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01/07/2009

Quando os dignitários do clero se preocupam em nome do islamismo

Le Monde
Fariba Hachtroudi
"Você não se arrepende de ter apresentado uma teocracia que pratica as leis da sharia, entre as quais o apedrejamento?" Faço essa pergunta a um alto funcionário saído do ministério das Relações Exteriores da República Islâmica, que deixou seu retiro provincial para "correr em meu socorro", segundo suas palavras!

Fariba Hachtroudi

  • Laurent Péters/Divulgação

    Fariba Hachtroudi é escritora e acaba de publicar "Le douzième imam est une femme?" (o décimo segundo imame é uma mulher?")

Estamos em Teerã no fim do mês de abril. É a terceira viagem legal que faço para meu país natal, após 30 anos de exílio. Terceira vez, portanto, que corro o risco de entrar no país sem garantia de poder sair. E a primeira vez que, assim que passei pela alfândega, um lebass chakhssi (agente de Inteligência à paisana) do gabinete da presidência confiscou meu passaporte.

Em minha primeira viagem, em dezembro de 2006, tive direito aos interrogatórios, bem gentis, pontuados de táticas de intimidações e manobras de encantamento, que supostamente me fariam compreender que um "testemunho objetivo" (entende-se por isso um livro a favor da República Islâmica!) facilitaria minhas viagens posteriores ao país..."

Em 2008, saiu meu testemunho sobre o relatório de danos dos lugares e o cenário sombrio que constituem o cotidiano dos iranianos. Empobrecimento e flagelos sociais (desemprego, prostituição, suicídio, drogas, etc.). Eu denuncio - como antes - a sociedade do desprezo que os dirigentes impõem a seu povo. Eu reitero minhas tomadas de posições irreversíveis em favor do laicismo, da revogação de todas as leis da sharia, único meio de poder alcançar o status igualitário entre o homem e a mulher, em relação aos direitos humanos - que, para mim, não deveriam ser mais islâmicos do que cristãos ou judaicos; eu saúdo a juventude que se tornou os agentes principais do dinamismo fabuloso da sociedade civil, eu persisto e ratifico, afirmando que o regime dos mulás pode se gabar de seu sucesso geopolítico regional e internacional, mas não conseguirá sobreviver ao descontentamento popular crescente e à insatisfação da juventude.

Eu reconheço, por fim, que a fração do chamado regime dos "reformistas moderados" tem consciência do perigo que os extremistas de Mahmoud Ahmadinejad impõem à sua República. Então, nada mais natural aos olhos do "barbudo fundamentalista" do aeroporto, que eu continue sendo "essa inimiga de Deus" não arrependida, ex-militante do Conselho Nacional da Resistência dirigido pelos "terroristas" de mujahidin do povo. "Quanto a mim, eu tento explicar para aqueles que querem te dar o que seria a lição de sua vida que talvez não seja uma boa ideia, e que sobretudo não é o momento certo!", me diz o alto funcionário, e ainda acrescenta "reter ou aprisionar uma escritora franco-iraniana, enquanto eles já nem sabem mais o que fazer com a jornalista irano-americana às vésperas da eleição presidencial, seria contraproducente". Ele denuncia com uma espantosa franqueza o espírito e a ideologia diáfanos das redes ligadas a Ahmadinejad, que pode levar o país à beira do caos e conclui que ele trabalha dia e noite para a campanha de Mir Hussein Moussavi.

Outros apoiadores do candidato, muito introduzido nos círculos da cidade santa de Qom, me falam das convicções messiânicas de Ahmadinejad, o qual, segundo eles, aspira a um confronto aberto com o Ocidente, de tanta certeza que ele tem de que, graças ao auxílio providencial do 12º Imame (o retorno do messias), o Islã sairia vencedor de qualquer possível guerra contra a heresia. Eles todos não demonizam Ahmadinejad? Não, me diz um desses grandes aiatolás que eu encontro pouco depois.

O homem, que tinha um cargo de grande importância no início da revolução junto do aiatolá Khomeini, conhece meu passado, meus escritos e meu problema de passaporte confiscado! Ele me explica: "O pano de fundo da atual guerra é feito do conflito entre os partidários de uma República Islâmica e aqueles de um governo islâmico".

Tradução: em um governo islâmico, a única fonte de legitimidade é a sharia e o único que toma as decisões é o "Líder" (no caso, Ali Khamenei). Em uma República Islâmica, é a vontade popular por intermédio das instituições republicanas que deveria prevalecer. Essas instituições devem, além de tudo, respeitar a Constituição que não é discriminatória em relação às outras religiões ou etnias do país. Os altos dignitários do clero criticam cada vez mais abertamente o domínio do jurista (ou a autoridade de um único homem - o "Líder" supremo) acima das instituições. É em nome do Islã e pela proteção deste que muitos deles se preocupam.

Quanto à liberdade de expressão, eu lhe pergunto: se um escritor publicar um romance no qual o 12º Imame fosse uma mulher, será que essa obra imaginária poderia ser considerada um insulto ao 12º Santo Xiita, e se sim, qual seria a pena do infeliz? Ainda que o aiatolá não concorde comigo sobre a classificação de romance para designar uma obra que se inspira na realidade, ele me garante que, para ele, se um escrito for considerado blasfemo, ele deve ser contestado e debatido por meio de um outro escrito. E ele mesmo é contrário à proclamação de uma fatwa de morte para escritores. "Segundo o Corão, só o insulto ao Profeta já mereceria o castigo supremo, contanto que pudesse ser provado seu caráter blasfemo... Mas, segundo as leis decretadas por esses senhores - lê-se: seus próprios congêneres no mais santo do poder - a pena de morte é estendida aos casos de injúria pronunciada contra os Doze Imames. E por que seria uma injúria estipular que uma mulher possa ser o aguardado messias? Não se está injuriando metade da humanidade, nesse caso?" O aiatolá me responde que, para o Corão, homens e mulheres são iguais perante Deus!

Em quem ele votará no dia 12 de junho? Em Moussavi! Seria para retomar sua carreira política abortada com os conservadores? "Não, senhora, é para ajudar a tirar o país do impasse!"

Essa visão é compartilhada pelos artistas, poetas, escritores, cientistas e intelectuais, entre os quais muitos ex-estudantes e amigos de meu pai, mobilizados para a votação do 12 de junho: "Com Moussavi, há uma esperança. Os dirigentes não podem mais ficar para trás de um povo jovem, orgulhoso de sua cultura e que defende à volta à 'iranidade' tanto quanto ao islamismo, se não mais".

O velho professor R., 70, fiel e praticante, ex-aluno de meu pai, também é um alto dirigente de uma universidade científica do país. Quando falo das chances que alguns atribuem a Ahmadinejad, ele responde "mais uma razão para mobilizar os estudantes, assim como ele mobiliza seus milicianos fanáticos". E para recitar com emoção o testamento moral do professor Hachtroudi, pronunciado na Universidade de Teerã dois anos antes da revolução. "Eu parabenizo a valente juventude, porta-estandarte do saber no Irã, a serviço do qual nós fomos (...). Se as convenções o permitirem, eu gostaria que meus restos mortais fossem enterrados dentro da universidade para ser eternamente o receptáculo da terra levantada pela marcha da juventude".

Hoje, mais uma vez é massacrada essa juventude que só aspira por dignidade, e aqueles que ousam defendê-la são presos. Peço humildemente ao corpo docente francês e aos Prêmios Nobel de Física que apóiem seus colegas no Irã, que, arriscando suas vidas, se mobilizaram atrás da juventude iraniana.

Tradução: Lana Lim

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