Em Jerusalém
Avigdor Lieberman, o ministro israelense de Relações Exteriores, tem coragem. Ele declarou recentemente nos Estados Unidos, durante seu encontro com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que as colônias não são "um obstáculo" para a busca de paz e que é evidente que trata-se de "uma desculpa para aqueles que querem evitar as negociações", ou seja, os palestinos. Estes últimos de fato se recusam a retomar as negociações com o governo saído das urnas em 10 de fevereiro.

Os palestinos justificam essa recusa com duas razões. Eles exigem que o processo de colonização seja inteiramente suspenso, inclusive a continuidade das construções. Trata-se de não estabelecer sobre o terreno realizações irreversíveis que impeçam a criação de um Estado viável. A Autoridade Palestina também insiste no reconhecimento do princípio de "dois Estados para dois povos", sem que este seja acompanhado de uma bateria de condições como aquelas que foram anunciadas pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, durante seu discurso em 14 de junho.

"Protetorado"

Desde os acordos de Oslo de setembro de 1993, os palestinos negociam para promover sua causa. Tudo deveria ter sido resolvido em 1999, mas não foi o que aconteceu. Desde então, houve o "Mapa da Paz", em 2003, o plano de paz internacional para criar uma Palestina no fim de 2005. Novo fracasso. O processo de Annapolis de novembro de 2007, cujo iniciador, George Bush, havia prometido que permitiria realizar no fim de 2008 a concretização do sonho palestino, não foi mais frutífero.

Hoje, "Bibi" - apelido de Netanyahu - fez, segundo Nicolas Sarkozy, "um importante avanço" ao admitir sob pressão norte-americana, após décadas de recusa, a criação de um Estado palestino. Mas que Estado palestino?

Desmilitarizado, sem controle de suas fronteiras, de seu espaço aéreo nem de seus recursos, sem a liberdade de fazer alianças. O vale do Jordão permanecerá sob controle israelense. As forças de segurança manterão o direito de intervir à sua maneira neste futuro Estado, mas que terá sua bandeira, seu hino nacional e seu governo, prometeu Netanyahu. O que já acontece. Uma espécie de "protetorado", como classificou Yasser Abed Rabbo, colaborador próximo do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

Como se essas restrições não fossem suficientes, "Bibi" estabeleceu salvaguardas. Antes de qualquer coisa, os palestinos devem reconhecer Israel como Estado judeu. O reconhecimento pela OLP em 1993 da existência de Israel não basta. O 1,5 milhão de palestinos de Israel, ou seja, 20% da população, devem renunciar à sua especificidade e se dobrar à vontade "estatal-religiosa". Também nem se considera negociar sobre o direito ao retorno.

Não haverá reconhecimento de responsabilidade na expulsão e no desarraigamento de 760 mil palestinos em 1948, nem de indenização ou possibilidade de reintegração. Está totalmente fora de questão dividir Jerusalém, que continuará para sempre "a capital unida" de Israel. Quanto à colonização, é impossível parar de construir em zonas ocupadas, pois os colonos têm filhos e é necessário deixar lugar para eles. O espaço vital para responder ao crescimento natural não diz respeito aos palestinos.

As cartas nas mãos de Barack Obama
Para os palestinos, "já basta". Nem pensar recomeçar negociações eternas que não levam a nada, ainda mais quando as regras do jogo são fixadas de antemão. "Será preciso esperar mil anos para que os palestinos aceitem tais condições", ironizou Saeb Erakat, o principal negociador palestino. Ele caracterizou a situação com esta outra frase: "O processo de paz avançava a passos de tartaruga. Desta vez, Netanyahu colocou a tartaruga nas costas".

Ainda que Netanyahu diga que não se tratam de pré-condições, que ele está pronto para iniciar negociações de paz imediatamente, que seu governo é "sério em [seu] desejo de chegar a um acordo de paz", os palestinos não acreditam mais nele, e eles não são os únicos. "A carta das colônias contradiz a carta da paz", observou o escritor israelense David Grossman, convencido de que "não haverá paz se ela não nos for imposta".

As cartas estão nas mãos de Barack Obama. Tudo depende da pressão que será exercida sobre Israel para que a paz torne-se possível e a Palestina, uma realidade. No estado atual das coisas, é uma missão impossível na medida em que as condições impostas são inaceitáveis. Netanyahu pode até ter estendido a mão aos palestinos, oferecido o diálogo aos Estados árabes, mas ele nunca mencionou a iniciativa de paz adotada em março de 2002 pelos 22 Estados árabes prevendo uma normalização das relações com Israel em troca de um retorno às fronteiras de 1967 e de um regulamento "justo e reconhecido" para a questão dos refugiados. Ele ignorou Annapolis e o "Mapa da Paz".

Os palestinos não querem mais se sentar à mesa das negociações para simplesmente trocar gentilezas, como disse Abed Rabbo. Eles querem algo concreto. Barack Obama os entende. Resta persuadir os israelenses. O confronto ainda não começou.

Tradução: Lana Lim

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