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26/06/2009

A selva dos mal-lavados no subúrbio de Calais

Le Monde
Catherine Simon Enviada especial a Calais
Elas são como todos em Calais: na dúvida, preferem se manter longe das violências que podem estourar, como dizem, durante a manifestação dos No Border ("sem fronteira") prevista para sábado (27). Elas tomam cuidado com deslizes. Cometeram erros. Elas perguntaram a Mariam, do Socorro Católico, se eles não poderiam excepcionalmente abrigá-las nas dependências da associação, enquanto as coisas se acalmavam.

Elas? Vindas da Eritreia (Chifre da África), querendo chegar ao Reino Unido, elas esperam há meses, como cerca de sessenta de seus compatriotas clandestinos, no "squat africano", apelido dado a um prédio deteriorado, cheio de lixo, situado a dois passos do canal, no bairro de Calais-Nord. "Fugimos de uma região em guerra, não é para fazer uma aqui!", explica uma delas, sentada diante de um copo de chá, em um dos cômodos do térreo para onde o Socorro Católico se mudou recentemente.

Para evitar excessos, "reforços policiais extraordinários" (cerca de 2 mil homens no total) serão mobilizados no sábado, fazendo da ex-capital da renda uma "cidade em estado de sítio", alertou o jornal "Nord Litoral". Hostil à manifestação, a prefeita da cidade, Natacha Bouchart (UMP), preferiu cancelar a Parada 1900 prevista para o mesmo dia nas ruas de Calais, a ver a população ir para lá "com medo", ela declarou ao jornal "La Voix du Nord". Claro, os manifestantes do movimento No Border não vão marchar na cidade. Partidários de uma contestação "radical" das fronteiras, como eles escrevem em seu site (Calaisnoborder.eu.org), eles juram que não "vêm a Calais para destruir tudo".

Nos subúrbios do norte de Calais, à beira da zona industrial das Dunas, entre os habitantes da "selva" - a maior favela de imigrantes do Nord-Pas-de-Calais, dominada pela comunidade patchun originária do Afeganistão - , as perguntas correm soltas. Aqui também questiona-se sobre a manifestação de sábado. Assim como sobre o fechamento da "selva", anunciado para o fim do ano. O ministro da Imigração, Eric Besson, em visita a Calais no fim de abril, se comprometeu publicamente a isso. Os imigrantes "se perguntam para onde eles irão", comenta Jacky Verghaegen, do Socorro Católico de Calais.

Por enquanto, nada foi destruído. No interior da "selva", ou seja, cerca de 80 "barracas", feitas de tábuas e de cobertas de plástico, os patchuns abriram uma mesquita (uma "tenda" estendida em uma área ao ar livre, sobre a areia cuidadosamente varrida), um ou dois restaurantes, sem esquecer três mercearias, "nossos mini-Lidl" [rede europeia de supermercados], brinca um jovem patchun. O todo lembra um campo de refugiados, sujo mas bem organizado, à imagem de milhares de outros vilarejos infelizes que as guerras, a miséria ou o tédio mortal dos países sem futuro multiplicam ao redor do mundo.

Na entrada da "selva", um ponto de água foi instalado em meados de maio por ordem da subprefeitura, ela mesma alertada pelas associações beneficentes. Ao redor do poste verde escuro dotado de uma torneira, alguns patchuns esperam, nesta sexta-feira de junho, com garrafas de plástico à mão. "Se lavar, é a primeira coisa que eles pedem. Por uma ducha, eles se dispõem a pular uma refeição", comenta Mariam.

Organizadora no Socorro Católico, Mariam Rachih se lembra dos violentos empurra-empurras que por muito tempo dominaram nas sessões de ducha organizadas pela associação.

A experiência durou pouco mais de dois anos. Na época, o Socorro Católico tinha sua sede na cidade, no bairro de Calais-Nord. Quatro boxes, "pré-fabricados, pois não tínhamos autorização de construir de forma permanente", eram regularmente utilizados pelos migrantes, que a associação levava de caminhonete "em grupos de oito". E depois, o número de migrantes aumentou. "Há um ano, eles eram entre 500 a 600. Hoje, eles são mais de 800, só na 'selva'- entre os quais 200 menores de idade", ressalta Jacky Verhaegen.

Teria a escalada de violências, que banharam de sangue o Afeganistão e o Paquistão durante esses últimos meses, sido a causa desse novo afluxo? A prefeita de Calais tem uma outra hipótese. "Desde a estreia do filme 'Welcome', houve um aumento de 200 a 300 emigrados na cidade", diz Bouchart. Isso significa que nas profundezas do interior do Afeganistão, vendo o filme de Philippe Lioret, uma multidão nova de jovens patchuns, tomados pelo entusiasmo, se pôs a caminho de Calais? "Não estou dizendo que foi o filme 'Welcome' que provocou esse aumento. Estou simplesmente observando a coincidência", explica a prefeita.

