UOL Notícias Internacional
 

02/07/2009

O tímido início de um "renascimento" em Nablus

Le Monde
Benjamin Barthe
Enviado especial a Nablus
Os pôsteres de mártires, barômetros das violências entre israelenses e palestinos, desaparecem aos poucos das ruas de Nablus. No auge da Intifada, esses cartazes, que fazem as vezes de notificações de falecimentos, envolviam a cidade como uma imensa mortalha. Amarelados pelo Sol, retalhados pelo vento, hoje eles são substituídos por anúncios publicitários e placas novinhas em folha, que mostram o tímido renascimento da capital do norte da Cisjordânia.

A mais inesperada dessas placas se encontra sobre a fachada da gigantesca construção em pedra, meio estacionamento, meio centro comercial, erguida na entrada da antiga cidade. As letras vermelhas e pretas que soletram as palavras "Cinema City" não mentem. Nablus, bastião dos loucos do Fatah, cidade rebelde, porta-estandarte da Intifada e de seus derivados, por muito tempo apelidada de "fábrica de terroristas" pelos porta-vozes israelenses, acaba de ganhar um cinema.

Cento e setenta e cinco assentos estofados, um projetor 35 mm de padrão europeu, um café de design descolado para antes ou depois do filme. "É uma volta à civilização", exclama Raja Al-Taher, a responsável pelas relações públicas. "Fazia mais de vinte anos que não tínhamos um cinema".

Nos anos 1960 e 1970, Nablus dispunha de três salas, uma delas sendo o Granada, um palácio de 1.300 lugares, com balcões e frisos, sem igual na região. As famílias iam para lá à noite para saborear o melhor das comédias egípcias com o cantor Abdel Halim Hafez, queridinho das senhoras. Mas em 1988, no início da primeira Intifada, os cinemas tiveram de fechar sob pressão dos militantes. Era proibido rir enquanto a Palestina era destruída. Durante o processo de paz, vários projetos de retomada foram abortados, por falta de fundos. Foi preciso esperar o fim da segunda Intifada para que um empresário, Marwan Masri, originário de uma das linhagens aristocráticas da cidade, decidisse ressuscitar a sétima arte em Nablus. "A situação se estabilizou um pouco", ele disse. "Tinha vontade de apostar nisso".

Esse novo clima se deve principalmente à suspensão do estado de sítio imposto à cidade desde o ano 2000. Reconhecendo o desdobramento em massa de policiais palestinos e a repressão aos grupos armados levada a cabo pelo primeiro ministro Salam Fayyad, o exército israelense desmantelou três dos principais bloqueios que cercavam a cidade: Beit Iba a oeste, Wadi Badhan a leste, e Assira Al-Chamaliya ao norte. Ao sul, o posto de fronteira de Huwara continua no lugar, mas os procedimentos de controle foram suavizados. Algo inimaginável seis meses atrás, os habitantes dos vilarejos dos arredores agora podem atravessar esse bloqueio ao volante de seus próprios veículos particulares, ao passo que antes eles deviam utilizar táxis coletivos. Outra novidade: os habitantes de Nablus com mais de 50 anos são autorizados a sair da cidade de carro. "É um passo na direção certa", diz Adli Yaish, o prefeito eleito em uma lista do Hamas. "Isolada dos vilarejos, Nablus estava agonizando. A volta em peso da polícia palestina foi decisiva".

Nas conversas, os habitantes gostam de enumerar os sinais da mudança. "Todo sábado, por exemplo, milhares de árabes israelenses vêm de ônibus para fazer compras", conta Ayman Chaka'a, diretor de um centro social. Lucro em 24 horas: o equivalente a € 400 mil, segundo o governo. As festas de casamento que terminavam prudentemente ao pôr-do-sol, agora prosseguem até o fim da noite. Mahdi Abou Ghazaleh, um ex-membro das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, uma milícia originada no Fatah, recentemente celebrou o seu. "Não foi dado nenhum tiro para cima", se espanta um convidado. Os diretores da câmara de comércio fizeram um estudo. Das 400 lojas, empresas e oficinas que haviam fechado por causa do cerco, por volta de cem foram reabertas nos últimos meses. Os habitantes de Nablus que trabalham em Ramallah e que haviam se mudado para lá para não perder horas no táxi, voltaram a morar em sua cidade de origem. "Em relação ao ano passado, a melhora é nítida", diz Amjad Chaka, dono de uma loja de móveis. "Mas é só o começo. Os funcionários nunca têm certeza se terão seus salários no fim do mês. Para comprar os móveis de sua casa, eles precisam tentar três vezes".

À noite, no fim da sessão das 20 horas, Bachir, o gerente do Cinema City, se mistura aos espectadores. "Eles saem com um grande sorriso", ele diz. "Para muitos deles, é a primeira vez que vão ao cinema". Em cartaz, a última comédia de Mohammed Heneidi, o rei do humor egípcio. Apesar do preço relativamente alto do ingresso (cerca de € 5), a sala costuma ficar cheia. "Nossa situação se parece com a da época dos acordos de Oslo", diz Bachir. "Está mudando, mas é muito frágil. Com um mínimo problema, tudo pode desmoronar".

Tradução: Lana Lim

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