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27/06/2009

Na Argentina, o casal Kirchner faz das eleições legislativas um plebiscito

Le Monde
Christine Legrand Em Buenos Aires (Argentina)
Com seus cabelos loiros e os sóbrios tailleurs queridos da lendária Evita Perón, a atriz argentina Nacha Guevara percorre os subúrbios de Buenos Aires tentando reavivar o mito da "ardente militante dos pobres". A campanha visando as eleições legislativas do domingo (28) - para o renovamento de metade da Câmara dos Deputados e de um terço do Senado - se anuncia acirrada e oferece candidatos inesperados.

O casal "K"

  • AP

    Néstor Kirchner, ex-presidente da Argentina, faz campanha para eleição legislativa deste domingo, em frente a um telão onde aparece sua esposa e atual chefe do governo argentino, Cristina Kirchner

A começar pelo marido da presidente Cristina Kirchner, o ex-presidente Néstor Kirchner, líder do partido peronista, que encabeça a lista de candidatos a deputado da Frente para a Vitória na província de Buenos Aires. Esse distrito é decisivo, pois reúne cerca de 40% dos eleitores.

O casal presidencial encara essa eleição como um plebiscito de sua gestão. "Somos nós ou o caos", disse Kirchner, brandindo o fantasma de uma volta à crise econômica de 2001. "Ou nós ganhamos, ou ninguém cuidará mais dos pobres", reforçou a presidente.

Os Kirchner apelaram à popularidade da atriz Nacha Guevara, que figura em terceiro lugar na lista do partido peronista, atrás do poderoso governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli. Aos 68 anos de idade, mas aparentando vinte a menos graças à cirurgia plástica, ela interpretou durante um ano e meio Eva Perón, o ícone do peronismo, em uma comédia musical que teve grande sucesso na capital.

Será que a imagem da atriz pode se confundir com a de Evita? Os vários adeptos da psicanálise na Argentina evocam com humor um "processo de transferência". Nacha Guevara, que viveu em exílio na Espanha durante a ditadura militar, admite nunca ter sido peronista. Ela se define como uma "rebelde", conquistada pelo casal presidencial.

Tudo parece acontecer dentro do peronismo. O principal adversário de Kirchner é um peronista dissidente, Francisco de Narváez. Miliardário nascido na Colômbia e naturalizado argentino, ele tem no pescoço uma tatuagem de uma serpente, correspondente ao seu signo no horóscopo chinês. Ele poderá ser convocado pela Justiça por possíveis ligações com um traficante de drogas.

O poder minguante da presidente Kirchner

Com as eleições para o Congresso marcadas para domingo (28), os argentinos vão mostrar o que pensam da administração da crise pelo governo neste final de semana. A presidente Cristina Kirchner vem fazendo campanha com estatísticas manipuladas, mas, com a economia afundando, é improvável que os eleitores sejam enganados

Narváez afirma ser vítima "de uma guerra suja" diante da incerteza dos resultados na província de Buenos Aires, fortaleza dos peronistas, onde as pesquisas lhe colocam lado a lado com Kirchner. Seu cavalo de batalha é a luta contra a violência, a principal preocupação dos argentinos, segundo pesquisas. Para conseguir seus objetivos, ele formou uma aliança heterogênea com Felipe Solá, ex-governador peronista da província de Buenos Aires, opositor dos Kirchner, e Mauricio Macri, o prefeito de direita da capital.

O poder dos Kirchner, que atualmente dispõem da maioria no Congresso, está ameaçado na capital, tradicionalmente antiperonista, mas também em diversas províncias, onde a popularidade de Cristina Kirchner foi afetada pelo longo conflito com o mundo rural, em 2008.

A principal força de oposição é representada por uma aliança de centro-esquerda - Acordo Cívico e Social - entre Elisa Carrió, rival derrotada de Kirchner nas eleições presidenciais de 2007, e o antigo Partido Radical.

Dados sobre a eleição

Voto: Vinte e oito milhões de eleitores (entre 40 milhões de argentinos) devem renovar a metade da Câmara dos Deputados (257 assentos) e um terço do Senado (72 assentos)

Maioria atual: A presidente peronista, Cristina Kirchner, eleita em 2007, e seu marido, Néstor Kirchner, chefe do Estado entre 2003 e 2007, até agora dispuseram de uma maioria absoluta, pelo Frente para a Vitória

Crise: Após sete anos de crescimento, a economia argentina entrou em recessão. Segundo os números do Instituto Nacional de Estatísticas e Recenseamento, o índice de inflação é de 7%, no lugar dos 21% registrados por fontes independentes

Pobreza: Entre 12 e 14 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo a oposição e estudos independentes. O governo fala em 6 milhões de pobres

Na província agrícola de Santa Fé, o ex-corredor de Fórmula 1 Carlos Reutemann, peronista crítico dos Kirchner, está mais bem posicionado do que o candidato oficial. Santa Fé é a única província governada por um socialista, Hermes Binner.

À esquerda, os cientistas políticos falam no "fenômeno Pino" e preveem uma boa eleição para o cineasta Fernando "Pino" Solanas, candidato a deputado na capital. Ele aparece, nas pesquisas, atrás da oposição de direita, mas à frente do candidato oficial, o banqueiro Carlos Heller.

"Pino" seduz os jovens da classe média, cansados dos políticos tradicionais. Com a câmera em punho, o cineasta faz uma campanha diferente, filmando nas favelas, hospitais e escolas em ruínas, para provar a dívida social do prefeito de Buenos Aires. Peronista, ele também ataca os Kirchner, acusando-os de vender as riquezas naturais do país a multinacionais - as minas e o petróleo, principalmente.

Uma das características da eleição é o grande número de candidatos bizarros: governadores, deputados e prefeitos já em função, que deverão renunciar a seus mandatos caso sejam eleitos. Essa estratégia dos Kirchner foi denunciada pela oposição e por advogados constitucionalistas.

O principal exemplo é o de Sciolo: se ele for eleito deputado, é pouco provável que ele renuncie a seu cargo de governador. Os argentinos parecem perplexos diante de uma campanha eleitoral sem grande debate.

Tradução: Lana Lim

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