UOL Notícias Internacional
 

30/06/2009

Quando o oásis no Marrocos volta a verdejar

Le Monde
Gaëlle Dupont
Enviada especial a Asrir (Marrocos)
É preciso tempo, muito tempo, para chegar ao oásis de Asrir, às portas do Saara, 800 km ao sul da capital do Marrocos, Rabat. É preciso rodar, pegar o avião, e rodar ainda mais, em estradas cada vez mais precárias. Mas no fim da viagem, dizem que o paraíso nos espera. "O oásis é o início do paraíso quando se chega do deserto, ao sul, e o fim do paraíso quando se vem das zonas irrigadas, ao norte", diz às risadas Mbarak Nafaoui, o prefeito de Asrir. Para além, não há mais água ou árvores; nada além de vento e pedras.

Uma joia de verdor emerge da palidez do deserto. A vista é de fato idílica. Mas a realidade é muito menos. O palmeiral é invadido pela areia. As palmeiras abandonadas sufocam sob os galhos mortos. Casas de taipa, abandonadas por seus habitantes, se desintegram. Asrir pode estar com seus dias contados. "O problema é a água", explica um agricultor, Lahcen Taharo, enquanto cuida de seus terrenos. "Tenho 40 anos, e vi o nível de água baixar pela metade. Se continuar assim, o oásis vai morrer. E nós, junto com ele".

Lahcen Taharo só consegue irrigar metade de suas terras. As que sobrevivem são jardins magníficos, modelos da agricultura de oásis "em três estratos", como dizem os agrônomos. No alto, o arco sombrio das tamareiras conserva a umidade. Abaixo, pés de romã e figo crescem, e no chão, cereais e alfafa. Tudo é irrigado por uma água extraída do subsolo, encaminhada por canais.

É esse sistema, elaborado centenas de anos trás pelos mestres da hidráulica árabe, que permitiu que a vida eclodisse e prosperasse nesse ambiente hostil. Vestígios de sítios fortificados e mesquitas são provas da época gloriosa do comércio transsaariano.

Cem mil pessoas viviam na Asrir do século 11. Hoje, 4 mil habitantes tentam sobreviver com as palmeiras. O número continua a cair. "Sem água, não podemos ficar aqui", diz Taharo, mostrando suas terras entregues ao deserto. Asrir não é um caso isolado: todos os oásis do Magreb estão ameaçados. "A situação é muito, muito preocupante", suspira Mohamed Houmymid. Há três anos que esse homem rotundo e afável percorre a região. Encarregado do programa de proteção dos oásis do Sul marroquino, ele conhece todos seus mínimos recantos, e todas suas dificuldades. A começar pela água, cada vez mais rara. Os lençóis subterrâneos, superexplorados, se esgotam, os sistemas de irrigação estão em ruínas. "A situação começou a se degradar cerca de 20 anos atrás", ele observa. "E ela se agravará ainda mais no futuro por causa do aquecimento global". A África do Norte sofrerá uma diminuição das chuvas, e secas cada vez mais longas e numerosas.

Isso não é tudo. Os oásis são atingidos por uma doença causada por um fungo que ataca a árvore pela raiz e a mata. Em um século, o Marrocos perdeu metade de seu patrimônio. As terras sofrem erosão. No deserto, a água é rara, mas quando a chuva cai, ela é diluviana e carrega tudo em sua passagem. A fragmentação das terras divididas pelas heranças agrava ainda mais as coisas. No decorrer das sucessões, muitos camponeses se veem donos de quadradinhos de terras, pequenos demais para sustentarem uma família.

Os habitantes só pensam em partir. "O modelo de vida nos oásis está ultrapassado", constata Nafaoui, o prefeito de Asrir. "As pessoas perdem a esperança, sonham com outras coisas, com a Europa. Elas emigram para as grandes cidades ou para o exterior". "Estamos perdendo algo que faz parte de nosso patrimônio", constata Ahmed Hajji, o diretor da Agência do Sul, uma administração encarregada de desenvolver essas províncias. "No entanto há uma grande riqueza cultural, histórica, agrícola, paisagística nesses lugares". Os oásis formam também "o último baluarte contra o deserto".

As autoridades marroquinas tentam, tardiamente, reverter essa tendência. O programa de proteção dos oásis do Sul, lançado pelo governo, recebeu US$ 18 milhões (R$ 35 milhões) em cinco anos, financiados pelo Estado, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e pelas comunidades locais. Ele foi lançado em 2006. A barragem de Fam El Hisn, a 100 km de Asrir, foi construída graças a esse dinheiro, em 2008. Não é uma grande obra-de-arte como gostam os marroquinos, mas uma pequena reserva, que permite realimentar o lençol subterrâneo. Simples, mas eficaz: nos canais do oásis, a água corre abundante. "Fazia tempo que não se via isso!", sorri o prefeito, Mohamed Oudor, mergulhando a mão.

