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06/07/2009

Irã: as lições de uma crise

Le Monde
Frédéric Tellier
Os acontecimentos que desde a eleição presidencial ocorrem no Irã têm uma importância que ultrapassa de longe a pessoa de Mir Hussein Moussavi - candidato oficialmente derrotado - e a questão de seu futuro pessoal. A crise encarna o confronto agora fora de controle das duas facções principais que compõem a República Islâmica.

De um lado, a rede da Guarda da Revolução transformada em viveiro de uma segunda geração de líderes islâmicos que combina a preservação, ou até radicalização dos ideais da Revolução Islâmica e uma vontade modernizadora fundada sobre o domínio das tecnologias avançadas - nuclear, principalmente - a fim de erguer o país como pólo de potência regional. Do outro, um campo dito pragmático de oligarcas islâmicos reagrupados na esteira do ex-presidente e candidato derrotado na eleição presidencial de junho de 2005, Hashemi Rafsandjani. Raramente citado, mas onipresente, ele é, ainda mais que Moussavi, o elemento motriz desse grupo. A luta entre essas duas facções não é novidade. Ela era latente, ainda que a atenção do Ocidente, toda concentrada na questão nuclear, tenha ocultado em muito as implicações para o sistema islâmico. Como duas placas tectônicas que se chocam durante anos, as forças de fricções se acumularam antes de se libertarem brutalmente, causando o terremoto do 12 de junho e dos dias que se seguiram.

Esse conflito opõe duas visões bem distintas do futuro da República Islâmica. Do lado de Rafsandjani, um poder tecnocrático preocupado em adaptar antes de tudo o sistema econômico do Irã e disposto ao diálogo com o Ocidente, sem entretanto questionar o contexto islâmico e as orientações fundamentalistas do regime. Do outro, um sistema ideológico-militar que tende a ficar sem a legitimidade popular para garantir a perenidade da Revolução, do sistema que se originou dela, e de seus próprios interesses econômicos e políticos. No plano internacional, sua preferência vai para o reforço das solidariedades regionais (China-Rússia) que permitem limitar ao mínimo os contatos com as democracias ocidentais e seu modelo liberal.

A fraude faz parte do sistema
Esse confronto pode a qualquer momento suplantar o regime e questionar sua estabilidade, tanto que é preciso levá-lo de volta a essa "terceira força" que é constituída por uma sociedade civil que, em sua esmagadora maioria, aguenta a crise econômica e cuja confiança no sistema islâmico está alterada. A demanda fundamental de liberdade e de democracia, que emana de setores inteiros da sociedade iraniana, ultrapassa de longe o que os candidatos à presidência, incluindo o mais reformista, é capaz de oferecer.

Até o momento, o jogo eleitoral bastou para conter e canalizar o conflito. Claro, a eleição na República Islâmica nunca ofereceu aos iranianos mais do que uma escolha limitada de candidatos pré-selecionados baseados em sua adesão aos valores do sistema e ao legado do aiatolá Khomeini.

Claro, a fraude faz parte do sistema tanto no início - na seleção dos candidatos - quanto no final, na contagem dos votos. As eleições, nesse sentido, mal tinham a função de representação no sentido clássico do termo, mas mais de legitimação e de estabilização do sistema. Assim, a alternância das facções trazia ao regime uma forma de equilíbrio, uma vez que a participação popular garantia a facção vitoriosa uma legitimidade para além dos únicos círculos do poder islâmico. Esse equilíbrio era reforçado pela figura do líder que, acima da disputa, favorecia os dois campos, pendendo de um lado para outro.

No último 12 de junho, o regime islâmico rejeitou conscientemente essa regra do jogo, ao recusar a alternância. Ele impôs um candidato apesar das dúvidas sobre a legitimidade de sua eleição. Khamenei tomou uma decisão, confirmando a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, e reafirmando sua solidariedade com a visão da República Islâmica promovida por esse último. Foi o eixo do poder islâmico que mudou, indo a favor do poder político-militar de Ahmadinejad e da Guarda da Revolução. Uma facção ficou por cima à custa da credibilidade da eleição presidencial que, até então, agia como uma válvula de segurança que permitia uma expressão popular canalizada, domada pelo regime.

Um custo político para o sistema islâmico
A República Islâmica talvez tenha condição de restabelecer a calma a curto prazo. Mas as incógnitas geradas pela crise e pelas escolhas do poder islâmico podem pesar sobre seu futuro com uma intensidade inédita. O conflito agora aberto que opõe Ahmadinejad a Rafsandjani terá um custo político para o sistema islâmico. A influência dos dois recai sobre partes inteiras do poder islâmico e não das menores: engrenagens da defesa e da segurança do Estado islâmico, forças paramilitares, serviços secretos, redes político-mafiosas de influência... Cada uma dessas estruturas-chave da preservação da unidade da República Islâmica tem sua linha de frente interna. Os esforços feitos pelo poder para colocar na linha o clã Rafsandjani e as prisões de figuras políticas são só uma amostra daquilo que poderá rapidamente parecer com um expurgo sistemático da máquina do Estado. O regime deve assumir o espetáculo da divisão interna levada a um nível inédito. Ao passar por cima dos avisos de Khamenei e das ameaças de repressão, as manifestações populares romperam uma barreira. Essa tomada de palavra não tem volta. Mesmo que seja reprimida hoje, ela se repetirá.

Enfim, é o próprio símbolo da eleição que está em crise. O regime descreditou o funcionamento do processo eleitoral e consequentemente sua aura, defendida com tanto rigor pelos oficiais iranianos, de "República" islâmica, combinação de legitimidade divina com legitimidade popular. Ao fazer isso, o poder iraniano enfraqueceu uma alavanca essencial da construção da legitimidade política e renunciou a um aspecto de sua história e do legado de seus fundadores. Sem dúvida, o medo de que uma nova presidência reformista - sobretudo no contexto de uma oferta de diálogo feita pelos Estados Unidos - se revele fora de qualquer controle e no final desacredite a integridade do sistema islâmico, não explica a decisão de Khamenei de impor Ahmadinejad à presidência. Entretanto, é provável que o custo político dessa manobra que priva a República Islâmica do pilar da legitimidade popular e seu impacto sobre o futuro da República Islâmica sejam por fim maiores do que se o líder se contentasse em ratificar o veredicto das urnas, seja lá qual que tenha sido.

*Frédéric Teller é analista principal para o Irã no International Crisis Group.

Tradução: Lana Lim

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