UOL Notícias Internacional
 

06/07/2009

Novo presidente da União Europeia é um liberal na terra dos social-democratas

Le Monde
Por Marion Van Renterghem
Frederik Reinfeldt, cujo país assumiu na última semana a presidência rotativa da União Europeia, é um sueco como os suecos gostam: modesto, simples, trabalhador, sério, tranquilo, sabe escutar, é um pouco tedioso, mas sem nenhuma excentricidade ou carisma particular. Em poucas palavras, como dizem esses cidadãos impregnados da discrição protestante: "Ele é como nós". Seu primeiro-ministro é jovem -43 anos-, possui uma casa sem grandes luxos num subúrbio do norte da capital,
trabalha num prédio pouco resguardado que dá para um jardim público, tem três filhos pequenos e uma mulher encantadora, que seguiu por conta própria a carreira política em Estocolmo e se recusa a ficar limitada ao papel de primeira-dama.

Catalogado no campo dos "conservadores", ele não tem nada de conservador à francesa. Está na vanguarda do casamento homossexual, que acaba de ser legalizado, e gosta das tarefas domésticas (principalmente passar aspirador de pó). Seu Partido dos Moderados, de centro-direita, não se distingue muito, nos temas sociais, de seu principal adversário da oposição, o Partido Social Democrata. E nos assuntos econômicos, ele se distingue menos radicalmente da direita liberal do que qualquer partido socialista. Assim são os infinitos matizes da política sueca.

Durante a campanha que o levou ao poder, em 2006, Reinfeldt obscureceu as coisas. Apesar de liberal, acabou rompendo com o discurso ultraliberal de alguns caciques do partido, como o ex-primeiro-ministro e atual ministro das relações exteriores, Carl Bildt, que desejavam uma ruptura radical com o Estado de bem-estar social, fundamento do famoso "modelo sueco": com um imposto de renda entre os mais elevados da Europa, uma forte cooperação entre os patrões e os sindicatos, serviços públicos de excelência, um Estado bastante descentralizado e um sindicalismo poderoso que se encarrega dos desempregados e de sua formação profissional.

O primeiro-ministro aplicou outro método. Enfraqueceu a oposição social-democrata reduzindo o debate político a uma simples pergunta: qual é o pior inimigo de um social-democrata? Resposta: um político de direita que fala como social-democrata. Em seu discurso, Reinfeldt se inscreveu no curso dos novos conservadores europeus que, como o britânico David Cameron, triunfam com o rejuvenescimento de sua imagem, e daqueles que, como Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, colaboraram para a debandada da esquerda tirando dela suas ideias sobre a intervenção do Estado na crise.

Como eles, Reinfeldt estudou com interesse a vitória de Tony Blair e a invenção da "terceira via" que trata de se aproximar dos eleitores de centro. Como fundador do novo trabalhismo, ele mudou o nome de seu partido que hoje é o dos "novos moderados". Compreendeu que, apesar de os eleitores estarem fartos de seu predecessor, o social-democrata Goran Persson, que esteve dez anos no poder, a social-democracia é uma parte intrínseca da alma sueca, de sua identidade política, de sua visão do mundo. Seja qual for o partido no poder.

Em sua campanha, Reinfeldt se apresentou como um homem novo, um candidato exatamente de centro, ao mesmo tempo liberal e social, que só tinha a intenção de consertar os modelos que têm suas falhas e que, segundo ele, não estimulam os desempregados a voltarem a trabalhar. Baixar os impostos e "fazer que o trabalho seja lucrativo". Inclusive teve o descaramento de chamar os Moderados de "partido dos trabalhadores", tema de profunda inquietação para os social-democratas, cujo partido oficialmente se chama Partido Social-Democrata dos Trabalhadores.

No poder, o Partido dos Moderados caiu rapidamente nas pesquisas. Os eleitores acharam duras as medidas sociais, apesar de terem sido anunciadas durante a campanha, como a diminuição do valor e da duração do seguro desemprego. A esquerda acusa Reinfeldt de ter desmantelado um dos pilares do modelo: o sistema de seguro desemprego, baseado em cotas voluntárias e administradas pelos sindicatos. O trabalhador sueco, paga uma cota ao se inscrever no seguro desemprego e se afilia a um sindicato que a administra. Ao aumentar o custo da cota, o primeiro ministro dissuadiu meio milhão de suecos de se inscreverem. Ao mesmo tempo, o número de empregados que se afiliaram a um sindicato caiu 8% em três anos.

Quem é então Frederick Reinfeldt? Pergunta a presidente do partido social-democrata, Mona Sahlin. "Estou impressionada com ele, mas não sei se ele é frango ou peixe. É um conservador tão novo quanto pretende ser? Decidirá fazer um plano de reativação para a crise?" Por sua vez, seu biógrafo Mats Wiklund, se pergunta: "É realmente um de nós?"

O sindicato majoritário, o LO, o acusa de, a despeito de sua retórica, ter desssindicalizado o país e colocado os desempregados numa situação precária. Em poucas palavras, "de ter enfraquecido o modelo sueco".

Reinfeldt se defende. "Sou pela redução de impostos e pelo livre comércio, mas não sou neoliberal", assegura. "Somos responsáveis e frágeis também. Temos necessidade de um sistema de apoio através de um Estado de bem-estar social eficaz." E acrescentou: "Na Europa fazem uma ideia falsa sobre o modelo sueco. Ele não se baseia na onipresença do Estado, mas sim em uma sólida responsabilidade individual."

A Suécia, dedicada às exportações, foi afetada muito duramente pela crise. Reinfeldt continua sendo popular, mas o índice de seu partido foi rebaixado em prol dos outros. Ele se nega a aumentar o déficit orçamentário e a desistir de suas reformas do seguro desemprego. Com uma taxa de desocupação que no ano passado passou de 6% para 9% e com a perspectiva de que chegue a 11% em 2011, essa postura parece audaz. Principalmente porque Reinfeldt pretende ser reeleito em setembro de 2010.

(Tradução: Eloise De Vylder)

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