Mohamed Oudali, um agricultor de 35 anos, viveu os anos difíceis da seca. Ao contrário de muitos outros de sua idade, ele não foi embora. "Eu não saberia fazer outra coisa além de ser agricultor", ele justifica. "A vida no oásis é minha razão de ser. Nossos ancestrais viveram aqui, não na França, na América ou em outro lugar". Com a barragem, "as coisas estão mudando", observa o jovem. "As pessoas estão voltando. Elas voltaram a ter confiança". O palmeiral de repente volta a verdejar. Mohamed Oudali se diz pronto para logo passar à irrigação gota a gota, que permite economizar 50% de água em relação ao sistema tradicional, "para proteger o lençol d'água".

Ao se apoiar nos políticos locais, Houmymid e sua equipe exploram todas as possibilidades para tirar o oásis do declínio: ecoturismo, criação de raças locais, instalação de gota a gota nos terrenos, reabilitação dos sistemas de irrigação, construção de moinhos coletivos, criação de cooperativas de acondicionamento de tâmaras, reabilitação do patrimônio arquitetônico, apoio ao artesanato local, operações de limpeza... "As soluções técnicas, nós temos. O dinheiro, se arruma", comenta Houmymid. "O mais difícil é mudar as mentalidades, convencer que se pode viver nessa terra. Mas é imprescindível. Se não houver interesse nas necessidades da população, nada dará certo. As pessoas têm outras prioridades na vida que não a luta contra a desertificação".

A paciência é indispensável. "No início, as pessoas queriam que lhes déssemos tratores", conta Bouchra Hassoune, uma das organizadoras do programa. Ou, ainda melhor, um emprego na administração. Mas alguns entram no jogo. Depois de ter resistido bravamente, o agricultor de Asrir, Lahcen Taharo, abriu uma pensão, raridade nessa região ainda pouco frequentada. "O turismo nos proporciona uma vida melhor", ele diz hoje. Melhor do que ir viver na Europa, é convencer os europeus a virem para cá!" "O turismo é uma saída interessante", completa Houmymid. "Mas é preciso tratá-lo com precaução, permanecer em uma pequena escala. As massas causam danos".

A outra tábua de salvação é a agricultura. Ainda em Asrir, a cooperativa Waha transforma o cacto em ouro: geleia, óleo, ração de gado. Seus dez membros têm entre 20 e 30 anos, e todos eles investiram um pouco de seu dinheiro. As meninas, sobretudo, estão empolgadas. "Antes, eu não fazia nada, ficava em casa", conta Saadia Moutik, 26, cujos oito irmãos e irmãs deixaram o oásis. "A cooperativa é a oportunidade de ter um salário. Nossos pais faziam uma agricultura tradicional. Eu quero ficar aqui, mas não fazendo a mesma coisa, quero coisa melhor".

Pequenas maravilhas são realizadas. Em Assa, uma parte do palmeiral, abandonada, havia sido transformada em depósito de lixo. Associações locais de agricultores removeram o lixo dela. Barreiras de palmeiras foram erguidas para frear o avanço da areia. E 17.500 palmeiras foram "limpas", ou seja, tiveram seus galhos mortos removidos. "Assim que elas veem resultados diretos e imediatos, e são instruídas, as pessoas se interessam pela sobrevivência do oásis", comenta Mahfou el-Assaoui, instrutor em Assa, filho de agricultor, e diretor de uma associação local. "É sua civilização".

Após ter sofrido o ceticismo geral, Houmymid não consegue mais dar um passo sem receber algum pedido. Mas ele não canta vitória. É preciso ter discernimento. "Contamos muito com as mulheres, elas sabem o que querem, elas administram com parcimônia", ele explica. "Há menos ziguezagues do que com os homens". E além disso, "tudo isso deve durar depois de nós", ele acrescenta.

Cerca de doze comunidades (cada uma reúne diversos oásis) se beneficiam desse apoio. É muito pouco, em relação ao país. Do Grande Sul a Figuig, no leste do país, o Marrocos tem mais de cem comunidades de oásis, cada uma reunindo diversos palmerais. "Evidentemente, se olhamos o quadro geral, há muito com o que se preocupar", reconhece Houmymid. "Mas nossa experiência é extrapolável. Conseguimos mobilizar as pessoas em um tempo recorde. Não é fácil, é verdade, as ameaças são grandes, mas acho que podemos salvar os oásis, acho mesmo".

Tradução: Lana Lim

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