UOL Notícias Internacional
 

14/07/2009

Após dois meses, morte de ex-dirigente da Al Qaeda ainda é mistério

Le Monde
Marc Perelman
Em 10 de maio, o jornal líbio "Oea" anunciou que Ibn Al-Shaykh Al-Libi havia sido encontrado morto em sua cela na prisão de Abu Salim, na Líbia. Suicídio por enforcamento, segundo a versão oficial. Uma morte que convém a muitas pessoas, em Tripoli, no Cairo e em Washington. Pois Al-Libi, ou Ali Abdul Hamid Al-Fakheri, seu nome verdadeiro, havia se tornado incômodo.

Mais do que qualquer outro, esse islamita líbio encarnava os abusos da guerra contra o terrorismo lançada após os atentados do 11 de setembro. Al-Libi era o mais conhecido dos "prisioneiros fantasmas" da CIA, detidos e torturados pelos americanos e seus aliados nos centros de detenção secretos por todo o planeta. Em seu caso, do Afeganistão à Líbia, passando pelo Egito, sem dúvida a Jordânia, talvez o Marrocos e a Polônia.

Acima de tudo, ele era a prova de que os métodos brutais da CIA não levavam à verdade, mas sim à fabricação de mentiras. Na prisão, Al-Libi acabou fazendo uma confissão: dois militantes da Al-Qaeda haviam sido formados pelo regime de Saddam Hussein utilizando armas químicas e biológicas. Entretanto, essa confissão foi uma invenção para que parassem com as agressões. Uma invenção que logo se tornou uma "prova" utilizada pela administração Bush para justificar sua guerra no Iraque

De volta à trajetória do inconveniente islamita. Al-Libi nasceu em 1963 em Ajdabiya, uma cidade costeira da região nordeste da Líbia. Seis anos mais tarde, um jovem coronel chamado Muammar Kadhafi tomaria o poder. Al-Libi pendeu para o lado do domínio islâmico, oposto ao regime. Nos anos 1980, ele partiu para combater os soviéticos no Afeganistão. E lá permaneceu após a derrota de Moscou, tornando-se o "emir" do campo de treinamento de Khaldan entre 1995 e 2000. E, segundo Washington, um oficial da Al-Qaeda.

Após a invasão americana de outubro de 2001, ele fugiu para o Paquistão, onde foi detido um mês mais tarde e entregue aos americanos no Afeganistão. Uma presa e tanto, "o prisioneiro mais importante da Al-Qaeda detido na sequência do 11 de setembro", segundo George Tenet, o diretor da CIA. Primeiro ele passou pelas mãos do FBI, que utilizaria os métodos clássicos de interrogação.

"Os interrogatórios são feitos segundo as regras, por diversas razões: em princípio, porque funcionava, mas também porque sabíamos que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha estava a par de sua detenção e no futuro faria perguntas sobre ele"; explica hoje Jack Cloonan, na época membro da divisão antiterrorismo do FBI,

Mas a CIA queria submeter Al-Libi a interrogatórios brutais. O diretor do FBI, Robert Mueller, era contra, mas o da CIA, George Tenet, recorreu a George Bush, que lhe deu razão no início de 2002. A CIA decidiu terceirizar o trabalho no Egito. Antes de partir, um agente americano lhe disse: "Você vai para o Cairo. Antes que você chegue lá, vou encontrar sua mãe vou traçar ela".

No local, Al-Libi menciona o nome de Abu Zubaydah, apresentado como um membro importante da Al-Qaeda e que seria detido no Paquistão em março de 2002. Acima de tudo, ele faz uma ligação entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda, oferecendo à administração Bush uma correlação entre os atentados do 11 de setembro e a invasão do Iraque.

A informação contribuiria para a notória apresentação do secretário de Estado Colin Powell, diante do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em fevereiro de 2003. "Posso citar o relato de um importante terrorista, contando que o Iraque levou a Al-Qaeda a essas armas (químicas e biológicas)", clama Powell. "Felizmente, esse terrorista foi preso e contou sua história".

Powell não sabia, mas no momento em que ele pronunciou essas palavras, o serviço de inteligência militar e a CIA já haviam manifestado sérias dúvidas a respeito da veracidade dessas confissões. Em fevereiro de 2004, Al-Libi foi interrogado por agentes da CIA sobre sua detenção no Egito. Ele lhes contou que os egípcios o interrogaram repetidas vezes sobre as ligações entre a Al-Qaeda e Saddam Hussein.

"Um assunto sobre o qual ele disse não saber nada, e sobre o qual teve dificuldades em inventar uma história", segundo um telegrama de 5 de fevereiro de 2004 que os agentes da CIA enviaram a seu quartel-general. Seu relato era detalhado: durante os interrogatórios, Al-Libi ficou fechado durante 17 horas em uma caixa de 50 cm2. Ele negava. Chuva de golpes. Até as "confissões": um dirigente da Al-Qaeda teria despachado dois emissários para o Iraque entre 1997 e 2000 para que eles se familiarizassem com as armas químicas e biológicas. Segundo um relatório do Senado americano publicado em 2007, Al-Libi procurava "evitar a tortura".

