UOL Notícias Internacional
 

13/07/2009

Togo: um porto em águas turbulentas

Le Monde
Gérard Davet
Enviado especial a Lomé (Togo)
As pessoas se divertem muito no Mandingue, um clube de jazz escondido em uma rua poeirenta de Lomé. Ali se cruzam com jovens bonitas, caciques do regime togolês, diplomatas, alguns empresários. Às vezes, nas sextas à noite, o ministro conselheiro do presidente togolês Faure Gnassingbé, o jurista francês Charles Debbasch, senta-se ao piano, imortal intérprete de "Patapata", de Miriam Makeba.

Obrigatoriamente, entre dois goles de Flag, a cerveja local, as conversas de vez em quando recaem sobre a questão do porto de Lomé e do duelo Vincent Bolloré-Jacques Dupuydauby. A história de um combate selvagem entre dois homens, sócios que se tornaram inimigos. O que estava em questão? Nada menos que o controle dos portos da África Ocidental. Lomé é uma cidade portuária em águas profundas, uma raridade na região, e a porta de entrada para Burkina Faso, Níger e Mali...

No Togo, Vincent Bolloré acaba de vencer a última batalha judicial. Derrotado, Jacques Dupuydauby não consegue se acalmar. Para ele, com certeza Vincent Bolloré usou de sua amizade com Nicolas Sarkozy para influir sobre o poder togolês e obter um julgamento favorável. Mas será que o presidente Faure Gnassingbé, no poder desde o falecimento de seu pai, o general Eyadéma, em 2005, não quis simplesmente cair nas graças da França, com a proximidade da eleição presidencial de 2010, vindo à frente dos desejos de Sarkozy?

O que é certo é que o empresário Jacques Dupuydauby um dia desagradou o clã presidencial togolês. É preciso dizer que ele está frequentemente de mau humor. Não se passa para trás esse gaullista inveterado de 63 anos, que foi o braço direito de Francis Bouygues. "Adoro a guerra", ele diz, de seu escritório em Sevilha, na Espanha. Desde que ele se tornou objeto de um mandado de prisão internacional, emitido em 27 de maio pela justiça togolesa, é bom não irritá-lo.

De um lado, um industrial, Vincent Bolloré, que vale 1,4 bilhões de euros em faturamento na África, 20 mil funcionários em 41 países. Sua estratégia: conseguir a administração dos principais portos do continente. Ele conseguiu em Duala, nos Camarões, à custa de uma batalha judicial intensa, já contra Dupuydauby. Uma investigação preliminar aberta para "favoritismo e corrupção" por iniciativa de Dupuydauby ainda está em curso, mas as citações dirigidas a Bolloré para comparecimento como testemunha nunca chegaram a Paris. Ele também administra os portos de Abidjan (Costa do Marfim), de Lagos (Nigéria), de Cotonu (Benin) e de Pointe-Noire (República do Congo).

De outro, uma empresa, Progosa, criada por Dupuydauby, que, entre outros, conta com o ex-embaixador Michel Dupuch, conselheiro da África no Palácio do Eliseu da época de Jacques Chirac, ou Rémy Chardon, ex-diretor de gabinete de Jacques Chirac na prefeitura de Paris. Brigitte Girardin, a ex-ministra de Cooperação do governo Jacques Chirac, acaba de deixar Progosa. Essa empresa era fortemente implantada em Lomé, onde ela até esperava obter a criação de um terceiro cais no porto. Hoje lhe restam interesses na Líbia.

Será que Dupuydauby paga, como ele diz, por suas convicções políticas? Não é a opinião do promotor púbico de Lomé, Robert Bakai, que exibe os mandados de prisão emitidos contra Dupuydauby, seu filho e um diretor de seu grupo, Gérard Perrier. Bakai - é só sua opinião - permanece firme: "Dupuydauby roubou Bolloré, e ele fugiu da justiça, ainda que tenhamos descoberto seus desvios de fundos e suas vigarices. Que ele não venha dizer que a Justiça é manipulada! Ele fugiu e destruiu documentos. Não recebi nenhuma ordem do governo, ainda que todas as decisões tomadas nesse caso, desde 2006, tenham sido favoráveis a Bolloré".

A causa do litígio é simples. Jacques Dupuydauby e Vincent Bolloré trabalharam juntos desde 1999. Com boas conexões na África, especialmente no Togo, Dupuydauby se aproveitou de suas boas relações com o industrial bretão, que lhe concedeu 30 mil euros por mês. Por meio de sua empresa espanhola, Progosa, Dupuydauby obteve a partir de 2001 contratos de manutenção para o porto de Lomé, atribuídos às empresas SE2M e SE3M, cujo financiamento foi garantido por Bolloré. "O dinheiro que foi colocado nessas empresas é aquele que Bolloré me devia", afirma Dupuydauby. "Eu conhecia o general Eyadéma desde 1977, não gastamos nenhum centavo para obter nossas licenças, mas o presidente togolês não queria de forma nenhuma que Bolloré fosse visível em seu porto".

