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27/06/2009

"Deveria haver 'táxis-rosa' no mundo inteiro", diz mulher que criou serviço especial para mulheres

Le Monde
Entrevista concedida a Josyane Savigneau
Em março, Nawal Yaghi Fakhry criou em Beirute uma empresa de táxis dirigidos por mulheres e reservados a uma clientela feminina. Eles funcionam 24 horas por dia, todos os dias, devem ser chamados por telefone e são um pouco mais caros que alguns outros táxis - em Beirute, não há preços fixos para as corridas de táxi. Ela iniciou sua empreitada com três veículos, mas diante do sucesso, ela adquiriu mais 25 em algumas semanas. Sua iniciativa lhe rede visitas de mídias do mundo inteiro e de várias fontes na Internet, onde se pode consultar seu site (Banettaxi.com). Em uma manhã de junho, em seu escritório de um bairro chique da cidade, ela recebia a televisão canadense e o "Le Monde". Esses táxis também são tema de controvérsia em um mundo onde, cada vez mais, tende-se separar novamente homens e mulheres.

Taxi rosa

  • Reprodução

    Site da empresa Banet Taxi mostra seus veículos

Le Monde: Por que táxis reservados às mulheres em Beirute, onde a maioria delas pode circular livremente? Isso não é aceitar, ou até incentivar discriminações que foram combatidas por anos e voltam agora com força?
Nawal Yaghi Fakhry:
Sempre me fazem essa pergunta, porque se enganam quanto ao que motivou a criação de minha empresa, e porque ela se encontra em um país do Oriente Médio. Mas minha iniciativa não tem nada de discriminatório. Não criei esses táxis para mulheres cujos maridos as impedem de sair, de tomar táxis que normalmente são dirigidos por homens. Esses que me criticam não tentam entender minha iniciativa. Além disso, no Líbano sempre há pessoas que são negativas logo de início.

Le Monde: Mas essas mulheres, que usam véu e saem pouco, não são a maioria de sua clientela?
Fakhry:
De forma alguma. Algumas tomam meus táxis, é claro, e se isso lhes permite que se movimentem mais livremente, ótimo, mas meu objetivo não era oferecer prioritariamente uma solução a essas mulheres, ajudá-las a saírem de casa. Para mim, trata-se de algo completamente diferente.

Para que me entendam, devo contar um pouco da minha história. Eu trabalhava aqui em um banco, e saí de lá para abrir minha própria empresa, um instituto de beleza. Eu queria utilizar produtos naturais, e sabia que os encontraria na Tailândia. Então fui para lá por quinze dias, e tive a ajuda de um guia. Mas, para tudo que eu pedia, o guia, assim como os motoristas de táxi, chamavam suas mulheres, suas namoradas, suas irmãs, para me ajudar. Eles basicamente conheciam os lugares aonde se costumam levar turistas, ou os grandes supermercados. No último dia, o guia me enviou uma de suas amigas junto com seu carro. Eu trabalhei melhor naquele dia do que em toda minha estadia. Foi lá que me veio a ideia dos táxis de mulheres para mulheres, que saberiam imediatamente guiá-las em suas compras. Além disso, na Tailândia, havia táxis de todas as cores, e os cor-de-rosa me seduziram. Tirei foto deles e comecei a sonhar com tudo isso, e passei para a realização do meu projeto. Quando voltei, paralelamente a meu instituto de beleza, criei minha companhia de táxis. Para recrutar motoristas mulheres, coloquei um anúncio, dizendo simplesmente que era preciso ter pelo menos 30 anos e gostar de dirigir. Eu não disse logo de início que era preciso conhecer bem a cidade, e que seria preciso em seguida realizar uma prova para obter uma licença de motorista de táxi. As candidaturas vieram aos montes, e continuam vindo. Também contrato estagiárias para iniciarem sua formação.

