UOL Notícias Internacional
 

26/06/2009

Twitter, a crise iraniana e as mobilizações sociais

Le Monde
Yves Mamou
Nem todas as multidões se parecem. Assim, nos mundos muçulmanos, as revoltas contra as caricaturas dinamarquesas de Maomé deram lugar ao que Howard Rheingold chamou de "multidões inteligentes". Em Teerã, elas contestam os resultados da eleição presidencial.

O conceito de "smart mob" foi desenvolvido no início dos anos 2000 por esse professor da Universidade Stanford, em "Smart Mobs - The Next Social Revolution" ["Multidões Inteligentes - A Próxima Revolução Social"]. Ele mostrava, desde 2002, como as novas tecnologias permitiam o surgimento de comunidades de interesses pontuais capazes de influenciar o curso da História, com H maiúsculo.

Mir Hussein Mousavi, que conquistou seu eleitorado nas grandes cidades por uma utilização em massa do Facebook, além das reuniões e dos encontros de rua, vê hoje seus partidários organizarem manifestações com a ajuda do Twitter, um comunicador instantâneo inventado na Califórnia e lançado três anos atrás.

Evidentemente, as novas tecnologias modificam as relações de força entre o Estado e os cidadãos. Há cerca de 15 anos, os sites da internet e os blogs dão a todos um poder informativo que por muito tempo foi privilégio dos grandes grupos de comunicação ou de monopólios do Estado. Hoje todos podem criar uma mídia na internet sem ter de investir centenas de milhões de euros. Há cinco ou seis anos, novas ferramentas, como o Facebook ou o Twitter, dão a todos o meio de informar em tempo real a seus amigos - ou ao mundo - sobre a marca de cereais consumidos de manhã ou sobre a necessidade de se encontrar às 14 horas para derrubar o governo.

No início de 2001, nas Filipinas, milhões de SMS contribuíram para a organização de manifestações gigantescas que culminaram na queda do presidente Estrada. Na Coreia do Sul, em 2004, a mobilização de cidadãos através da internet e do site de notícias OhmyNews permitiu a eleição do presidente Roh. Na Colômbia, em fevereiro de 2008, a divulgação no Facebook de vídeos de reféns acorrentados provocou fúria contra as Forças Armadas Revolucionárias (Farc), levando a uma manifestação espontânea de mais de um milhão de pessoas em Bogotá. Nos Estados Unidos, não foi nenhum milagre a Internet, o Facebook e os SMS terem contribuído para a eleição à presidência de Barack Obama.

A crise de regime que o Irã vive está sendo exposta graças ao Twitter. Esse comunicador permite que qualquer um, a partir de um computador ou de um telefone celular, organize manifestações para exigir novas eleições. A importância diplomática dessa ferramenta foi revelada, em 15 de junho, quando um conselheiro de Obama pediu que o Twitter adiasse uma operação de manutenção para que os iranianos não fossem privados da única ferramenta de comunicação que o regime dos mulás [líderes religiosos islâmicos] parece incapaz de cortar.

O Twitter e o YouTube mostram que a censura total se tornou impossível em qualquer sociedade cujos cidadãos possuam ferramentas de comunicação individuais. Os pesquisadores e sociólogos Dominique Cardon, Maxime Crepel, Bertil Hatt, Nicolas Pissard e Christophe Prieur, em um estudo intitulado "A força das cooperações frágeis", acreditam que essas novas ferramentas atraem, nas sociedades democráticas, pessoas que procuram se destacar. Esses individualistas se encontram fora de espaços sociais já balizados, em uma zona virtual onde eles se relacionam antes de se separarem para travar outras cooperações com outros indivíduos. Torna-se "amigo" no Facebook sem que todos os valores de amizade no sentido tradicional do termo estejam presentes.

Essas "cooperações frágeis" podem ser consideradas subversivas nas sociedades opressivas. Na Indonésia, religiosos muçulmanos exigiram, no fim de maio, a proibição do Facebook, uma plataforma que incita os homens e as mulheres a entrar em contato e a flertar fora do casamento. Na Jordânia e na Arábia Saudita, o Facebook permite que os homossexuais - reprimidos - se encontrem e discutam em fóruns, que os Irmãos Muçulmanos se acostumaram a vilipendiar. Na Síria, uma sociedade virtual independente do poder político ou religioso começou a se organizar através do Facebook.

A subversão não nasce da ferramenta, mas da maneira como esta favorece o aparecimento do indivíduo. A possibilidade dada a cada um de encontrar outros fora da mesquita ou da família perturba a ordem estabelecida. As "cooperações frágeis" são um aprendizado da tolerância. Ao permitir às pessoas que se exponham publicamente, essas ferramentas "propõem uma articulação original entre o individualismo e a solidariedade. Elas favorecem uma dinâmica de bem comum a partir de princípios de interesse pessoal", escrevem os pesquisadores do estudo citado.

No Irã, a juventude privilegiada das cidades mostrou gostar dessas ferramentas geralmente usadas sem o conhecimento dos mulás. "Com a adoção do hábito de falarem de si mesmos, surgiu a possibilidade de se reunirem. Essa agregação facilita a ação", analisa Dominique Cardon, pesquisador da Orange Labs. O culto de si mesmo pode parecer fútil e irritante, mas é o mais pacífico de todos.

Tradução: Lana Lim

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