UOL Notícias Internacional
 

30/06/2009

Traficantes sul-americanos ditam a lei na Guiné-Bissau

Le Monde
Jean-Philippe Rémy
Enviado especial a Bissau
No meio da noite, o bar sem nome no porto de Bissau parece ser a única luz na escuridão de uma cidade sem iluminação pública. Sob a fraca lâmpada aparece uma magra parcela do tráfico de drogas em escala industrial que se desenvolveu na Guiné-Bissau, país da África Ocidental assolado pela pobreza, por uma guerra civil (1998-1999) e por uma cultura nacional do assassinato político.

Sentado em uma mesa, o homem está nervoso. Carlos (vamos chamá-lo assim) tem a ponta do nariz queimada pelo consumo de crack (derivado de cocaína) fumado em pequenos cachimbos. A chama do isqueiro o deixou em carne viva. Carlos prefere dizer que foi ferido por uma dentada furiosa de sua namorada.

Nosso camarada se remexe em seu uniforme manchado. Ele derruba sua cerveja, levanta os braços para cima, perde a paciência. Essa noite, ele espera pela tripulação de um cargueiro italiano que ele diz ter ajudado a descarregar cocaína discretamente. Agora, o capitão deve "recompensá-lo" em espécie. Para concluir a transação, ele os seguirá nos bares do centro, onde estão sentados homens calados, de óculos escuros, com seus 4 x 4 estacionados por perto, e que riem às gargalhadas quando lhes perguntam o que eles fazem da vida.

ELEIÇÕES NA GUINÉ-BISSAU

Em um clima tenso pelas violências políticas (duplo assassinato, em março, do chefe do Estado Nino Vieira e do chefe do Exército Tagmé Na Wai) e pelos temores de abusos, os eleitores da Guiné-Bissau foram às urnas em pequeno número, no domingo (28), para elegerem seu novo presidente. Onze candidatos permaneciam na competição, após o último assassinato, antes da votação, de um deles, o ex-ministro da Defesa, e a retirada de um segundo, para salvar sua própria vida. Em um país de 1,5 milhão de habitantes onde os traficantes de drogas sul-americanos teceram laços sólidos com os diferentes clãs políticos e militares, a votação se deu com tranquilidade. Os resultados são esperados para os próximos dias.
Ali ficam somente os pequenos padrinhos locais da redistribuição local de cocaína, especialmente nigerianos. Para o grosso do tráfico, é preciso percorrer os bairros periféricos, fuçar perto dos casarões onde os chefões sul-americanos e seus homens administram as chegadas e partidas de toneladas de cocaína, enquanto evitam aparecer.

Rede global e consumo local, altos lucros e riscos de explosão política, é esse o resumo em linhas gerais do impacto da transformação brutal de um pequeno país perdido na plataforma de reexportação da cocaína sul-americana para a Europa. O problema é regional, do tamanho da África Ocidental. Desde 2005, "pelo menos 46 toneladas" de cocaína transitaram na Guiné-Bissau e nos países vizinhos, observa o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, sigla em inglês). O valor dessa cocaína em trânsito? Quase US$ 2 bilhões (R$ 3,86 bilhões) por ano. O suficiente para virar cabeças na Guiné, no Gana, em Serra Leoa ou nos países vizinhos, cabeças de ponte da rede. O volume do tráfico cresce, as apreensões se espaçam, o sistema político se deixa gangrenar pelos dólares do narcotráfico: a cocaína promete futuros violentos na África Ocidental.

A Guiné-Bissau é a primeira a ser atingida. Os assassinatos políticos ligados a disputas entre grupos militares e políticos rivais se multiplicam. Alguns dirigentes guineenses teriam constituído milícias com o dinheiro dos traficantes, na espera pelo resultado da eleição presidencial deste domingo (28). "É um país muito frágil", suspira Franco Nulli, representante da Comissão Europeia no país, antes de revirar os olhos com a primeira pergunta sobre as drogas e te dispensar.

A Guiné-Bissau ainda não se transformou em narco-Estado. Os cartéis não se entregam a acertos de contas sangrentos nas ruas adormecidas do centro da cidade, uma vez que seus chefes se preocupam mais com discrição do que com rivalidades suicidas.

Mas o consumo local de drogas já dispara. Os grupos da região envolvidos no tráfico (especialmente nigerianos e mauritanos), muitas vezes pagos em cocaína, disparam ou esfaqueiam sem pensar duas vezes. E apesar do auxílio do UNODC ao aparelho judiciário, os traficantes vivem na impunidade, uma vez que a política local já está sob influência dos traficantes de drogas.

Antonio Mazitelli, representante regional da UNODC, constata: "Os cartéis utilizam o país como base logística enquanto se aproveitam da existência de grupos rivais no seio do poder. Por enquanto, o maior perigo é a competição entre os grupos locais que administram a dimensão local do tráfico". Pois a competição entre pequenas redes de "mulas" já provoca mortes.

Luis Vaz Martins, advogado e presidente da Liga Guineense de Defesa dos Direitos Humanos, tenta investigar o assunto: "A cocaína mata, sobretudo quando um grupo detém uma certa quantidade de drogas que deve entregar para manter a pressão sobre aqueles que devem pagar". Ele trabalha com uma prudência felina sobre o caso de dois comerciantes libaneses recentemente crivados de balas em sua vizinhança, e sobre curiosos assassinatos no mar, "quando elementos concorrentes da marinha levaram tiros".

Um grupo de dirigentes militares havia aberto pistas de aterrissagem no sul do país. Especialmente em Kufar, bem ao lado de um quartel. Os "Gulf Stream" com sistemas de abastecimento para atravessar o Atlântico aterrissavam ali com "uma tonelada e meia de cocaína" em seus compartimentos, avalia um especialista.

A intervenção do ex-chefe do Exército, Tagmé Na Wai, foi decisiva para bloquear o tráfico, ao fechar as pistas e ameaçar abater qualquer avião que sobrevoasse território guineense. Desde então, o tráfico utiliza outros caminhos, pelo mar, chegando nas ilhas Bijagós, onde abundam estranhos hoteizinhos sem clientes, ou pelo ar. "Pode-se organizar aterrissagens em qualquer lugar. Chega-se a construir uma pista em duas semanas", comenta, abatido, Mazitelli.

Enquanto isso, a violência vence. Tagmé Na Wai foi aniquilado em um atentado em março, seguido pelo assassinato do presidente da República, Nino Vieira. Mortes previsíveis? "Tagmé fechou a torneira deles", garante uma fonte judiciária que implora para não ser identificada. "Era de se esperar que houvesse uma vingança".

Tradução: Lana Lim

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