O caso logo cresce. A ponto de Dupuydauby acabar organizando, segundo seus detratores, um verdadeiro assalto: ele deve repatriar os ativos das empresas togolesas, emprestados por Bolloré, para empresas de direito luxemburguesas em seu nome, criadas especialmente para isso. Bolloré - que não quis se manifestar - não gostou do procedimento, ele está prestando queixas de todos os lados. Na Espanha, mas também no Togo, onde em 2006 uma primeira decisão anulou a cessão de títulos. Recorre-se à corte de apelação. Será preciso esperar três anos antes que ela se pronuncie, em 28 de maio. Paralelamente, o fisco togolês pede grandes quantias de dinheiro a Dupuydauby, que acredita ter caído em uma cilada.

Não faltaram golpes baixos nesse caso. Como em 2006, quando os executivos do grupo Bolloré foram interpelados em Lomé, suspeitos, sem provas, de querer corromper magistrados. Em 2005, é o detetive particular Patrick Baptendier, ex-policial militar, que havia sido solicitado pela empresa de segurança GEOS, para obter informações sobre a dupla Perrier-Dupuydauby. "O pedido vinha de Vincent Bolloré em pessoa", lembra Baptendier. "Liguei para meu contato na DST (ex-serviço de contraespionagem) que me forneceu várias informações: placas de carro, históricos criminais..."

No círculo de Bolloré, confirmou-se ter aberto uma investigação. "Mas tratava-se de verificar o crédito de Dupuydauby", garante Olivier Baratelli, advogado do grupo Bolloré. No entanto, as informações são transmitidas aos operadores de Bolloré no Togo, que tentam convencer alguns jornalistas a publicarem informações sobre Gérard Perrier, o braço direito de Jacques Dupuydauby. Vários jornalistas recusam o procedimento. Como Augustin Assiobo, líder tribal e dono da publicação semanal "Tingo-Tingo", próximo de Progosa: "Os representantes do grupo Bolloré queriam que eu publicasse isso, mas eu queria checar essas informações", ele diz.

De qualquer forma, sai o julgamento da corte de apelação e ele é favorável a Bolloré. A ponto de ser interpelado, Dupuydauby deixa o continente às pressas. "Foram provocadas as fúrias de Bolloré", ele diz. Desde então, o caso ganha as manchetes da imprensa togolesa. Tanto que Dupuydauby agora mantém um blog. Ali ele afirma, por exemplo, que ele pagava a Charles Debbasch, o todo-poderoso conselheiro presidencial ex-reitor da faculdade de Aix-Marseille, condenado pela corte de apelação de Aix-en-Provence, em 2005, a dois anos de prisão por desvio de fundos no caso Vasarely. No blog, apareceram faturas assinadas pelo jurista. "Nós pagávamos uma espécie de mensalidade para ele, ele se tornou nosso advogado", explica Dupuydauby, "gastamos tanto... acabamos parando de lhe dar dinheiro". Será que Debbasch - que recusou uma proposta de encontro - pôde decretar a desgraça de Dupuydauby? "Esse tipo de coisa (a mudança de opinião da presidência em favor de Bolloré) dificilmente pode ser feita sem o acordo tácito de Debbasch", vocifera o empresário.

Mas, para ele, Bolloré também teria usado de suas boas relações com o Eliseu para suplantá-lo. O presidente Faure Gnassingbé encontrou Nicolas Sarkozy pelo menos em duas ocasiões. A primeira, durante a cúpula de Lisboa, em dezembro de 2007, só tratou, de acordo com as notas diplomáticas tomadas nessa ocasião, de macroeconomia, dívidas e de... Charles Debbasch, chamado por Sarkozy de "mercenário" pertencente a uma "época passada". Nada sobre o porto de Lomé, segundo o Quai d'Orsay, onde se afirma não ter "recebido nenhuma instrução sobre o assunto, (...) nós não nos submetemos a nenhum ditame".

A França, sem se iludir, apoia o regime atual. Em novembro de 2008, um outro encontro é organizado em Paris entre o Eliseu e Gnassingbé, por intermédio do advogado Robert Bourgi. Claude Guéant, o secretário-geral do Eliseu, visita o presidente togolês, que se hospeda no Hotel Bristol. "É difícil imaginar o presidente ou Guéant intervindo nesse caso do porto de Lomé", indica Bourgi. O porto de Lomé é administrado por uma estrutura autônoma togolesa. Vários operadores dividem o mercado da manutenção. Aqui, não há monopólio Bolloré. Os observadores dizem que é preciso desencavar a chave do caso Bolloré-Dupuydauby no pântano da política togolesa. "É um regime corrompido", afirma o ex-premiê Yao Agboyibo. "Quando eu estava no governo, eu perdia o contato com os investidores sistematicamente..." Candidato à eleição presidencial de fevereiro de 2010, o ex-secretário de Estado franco-togolês Kofi Yamgnane tem uma certeza: "O porto autônomo de Lomé é a fonte de dinheiro desse país", ele diz. "Faure (o presidente togolês) quer recuperar Bolloré para financiar sua próxima campanha..."

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host