Em dezembro de 2008, o Socorro Católico de Calais decidiu interromper as sessões de ducha. "Os rapazes brigavam entre si para subir na caminhonete: estava ficando perigoso tanto para os imigrantes quanto para os voluntários", explica Jacky Verghaegen. O ponto de água instalado na primavera na entrada da "selva" evidentemente foi uma coisa boa. Mas não basta para enfrentar o desastre. A palavra não é forte demais: basta passar uma hora no posto de saúde do PASS (Permanences d'Accès aux Soins de Santé) para ter uma dimensão do problema. Esse antigo alojamento transformado em centro médico não fica longe da estação ferroviária SNCF. Hoje é o único lugar onde os imigrantes de Calais têm o direito de se lavarem. Ou seja, uma ducha para cerca de 1.000 pessoas.

Esse hospital público para necessitados, destinado às pessoas sem cobertura social, se tornou, segundo os imigrantes eritreus (que não os frequentam mais), a "casa dos afegãos". Antes os mais numerosos, os patchuns da "selva" agora são os principais pacientes.

Com a abertura do PASS, no fim de 2006, o número de consultas era de cerca de 15 por tarde. Hoje é de umas 30 - "com picos de 40", diz a enfermeira Céline Dallery. O pequeno banheiro é composto de um box e um lavabo. Quando abrimos a porta, nesta tarde de junho, há uma multidão. O box está ocupado, mas já há aglomerados ao redor seis ou sete imigrantes ainda vestidos esperando por sua vez. Alguns entraram pela janela: apesar de o sistema de ingressos instituído há pouco menos de um ano para canalizar o fluxo, é esse caminho que geralmente os candidatos usam até a higiene.

Que eles entrem pela porta ou pela janela, isso no fundo não tem muita importância. A sarna, doença contagiosa e endêmica dos "mal-lavados", invadiu o PASS. Ela agora representa "os três quartos das patologias" tratadas, ressalta a enfermeira que garante o funcionamento do hospital ao lado de um intérprete e de médicos temporários.

Essa epidemia de sarna é uma catástrofe: não só as outras doenças, como diabetes, asma, bronquite ou tuberculose, não podem mais ser tratadas - os pacientes, "fracos demais", não conseguem mais se apresentar - , como a própria sarna se tornou impossível de ser erradicada. "Enquanto não houver duchas o suficiente, enquanto as vestimentas e as roupas de cama continuarem contaminadas, enfim, enquanto o contexto não melhorar, nada do que fizermos vai adiantar", lamenta a jovem enfermeira. "Os imigrantes se viram obrigados a viver como animais, e ninguém se importa. Chamam a Sociedade Protetora dos Animais para um gato. Para eles, nada. Eles são tratados como ratos!", ela exclama, com um nó na garganta. A jovem informa continuamente, há semanas, a seus superiores sobre os riscos que tal situação causa. Sem resultado concreto até agora.
A prefeitura de Calais, que deu sinal vede para a criação neste verão de uma área de distribuição de refeições, não quer ceder em mais nada no resto. Tudo bem instalar duchas, mas não no centro da cidade. E está sobretudo "fora de questão", afirma Natacha Bouchart, "oferecer aos imigrantes as condições de um abrigo diurno". Então as discussões iniciadas com o Socorro Católico, disposto a construir duchas em suas novas dependências, estão por enquanto suspensas.

Em outros municípios da região, no entanto, chegou-se a alguns acordos. Assim, em Norrent-Fontes, perto de Béthune, onde cerca de 30 eritreus em situação irregular estão instalados, diversas prefeituras dos arredores aceitaram abrir as duchas de seus ginásios. Os imigrantes vão até lá, acompanhados por militantes de associações, duas vezes por semana, explica o prefeito Marc Boulnois (esquerda).

Mas Norrent-Fontes não é Calais onde, à beira do canal, neste início de verão, andam jovens eritreus. Eles olham a água verde escura. Um deles se afogou lá, às margens do Meuse, no sábado, 13 de junho. Aos 35 anos de idade, ele se chamava Aman e queria se lavar. Levado pela corrente ou preso pelo lodo, não se sabe, ele não voltou. A associação Salam fez um pedido de contribuições para o repatriamento do corpo. É a primeira morte do verão.

Tradução: Lana Lim

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