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02/07/2009

Projeto social em Nova Iguaçu faz crianças sonharem em ser mais do que jogadores de futebol

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Assim que abrimos a porta que dá para o pequeno pátio da creche comunitária Dom Bosco, em Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de Janeiro, logo somos recebidos por uma faixa que anuncia a profissão de fé do lugar: "Educar em paz".

A paz? Ela está sempre em falta para as crianças do bairro fora dos muros da creche. A paz na rua, a paz em família, a paz de espírito. Nesse início de tarde, é hora da soneca na Dom Bosco. Os "pequenos" - com menos de 6 anos - dormem ou sonham acordados, deitados em colchões estendidos ao Sol.

Mais tarde, como toda sexta-feira, eles farão atividades ligadas ao tema do dia: "A música e o movimento". Ao longo da semana, como em todas as creches do mundo, eles descobrem as palavras, os números, as formas, as cores, as danças ou os cantos. Mas o progresso desse despertar pedagógico é uma conquista diária aqui.

A lei garante a todas as crianças brasileiras o direito de acesso a uma creche, até os 3 anos, e depois a um ensino pré-escolar. Esse objetivo continua sendo utópico, por falta de dinheiro, educadores e boa vontade por parte das prefeituras, a quem cabe o essencial para a implementação do sistema, por meio de uma ajuda financeira do Estado federal.

Com quase um milhão de habitantes, Nova Iguaçu é a mais populosa das cidades da Baixada Fluminense. Ela desdobra seus alinhamentos de pequenas casas até a beira dos pastos. Muitas pessoas daqui vão trabalhar todos os dias nos distantes bairros chiques da "zona sul" da metrópole. De três a cinco horas de ônibus, ida e volta, dependendo do trânsito.

Ao longo dos vinte últimos anos, jovens mães de família, com vontade de trabalhar "na cidade", deram início à abertura de creches e de centros comunitários na periferia. Uma associação, fundada em 1986, a Solidariedade França-Brasil (SFB), entrou então em cena. Apadrinhada por cerca de quinze grandes empresas, essa ONG encoraja as creches a se estabelecerem em redes.

"Nós apoiamos essas redes cooperativas, descentralizadas, horizontais, para que elas se administrem de forma autônoma", explica Suzete Yunes Ibrahim, diretora-executiva da SFB. "Nós as ajudamos a serem aceitas pelas prefeituras, e a negociar com elas. Em seis meses nós formamos as educadoras, dentre as quais algumas se tornam formadoras, por sua vez".

Esses grupos comunitários têm um amplo campo de ação: alfabetização, incentivo à leitura, ensino de informática, medicina preventiva, assistência alimentar, conselhos de nutrição e de higiene, criação de ateliês de arte, introdução à ecologia.

A SFB dá a seu trabalho uma dimensão social. Ela estimula a formação de líderes, agentes de mobilização e de transformação social. Ela favorece a "volta à escola" de adolescentes e adultos que gostariam de retomar seus estudos, dando-lhes bolsas.

Na Dom Bosco, a creche também recebe os "grandes", com idade entre 7 e 14 anos, antes ou depois de suas quatro horas diárias de aulas na escola do bairro. Naquele dia, eles são cerca de quinze, sentados comportadamente nas "salas de bate-papo", em volta da dinâmica e sorridente diretora, Simone Queiroz, 42. Na parede, uma lousa dividida em duas lhes dá recomendações educativas e cívicas, "obedecer, ser bem-educado, permanecer unido..." e proibições, "brigar, rabiscar os cadernos, jogar papel na privada..."

Essas crianças estão entre as mais vulneráveis do bairro, atrasadas na escola ou socialmente em perigo. A creche evita que elas fiquem ociosas nas ruas, em meio aos flagelos do cotidiano, violências e tráficos de todo tipo. Ela as abriga, lhes dá um apoio pós-escolar, e por meio do diálogo e da leitura, lhes abre ao mundo do qual elas só têm, graças à única televisão, imagens longínquas ou simplistas demais.

"Nesse momento", explica Simone meio de lado, "o bairro é palco de uma luta de influências entre traficantes de drogas e grupos de milícias. Isso acaba em tiroteios e mortos". Os "milicianos" que disputam com os traficantes, armados, o controle de seu território, muitas vezes são ex-soldados, policiais ou carcereiros. Assim que o conseguem, eles, por sua vez, impõem uma ordem mafiosa e tarifada à população.

As crianças sabem de tudo isso. Elas falam a respeito à maneira delas, como nessa redação escrita, ilustrada e assinada com sete nomes em um pequeno caderno, sob um título cuja neutralidade - A polícia brasileira - contrasta com a força do conteúdo: "Aqui, morre uma pessoa por dia. Alguns policiais se chamam milicianos. A impunidade só piora. Tem violência, como os sequestros-relâmpago. O povo brasileiro sofre muito por causa da falta de segurança".

Quando lhes perguntamos o que eles gostariam de ser, curiosamente nenhum deles responde jogador de futebol, cantor ou atriz de novela. Como se eles já se reservassem um papel social "útil", eles se veem como juízes, policiais, advogados, médicos, professores, bombeiros, enfermeiras, e um deles, como jornalista.

Tradução: Lana Lim

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