UOL Notícias Internacional
 

14/07/2009

Romênia, um novo destino para os imigrantes

Le Monde
Mirel Bran
Em Bucareste (Romênia)
Ele percorreu milhares de quilômetros depositando sua vida nas mãos de homens que o transportaram da Somália à Ucrânia e depois para a Romênia, há poucas semanas. Kasim, 29 anos, prefere não se estender sobre seu longo périplo de migrante.

Como os 50 imigrantes alojados no final de junho no centro para refugiados de Somcuta Mare, comunidade situada no noroeste da Romênia, ele sonhava com a Europa Ocidental como um paraíso que justificaria correr todos os riscos. A crise econômica, o desemprego, a dificuldade de encontrar um lugar no Ocidente? "Passe alguns dias na Somália e você verá que tudo isso é uma bobagem", ele explica. "Na Europa pelo menos temos a chance de sobreviver, e isso basta."

Se a miragem do Ocidente ainda funciona, os candidatos a imigração não estão livres de surpresas. "Na minha língua, meu nome significa 'aquele que controla os anjos'", diz Kasim. "Admito que perdi um pouco o controle, e é por isso que me encontro na Romênia."

Na verdade ele tinha perdido o domínio de seu percurso desde o início, ao confiar seu destino a uma rede de passadores que lhe haviam prometido, contra uma grande soma em dinheiro, levá-lo à Alemanha. A noite do transporte da Ucrânia à Romênia certamente lhe pareceu curta, mas a vontade de tocar a terra prometida tinha sido mais forte. Ele havia se decepcionado pelo primeiro contato com as aldeias da Romênia profunda, que não correspondiam à imagem da Alemanha que a televisão havia mostrado. Mas, respeitando a ordem dada pelos caçadores, ele cumprimentou cada camponês que encontrou, esperando que um deles aceitasse levá-lo ao centro de refugiados.

"Eles falam conosco em alemão", diverte-se Vasile Alb, prefeito de Somcuta Mare. "Quando vemos um africano ou um asiático desembarcar em nossa terra, sabemos que vai nos dizer 'Guten Tag' (bom dia). Todos dizem a mesma coisa, eles pensam que estão chegando à Alemanha!"

Choque de civilizações. Os agricultores da Romênia profunda que nunca viram negros se veem diante desses novos imigrantes que os cumprimentam em alemão. No terraço do centro, onde a garçonete é uma jovem etíope, os aldeões falam francamente. "Eu nunca tinha visto negros a não ser na televisão", admite o velho Nicolae. "No início desconfiei deles, mas a gente se acostuma, e depois esses africanos são bons, eles trabalham e não criam problemas."

Oficialmente são 65 mil que imigraram na Romênia, número em constante aumento. Essa nova onda de imigrantes - africanos, indianos, afegãos, iraquianos - é gerada no local graças ao centro de acolhimento da comuna de Somcuta Mare.

O Estado romeno lhes garante abrigo, refeições, algumas roupas, mas o dinheiro se limita a 0,80 de euro por dia, o preço de uma garrafa de suco de fruta. Para se manter eles fazem pequenos trabalhos para os agricultores locais.

"Estou contente com o trabalho deles", declara Dorin Buhaiu, um criador de gado. "Eles chegaram na hora, pois temos dificuldade para encontrar mão-de-obra neste momento. Na verdade eles trabalham melhor que os romenos."

Desde a adesão da Romênia à União Europeia, em 2007, o país enfrenta escassez de mão-de-obra: 3 milhões de romenos partiram para trabalhar nos mercados do Ocidente. Mas o estatuto de país membro da UE torna a Romênia mais atraente para os imigrantes. "No início os agricultores me olhavam um pouco atravessado", confessa Kasim. "Mas eu os entendo, eles nunca viram negros. Agora ficam contentes quando me veem chegar para trabalhar. Finalmente estou bem aqui e poderei me instalar de vez."

Todas as manhãs o jovem somali vai à fazenda, toma café, brinca um pouco com o filho do agricultor que lhe ensina romeno e depois vai vigiar as vacas nos campos. À noite, quando ele recolhe as vacas, conta histórias de seu país, com o pouco de romeno que sabe. Recentemente ele iniciou um relacionamento com uma jovem agricultora romena que não fugiu quando ele lhe propôs que fosse sua mulher. Kasim parece ter retomado o controle de seus anjos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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