UOL Notícias Internacional
 

11/07/2009

Barack Obama na África negra, uma visita muito aguardada

Le Monde
Philippe Bernard
Barack Obama não é africano. No entanto, jamais nenhum presidente americano personificou a esse ponto o orgulho e a esperança de um renascimento no continente negro. "Boas vindas ao eminente filho da África! Bem-vindo à casa!", proclama uma comentarista da televisão do Gana, onde ele deve pronunciar, no sábado (11), um discurso sobre a África.

É provável que sua ascensão e sua eleição não tenham suscitado tal grau de entusiasmo em nenhum outro continente. Vingança contra o desprezo contra o homem negro e portanto do africano, o triunfo do senador Obama também foi visto como símbolo de uma imensa expectativa democrática para a própria África. Que um político desconhecido, de uma raça minoritária, possa, para surpresa geral, realmente ter sido escolhido pelos eleitores, é algo com poucas chances de acontecer na maior parte dos países da África.

Transparente, livre, a eleição americana repercutiu como uma operação de restauração mundial dos negros, e de Dacar a Nairóbi, como um despertar de uma autoconfiança muitas vezes desgastada. Com o continente vivendo uma era de golpes de Estado, presidentes vitalícios e guerras étnicas, o vento dos EUA traz audácia democrática e abertura política. A esse respeito, a escolha do Gana, que em dezembro teve sua segunda alternância pacífica em oito anos, é clara. Obama optou por esse pequeno país da África Ocidental como única etapa na África. Ele preferiu Gana ao Quênia, país de nascimento de seu pai, onde a última eleição deu lugar a um sangrento conflito étnico, e à Nigéria, onde a corrupção transforma sua fortuna petroleira em maldição.

A corrupção e o tribalismo foram os temas escolhidos especialmente por Obama para os vigorosos discursos que ele pronunciou em agosto de 2006, na Universidade de Nairóbi (Quênia). Apresentando-se como "seu amigo, seu aliado, seu irmão", o futuro presidente apontou "a incapacidade do Quênia em conseguir um governo transparente e confiável" e classificou a corrupção como "uma das grandes lutas de nossa época". O atraso da África não se explica somente pela colonização, ele comentou, antes de culpar "a ideia desastrosa segundo a qual o objetivo da política seria de tomar a maior fatia do bolo em benefício de sua família ou de sua tribo". Uma mensagem que nenhum político branco ocidental ousaria passar. Mas que muitos africanos aceitam, e até aprovam, vindo da boca de seu novo herói americano.

Para além das palavras, resta saber o que o presidente americano fará com a imensa corrente de simpatia que ele suscita na África e com essa capacidade em dizer verdades embaraçosas para uma multidão dos atuais governantes.

É aí que entra a ambiguidade do personagem popularmente visto no continente negro, erroneamente, como "Obama, o africano". Pois se a história familiar do presidente americano lhe permite entender melhor do que qualquer um de seus predecessores a complexidade da cultura africana, e talvez ser ouvido, Obama é antes de tudo um produto puro dos EUA. Em seu livro "Sonhos de meu pai" (2008), ele dá a entender que nunca se sentiu tão americano como quando voltou de sua primeira viagem ao Quênia, nos passos de seu pai.

Sua preocupação de sobretudo não aparecer como o presidente dos negros americanos deverá conduzi-lo a uma grande prudência e a uma certa continuidade em termos de política africana. Ainda mais que o continente negro é provavelmente aquele em que seu predecessor, George W. Bush, se revelou o menos impopular, reforçando os orçamentos da luta contra a Aids e criando um amplo programa de ajuda ligado à boa governança. Por outro lado, a política africana do democrata Bill Clinton, tendo fracassado na Somália, negando por muito tempo o genocídio ruandês e fingindo promover novos dirigentes virtuosos que muitas vezes se revelaram tiranos, tampouco deixou boas lembranças.

Hoje, uma vez que os Estados Unidos enfrentam duas guerras e uma crise econômica, a África não aparece entre as prioridades da Casa Branca e os orçamentos de ajuda têm pouca chance de serem reavaliados. Afinal, o continente negro só representa 2% do comércio exterior americano e, desde o fim da guerra fria, a África não é mais um continente tão estratégico. As primeiras medidas de Obama parecem indicar que, tendendo a confiar na ONU, ele poderá deixar em suas mãos a intervenção em Darfur e no leste do Congo-Kinshasa.

Agora a África está no centro de duas outras questões centrais para os americanos: campo de treinamento para o terrorismo islamita (Saara, Somália), ela também fornece 20% do petróleo consumido nos Estados Unidos. Os programas americanos de instrução militar implantados nos países ribeirinhos do Saara e as boas relações com os produtores de petróleo continuarão a figurar entre as prioridades. Em um contexto em que a China se apresenta como alternativa aos ocidentais sem exigir nenhuma contrapartida democrática, os governantes do continente poderão se mostrar menos receptivos às pressões do presidente americano, apesar de sua imagem de "africano".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host