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25/06/2009

Proibição de vestimenta islâmica faz muçulmanos pensarem em deixar a França

Le Monde
Stéphanie Le Bars
Faiza S. prefere não pensar nisso. Não pensar nesse dia em que, para poder viver na França, será preciso que ela tire o meio-véu negro que esconde do mundo exterior seu rosto redondo de trintona sorridente.

Esse pedaço de tecido, que ela ergue ou abaixa com um gesto rápido, dependendo das circunstâncias, só deixa aparecer seus olhos castanhos. Ele completa a vestimenta islâmica, o niqab que Faiza adotou pouco após sua chegada na França, nove anos atrás: um véu negro que cobre seus cabelos, sua testa, seu pescoço e ombros, que desce sobre uma saia longa e uma ampla túnica cor de ameixa. Meias pretas cobrem os pés e os tornozelos. Somente as mãos, decoradas com anéis, são visíveis. "Infelizmente, sempre fui alérgica a luvas", lamenta a marroquina que, enquanto fala de suas aulas de taekwondo, vai à escola buscar três de seus quatro filhos. Antes de passar pelo portão do estabelecimento, ela mostra seu rosto e, alternando "Bom dia" e "Salam", cumprimenta as outras mães e as professoras.
  • AFP

    Mulheres vestem o niqab, roupa proibida na França



Nesses conjuntos habitacionais de um subúrbio de Yvelines, o niqab de Faiza passa quase despercebido. Mulheres mais ou menos cobertas, homens de kamis (camisas longas, privilégio dos muçulmanos mais rígidos) se cruzam. Lá, assim como em outros lugares, as burcas, que ao contrário do niqab escondem o rosto inteiro, são mais raras. "Somente fora do subúrbio as pessoas me tratam, de longe, como Zorro ou um fantasma; senão, em geral, sou respeitada", jura Faiza. "E quando vejo uma criança perturbada com minha veste, levanto meu véu e lhe digo que sou uma mamãe como qualquer outra".

No 11º andar de um desses prédios, a jovem mulher me recebe em uma semi-escuridão. As cortinas vermelhas da sala são fechadas para evitar um cara a cara. Proteger-se do olhar dos homens e agradar a Deus: Faiza afirma ter feito desses dois princípios uma escolha de vida. Usar o niqab é a expressão mais radical e visível disso. "No Marrocos, quando eu usava a djellaba e o hidjab (o véu islâmico, que cobre somente os cabelos), me faltava alguma coisa. Viam minhas formas, o véu escorregava... Sou tímida, e os homens sempre tentam paquerar! No plano religioso, eu também buscava algo", afirma essa jovem de 33 anos, originária de uma família "não muito praticante".

Seu casamento com Karim, após um encontro arranjado por sua futura sogra e uma de suas tias, ancora o casal em uma prática rígida do islamismo. O jovem, nascido na França, entrou na religião após uma adolescência descolada. "Ele fumava, ia a casas noturnas, mas não tinha o coração tranquilo", explica Faiza, sob o olhar aprovador de Karim, em quem uma marca na testa indica a prática assídua da prece. Um encontro, uma conversa sobre a devoção e "uma prece de consulta a Alá" foram o suficiente aos dois noivos para selar sua união no Marrocos em 2000.

"Quando cheguei à França, pude ler livros comprados em livrarias ou no mercado de Trappes, e me decidi pelo niqab. Até minha mãe achou que era um pouco demais. Mas, desde que comecei a usá-lo, me sinto bem demais! Sou submissa a Deus e tenho orgulho disso. E não pense que sou submissa a meu marido! Sou eu que cuido dos documentos e das despesas!", repete Faiza que, junto com Karim, reivindica um "islamismo ortodoxo" ou salafista.

"Sei que alguns sábios dizem que o niqab não é obrigatório, mas outros dizem que é melhor se esconder", ela explica. "Nós temos uma prática pura da religião, que busca direto na fonte. Seguimos o que diz o Profeta- que a paz esteja com ele - e seus companheiros", explica Karim. Motorista de ônibus após uma experiência infeliz no ramo de alimentação halal [autorizada pelo islamismo], o jovem troca sua camisa e sua gravata de trabalho por um kamis quando ele chega em casa.

"Sem fazer mal a ninguém", o casal vive segundo seus preceitos, no ritmo das gestações de Faiza, para as quais, "como algumas cristãs", ela pediu que fosse acompanhada por outras mulheres. Os filhos são criados em francês: Karim garante não dominar o árabe suficientemente para falar em casa. Uma vez, a família passou um dia na Eurodisney, outro na Torre Eiffel e nos Bateaux-Mouches. Faiza tirou sua carta de motorista; com o niqab para as aulas teóricas, sem ele para as aulas práticas. Mas em julho de 2008 o equilíbrio que eles acreditavam ter encontrado entre sua prática religiosa e a vida na França balançou.

Os S. descobriram pela imprensa a recusa do Conselho de Estado em conceder à jovem a nacionalidade francesa. Por causa "de uma prática radical de sua religião" que a leva a "ter em sociedade um comportamento incompatível com os valores essenciais da comunidade francesa e especialmente com o princípio da igualdade dos sexos", a mãe de família teve recusado um pedido que ela fizera em 2004 "para ter a mesma nacionalidade que seus filhos e seu marido". "Fiquei doente com isso", garante Faiza. "Não entendemos. Tínhamos certeza que eu preenchia os requisitos: domínio da língua francesa, permanência no território, filhos e marido franceses...". E qual a diferença em relação às francesas "de origem" que usam o niqab?, eles se perguntam. Seu advogado, Ronald Sokol, fez uma petição em dezembro diante da Corte Europeia dos Direitos Humanos. De maneira quase inédita na Europa, esse caso contribuiu muito para abrir o debate sobre o uso do niqab e da burca na sociedade francesa.

Os S. continuam sem entender em quê o niqab é chocante ou oprime a mulher, e se indignam com a possibilidade de uma lei que proibiria seu uso. "Achávamos ter entendido que na França, país da liberdade e da igualdade, a diversidade de culturas era uma riqueza", argumenta Karim. "Também há coisas que nos chocam: os gays que vivem juntos abertamente, os casais que não se casam, as mulheres semi-nuas na rua...", ele diz irritado.

"Magoados", eles pensaram em fazer a hijra, a imigração para um país muçulmano, no caso a Arábia Saudita. "Lá, todo mundo é como nós, não seríamos oprimidos", se empolga Karim, que já foi três vezes à Meca. Mas o projeto terminou bruscamente, "complicado demais". Mesma desilusão no Marrocos. "Lá me consideram estrangeiro", explica o jovem.

Em uma parede da sala, um quadro reproduz a Kaaba, a pedra sagrada que os muçulmanos reverenciam em Meca. "Ainda é meu sonho ir para lá", suspira Faiza. "A Arábia Saudita é uma terra que ama os muçulmanos".

Enquanto espera, é lá que ela se aconselha quando a família tem uma dúvida sobre o lícito e o ilícito de sua prática religiosa. Um "sábio" saudita lhe responde pelo telefone. E é ele que ela procurará se um dia for preciso escolher entre o niqab e a França.

Tradução: Lana Lim

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