Depois do Egito, seu percurso é cercado de mistério. A associação Human Rights Watch afirma que ele provavelmente foi preso na Jordânia, e talvez no Marrocos. Nem o ministério das Relações Estrangeiras marroquino nem a embaixada da Jordânia em Paris se manifestaram.

Em novembro de 2003, Al-Libi voltou sob controle americano para o Afeganistão. Quanto tempo ele ficou lá? Ninguém sabe. Segundo a rede americana ABC News, ele teria sido detido em uma prisão secreta na Polônia. Em julho de 2006, o Congresso americano o colocou em uma lista de "terroristas que não representam mais ameaça". Mas ele desapareceu mais uma vez. Os rumores aumentaram. Segundo o mais insistente, ele foi enviado, muito doente, para sua Líbia natal, onde a Corte de Segurança do Estado o condenou à prisão perpétua.

Desde o 11 de setembro, Washington e Tripoli iniciaram uma reaproximação impressionante. Será que a administração Bush quis recompensar o "novo" Kadhafi oferecendo-lhe um de seus opositores mais perigosos, ao mesmo tempo em que garantia que ele fosse silenciado? Impossível saber.

O mistério sobre o destino de Al-Libi foi finalmente desvendado em 27 de abril de 2009, quando dois investigadores da Human Rights Watch o encontraram na prisão de Abu Salim, perto de Tripoli.


" Ele saiu para o pátio e veio se sentar à nossa mesa. Mas quando lhe explicamos quem nós éramos e o objetivo de nossa iniciativa, ele se levantou bruscamente, perguntando onde estávamos enquanto ele era torturado pelos americanos", conta Heba Morayef, uma dos dois membros da delegação. Segundo ela, Al-Libi parecia estar saudável e andava sem dificuldades. Khalid Saleh, o presidente da associação Libyan Human Rights Solidarity, conta que sua família também o encontrou em forma quando ela o visitou em abril. O detento deu a entender na época que ele esperava por uma libertação em breve. Mas foi seu cadáver que chegou em 12 de maio à casa da família, em sua cidade natal de Ajdabiya, onde ele foi enterrado.

A versão oficial do suicídio por enforcamento deixa muitos observadores incrédulos. Os círculos islamitas líbios afirmam ser homicídio. A família de Al-Libi contou para uma colaboradora da associação Libyan Human Rights Solidarity que a cabeça do cadáver não estava azulada, como geralmente acontece com os enforcados. No nível do pescoço, ela não viu nenhum vestígio de cabo ou de corda, mas dois pontos escuros, segundo Kamel Saleh, o diretor da ONG: "A família tem certeza de que ele foi morto. Mas ela tem medo, e não quer mais falar publicamente".

A Human Rights Watch se pergunta: por que Tripoli teria eliminado Al-Libi duas semanas após tê-lo mostrado pela primeira vez a seus investigadores? E sugere uma explicação: sua morte brutal poderia ser o resultado de rivalidades internas no regime líbio. A administração Obama pediu explicações. Tripoli afirma ter aberto um inquérito. As embaixadas da Líbia em Paris e em Washington não se manifestaram.

Brent Mickum, o advogado de Abu Zubaydah, apresentado por Washington como o número três da Al-Qaeda e detido alguns meses depois de Al-Libi, não acredita de jeito nenhum que seja suicídio. "É contrário ao Islã. O timing de sua morte ajuda muito os Estados Unidos e os países onde ele foi torturado", ele diz. "Não creio que a administração Obama quisesse esse resultado. Mas as pessoas da CIA tinham interesse nisso, pois ele era a prova de suas baixezas. E eu, que tenho acesso aos dossiês confidenciais do Estado, sei que eles são capazes das piores coisas". A CIA nega tudo.

Mickum havia dito recentemente que queria interrogar Al-Libi, pois este comandava o campo de Khaldan, para onde seu cliente, Abu Zubaydah, enviava os voluntários jihadistas. "Al-Libi era fundamental para nós", ele afirma. "Ele poderia ter dito que Abu Zubaydah não fazia parte da Al-Qaeda e que ele o entregou aos americanos sob tortura".

Ainda que as tendências islamitas de Al-Libi não deixem nenhuma dúvida, sua relação com a Al-Qaeda, muitas e muitas vezes alardeada pela administração Bush, suscita dúvidas. Sim, parece ser fato que ele dirigia o campo de Khaldan, pelo qual passaram Zacarias Moussaoui e Richard Reid - o primeiro foi condenado pela justiça americana por querer participar dos atentados de 11 de setembro, e o segundo por ter tentado explodir o voo Paris-Miami com explosivos em seus sapatos. Mas parece que o campo foi fechado em 2000, depois que Al-Libi se recusou a cooperar com Osama Bin Laden, segundo depoimento de vários detentos de Guantánamo diante dos tribunais militares americanos.

Al-Libi levou seus segredos para o túmulo. Sua morte, de qualquer forma, não atrapalha em nada a reconciliação entre Washington e Tripoli. Três dias após o anúncio de seu falecimento, a bandeira estrelada foi hasteada sobre a embaixada americana na capital líbia, pela primeira vez em trinta anos.

Tradução: Lana Lim

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