Le Monde: O cor-de-rosa é a cor tradicional das meninas. Não é muito convencional?
Fakhry:
Talvez, mas é verdade que é um sinal de identificação clara. Acho que mesmo que eu não os tivesse chamado de "Banet Taxis", ou "táxis de garotas", eles teriam sido batizados assim por causa da cor. E por acaso eu adoro o rosa e as rosas. Todas as motoristas usam uma. Além disso, dessa forma nossos táxis se distinguem de todos os outros. E nenhum carro pode ser pintado naquele tom de rosa, é uma cor que foi feita especialmente para meus táxis.

Le Monde: Os homens estão totalmente excluídos?
Fakhry:
Não se estiverem com uma mulher. Mas sozinhos, sim. Com algumas exceções. Recentemente, uma mulher nos pediu par cuidar de seu pai, idoso e frágil, que tinha medo de andar de táxi. Medo de ser sacudido, jogado de um lado para outro. Conosco, ele se sentia mais seguro, com mulheres que dirigem de forma mais delicada. Nós aceitamos.

Le Monde: A Banet Taxis não é uma empresa de serviços personalizados, mais do que uma companhia de táxis propriamente dita?
Fakhry:
É exatamente isso, e acho que esse serviço especializado responde a necessidades. Tudo é feito com as melhores normas de segurança. Tanto para as clientes como para as motoristas. Nós pedimos informações para as pessoas que ligam, endereço, telefone, etc. As condutoras todas têm pelo menos 30 anos, são pessoas responsáveis, em plena maturidade. A condição que imponho é que elas dirijam com calma, respeitando as regras, a sinalização, os semáforos.

Le Monde: Em Beirute, elas devem ser as únicas; isso não deve facilitar a rapidez, e deve lhes render boas buzinadas vingativas.
Fakhry:
Sem dúvida, mas com elas sabe-se que se está em segurança. É por isso que temos diversos pedidos de mulheres para que cuidemos de seus filhos. Que criança de 10 anos poderia pegar sozinha um outro táxi?

Le Monde: Vocês aceitam somente as meninas?
Fakhry:
É claro que não. Todas as crianças. Nós as levamos à escola, ao clube, à casa de seus amigos. Cada vez mais, pedem os táxis para esse ou aquele evento em especial. Um aniversário, por exemplo. Trata-se de levar as crianças até o local da festa. Ou de levar o aniversariante. Então decoramos os táxis, com bandeirolas "happy birthday", balões, etc. É muito alegre. Recentemente, tivemos muitos pedidos para primeiras comunhões. Tomamos conta do comungante, em um carro também decorado para a ocasião. É uma maneira relativamente barata de se oferecer um momento realmente festivo.

Le Monde: Vocês tiveram um crescimento muito rápido.
Fakhry:
Inaugurei a empresa em 10 de março, e desde a manhã do dia 11 os telefonemas só aumentaram. Eu ainda não havia feito nenhuma propaganda, mas havia aparecido nas mídias do país. Quis começar de forma modesta, para testar o mercado. Era uma empresa nova, uma ideia original e não sabia como seria recebida. O resultado superou todas minhas previsões e expectativas. Agora, com meus três Peugeot 206 e minhas doze motoristas, não consigo mais atender à demanda. Então vou ter mais 25 carros, de todas as marcas, desta vez, veículos maiores, como Mercedes e vans para levar várias pessoas ao aeroporto. E, se for preciso, comprarei outros.

Le Monde: E em outros países?
Fakhry:
Tenho muitos contatos, mas não sou eu necessariamente que vou desenvolver o conceito lá fora. Quando ele se estabelecer em outros países que não os árabes, entenderão melhor do que se trata. É uma ideia que não tem nada a ver com nenhuma particularidade de nenhuma sociedade. Deveria haver táxis cor-de-rosa no mundo inteiro. Eles atendem a uma necessidade que não é satisfeita em nenhum lugar por outros táxis. Em termos de segurança, de cuidado, de acompanhamento. Não só porque eles são rosa e dirigidos por mulheres. Mas porque eles oferecem serviços que não existiam antes que eu colocasse minha ideia em prática.

Tradução: Lana Lim

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