UOL Notícias Internacional
 

14/07/2009

A "filosofia" diplomática de Barack Obama

Le Monde
Corine Lesnes
Em Washington (EUA)
Seus conselheiros falam menos de uma doutrina Obama do que de uma "filosofia". Com o discurso de Acra, pronunciado no sábado (11) em Gana, diante de um Parlamento barulhento, às vezes brincalhão, opinando ruidosamente como em Londres na Câmara dos Comuns, Barack Obama concluiu uma série de discursos expondo os grandes princípios de sua política externa.

As quatro intervenções

5 de abril. Barack Obama pronuncia em Praga, na República Tcheca, um discurso dedicado ao desarmamento nuclear.
5 de junho. Em viagem pelo Oriente Médio e pela Europa, o presidente americano fala sobre o islamismo na Universidade do Cairo, no Egito, e explica com detalhes a política que Washington pretende conduzir na região.
7 de julho. Diante de estudantes da Nova Escola Econômica, em Moscou, na Rússia, Obama fala em favor de um recomeço para as relações entre americanos e russos.
11 de julho. O presidente dos EUA pronuncia um discurso diante do Parlamento de Gana, em Acra, convidando os africanos a assumirem suas responsabilidades.

Desses quatro encontros - Praga, Cairo, Moscou, Acra - , ele emerge como o retrato de um moralista que, da África ao mundo árabe, encosta todos na parede quanto às suas responsabilidades. Para o presidente americano, "a liderança moral é mais poderosa do que qualquer exército". E também o de um realista ancorado na ideia de que a soberania dos Estados é a "pedra angular" da ordem internacional.

Quando ele assumiu suas funções, em 21 de janeiro, os analistas previam que a economia monopolizaria Barack Obama, que ele deveria delegar a política externa ao vice-presidente, Joe Biden, e a sua secretária de Estado, Hillary Clinton. Engano. Obama mostrou que pretendia cuidar de tudo. Sob pressão de uma agenda multilateral carregada, ele encadeou as cúpulas (G20, Otan, G8).

Ao deixar a do G8 que se reuniu em L'Aquila (Itália), na sexta-feira, ele se queixou do aumento do número de cúpulas, fenômeno que ele atribuiu ao mau funcionamento da ONU, que deveria ser o lugar das consultas. "Sou um grande partidário das Nações Unidas, mas ela deve ser reformada e revitalizada e foi o que eu disse ao secretário-geral".

A cada deslocamento para além do Atlântico, o presidente fez questão de fazer uma escala em um "pequeno" país para ressaltar que "o mundo é interconectado" e que os problemas do século 21 serão solucionados também em Praga ou em Acra. Segundo ele, esses Estados têm um papel "chave" nas relações internacionais. "A Revolução de Veludo (que provocou a queda do regime comunista na Tchecoslováquia em 1989) nos ensinou que manifestações pacíficas poderiam balançar as fundações de um Império e expor o vazio de uma ideologia", ele disse em 5 de abril, diante do castelo de Praga.

Todas as vezes ele faz questão de se dirigir aos jovens, para convencê-los de que a mudança está em suas mãos: "Que ordem mundial substituirá a guerra fria?"

Em Moscou, no dia 7 de julho, os estudantes da Nova Escola de Economia ouviram sem reação. "O futuro não pertence àqueles que reúnem exércitos em um campo de batalha ou que enterram mísseis; o futuro pertence aos jovens que estarão armados de educação e de criatividade", ele afirmou.

Para o presidente americano, a cooperação deve substituir os eternos confrontos: "Em 2009, uma grande potência não prova sua potência dominando ou demonizando outros países. A busca pelo poder não é mais um jogo de soma zero: o progresso deve ser compartilhado".

Na Universidade do Cairo, em 4 de junho, Obama falou sobre tensões entre as civilizações. "É o discurso no qual ele mais trabalhou pessoalmente", diz Ben Rhodes, seu redator de discursos. Para a etapa de Gana, Obama retomou suas ideias sobre corrupção, desenvolvidas à luz do exemplo de seu pai, afastado do governo queniano por causa de suas ideias e de seu clã.

O único discurso no qual ele fez propostas concretas foi o de Praga, sobre a não-proliferação. Ele fala sobre esse tema há mais de 20 anos. Desde 1983, em um texto publicado pela revista da Universidade de Columbia e encontrado recentemente pelo "New York Times", ele desenvolvia sua filosofia: "Acabar com a mentalidade da guerra". Ele já pedia pelo desarmamento.

A respeito dos direitos humanos, a Casa Branca considera que é suficiente Obama falar em termos globais. O presidente não quer dar a impressão de que os Estados Unidos estão dando lições, após um período em que o resto do mundo pôde ver que eles não são perfeitos.

Ao contrário de seu antecessor, George Bush, ele decidiu só abordar as questões em termos muito gerais de "direitos universais" e não aconselhar os governos sobre pontos específicos. "Os EUA não tentarão impor nenhum tipo de sistema a nenhuma outra nação", ele disse. "A soberania dos Estados é um princípio intangível".

De Moscou ao Cairo, Obama não abordou de frente a questão das liberdades para a oposição. Em Moscou, Mike McFaul, o conselheiro para a Rússia, explicou que a Casa Branca havia feito em janeiro uma avaliação da política russa, e que tinha chegado à conclusão de que "dar lições de moral ao redor do mundo não tinha dado muito certo no passado". O conselheiro fez o "paralelo" com a reação à repressão, no Irã, das manifestações contra a eleição presidencial de 12 de junho. Em outras palavras, os opositores estão avisados de que Obama não tem intenção de mencionar casos individuais, para evitar prejudicá-los.

O presidente americano insistiu diversas vezes sobre o respeito necessário à soberania dos Estados. Questionado sobre o conceito da "responsabilidade de proteger", ele respondeu de uma maneira que limitava claramente esse dever de interferência. "O limiar a partir do qual uma intervenção internacional é justificada deve ser muito elevado. É preciso que haja uma forte indignação internacional. Nem sempre isso é fácil de decidir", ele declarou. Ele pediu a sua administração que refletisse sobre a aplicação de normas internacionais e de pressões (econômicas, diplomáticas...) sobre os países que não respeitam os "valores internacionais" para com seus cidadãos.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host