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03/07/2009

A esquerda testada por Iztapalapa, imenso distrito popular da Cidade do México

Le Monde
Joëlle Stolz
Na Cidade do México
A tenda amarela fica em um cruzamento de Palmitas, um dos sinuosos recônditos de Iztapalapa, um imenso distrito que se estende ao leste da Cidade do México. Essa confusão de barracos e de moradias populares, de lojas e de atacadistas, de escolas e de presídios, de milhares de oficinas instaladas à beira do asfalto, com quase 2 milhões de habitantes, é um bastião da esquerda.

O resto do México não se interessa muito por nada além da sexta-feira da Semana Santa, quando sua população encena diante de centenas de milhares de fiéis a Paixão de Cristo, cuja cruz é erguida no cume de um antigo vulcão. Ultimamente, Iztapalapa é palco de um drama político que fascina a imprensa: a Paixão da Esquerda. Não falta nem o julgamento de Pilatos, nem o flagelo ou a crucificação. A única dúvida é sobre a possibilidade de uma ressurreição.

A vitória anunciada do antigo partido hegemônico

Uma pesquisa divulgada na terça-feira (30) prevê que o Partido Revolucionário Institucional (PRI, centro) poderá recuperar a maioria na Câmara dos Deputados, nas eleições legislativas do domingo (5).

No poder de 1929 a 2000, o PRI obteria 34% dos votos, ultrapassando o Partido da Ação Nacional (PAN, direita), o partido presidencial, com 29% dos votos. O Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda), só teria 13% dos votos, ao passo que três outros partidos de esquerda totalizariam 10% dos votos.

No domingo, os mexicanos também são convocados a elegerem os governadores de seis Estados da federação, 549 prefeitos, a Assembleia Legislativa da Cidade do México e os 16 vice-prefeitos da capital.

Após 71 anos de poder total, o PRI foi derrotado em 2000 pelo PAN, que levou Vicente Fox à presidência da República. Felipe Calderón (PAN) o sucedeu em 2006.
Firmemente plantado no palanque de Palmitas, um orador de cabelos grisalhos, ao lado de uma mulher atraente de vestido branco e de um homem baixinho de pólo vermelha, critica "a máfia que nos roubou a presidência, e acaba de cometer um novo crime contra nós". A multidão o olha com devoção, interrompendo-o para bradar as frases de costume: "Você não está sozinho!" ou "Assim é o povo de López Obrador!".

Andrés Manuel López Obrador, ou "AMLO", havia conseguido 15 milhões de votos na eleição presidencial de 2006, mas nunca aceitou ter sido derrotado por menos de meio ponto de diferença pelo conservador Felipe Calderón.

Ali há jovens casais segurando seus bebês, idosos desgastados por uma vida de trabalho, muitas pessoas cujos semblantes revelam a origem indígena e o cansaço dos longos trajetos para um emprego muitas vezes precário. O orador lhes explica que, para eleger a mulher de branco, será preciso votar no homem de vermelho.

Pois não será uma tarefa fácil para os habitantes de Iztapalapa, que deverão escolher, no domingo (5), durante uma votação conjunta com as eleições legislativas, seu chefe de delegação (prefeito distrital). Sobretudo se permanecerem fiéis a López Obrador.

Por dois anos, o antigo defensor da esquerda visitou 2.038 municípios, percorreu 150 mil quilômetros, teve contato direto com centenas de milhares de mexicanos. "Ele teceu uma rede nacional que não tinha em 2006", observa Heliodoro Cardenas, jornalista do jornal "Milenio", que o acompanhou em sua maratona. Uma pesquisa lhe atribui 16% das intenções de voto nas eleições presidenciais de 2012 - o dobro das obtidas pelo outro possível candidato da esquerda, o prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard.

AMLO apostou todas suas forças na batalha de Iztapalapa, mesmo que isso signifique atacar seu próprio partido. Os eleitores, ele insiste, não deverão ticar na cédula amarela o Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda), ao qual ele pertence há vinte anos, nem o nome de Clara Brugada, a candidata que ele apoia, mas sim o candidato do pequeno Partido do Trabalho (PT, esquerda), Rafael Acosta, conhecido em Iztapalapa como "Juanito". Então, para eleger Clara, votem em Juanito, ou seja, Rafael.

Confuso? Sim, sobretudo em um distrito onde muitos habitantes são analfabetos e contam, na cabine, com as siglas dos partidos. Essa situação grotesca é o último episódio, e não o menor, das disputas que opõem as diferentes "tribos" do PRD e que o levaram, desta vez, à beira da ruptura.

Clara Brugada foi designada como candidata do partido em Iztapalapa ao fim de uma eleição interna muito disputada entre a corrente de AMLO e a ala social-democrata liderada por Jesús Ortega.

Em 2008, o Tribunal Eleitoral Federal teve de decidir, em favor de Ortega, um conflito difícil e interminável para designar o chefe nacional do PRD. Ele foi mais uma vez solicitado para solucionar o caso de Iztapalapa, onde a corrente social-democrata contestava o resultado da votação interna.

Ora, vinte dias antes da eleição, quanto as cédulas já haviam sido impressas, o Tribunal legitimou a candidatura de uma outra militante do PRD, moderada: ticar "Clara Brugada" equivale a elegê-la.

O clã de López Obrador logo denuncia as pressões que teriam sido exercidas sobre os magistrados por políticos próximos do governo, assim como por dirigentes do Partido Revolucionário Institucional (PRI, centro), que têm o mesmo interesse em privar AMLO de uma base sólida na Cidade do México.

Mas López Obrador improvisa um contra-ataque que surpreende seus adversários: trata-se de fazer eleger o candidato do PT, que se compromete a ceder lugar a Brugada, sendo que o prefeito da Cidade do México é requerido a endossar esse truque de mágica.

A direita protesta contra a indiferença das instituições, a corrente social-democrata o acusa de "traição" e ameaça expulsá-lo do PRD. Nada agradaria mais a AMLO, que sempre se beneficiou com o papel de vítima. Sua popularidade atingiu o auge, em 2005, quando o governo do presidente Vicente Fox tentou torná-lo inelegível.

Hoje, sua manobra arriscada pode permitir se esquivar da onda, ou afundar o navio para sempre. Os outros partidos esperam por fraudes, ou até violências dentro do PRD no dia da eleição.

"Será muito difícil ganhar a eleição de Iztapalapa", acredita Conrado Farias, um comerciante de Palmitas que não esconde sua admiração por AMLO. "É o único que vale a pena em toda a classe política mexicana, ele entrará para a História", ele garante.

Antes de ir a outra reunião eleitoral, explicando incansavelmente que é preciso votar no Juanito para eleger Clara, aquele que seus fieis chamam de "Andrés Manuel" se deixa fotografar abraçando crianças empolgadas. Seu sorriso é terno, mas os olhos negros estão sagazes, o maxilar está mais duro, e o perfil mais agudo que antes: a "máfia" não acabou com AMLO.


Tradução: Lana Lim

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